A FÁBRICA

Abril 02 2006

Nos últimos dias comecei a dar mais atenção a um fenómeno que se tem vindo a gravar. O avolumar de carros á venda junto de minha casa, a dois passos da nacional 109 que divide a cidade de Aveiro. Dia após dia, lá aparece mais um carro, carrinha, de diferentes marca e estilos, sejam eles Renaults, Volskwagens ou outra marca qualquer. Em comum, a folha de Papel A4 com o respectivo número de telefone dizendo: Procuro Novo Dono, Trata-se ou Vende-se.
Apesar do momento de crise que assola o nosso País (aumento das taxas de juro, aumento de desemprego, aumento das despesas com as necessidades básicas…) subsiste sempre uma dúvida relativamente aos reais motivos que levam os em colocar à venda os seus veículos.
A mim parece-me que a explicação da crise não é suficiente para explicar as coisas e que o problema também está nas pessoas. Assim, e para melhor exemplificar aqui vai uma estória que penso ser elucidativa. Numa das empresas onde trabalhei como Responsável Logístico, e durante um período de acréscimo de actividade, tivemos a necessidade de recrutar um operador cujas tarefas consistiam em manusear um empilhador e abastecer a fábrica de material de embalagem (cartões e esferovites).
Para o efeito procedemos a um recrutamento interno, tendo sido escolhido um jovem funcionário de 20 anos. O responsável de turno encarregue pelo material de embalagem, procedeu nos dias seguintes à formação do jovem. O feedback sobre a sua performance era positivo.
No entanto, passado uns dias e para grande surpresa minha, quando o responsável de turno dirige-se a mim pensativo e preocupado.
“O novo rapaz não sabe fazer contas!”
“Não sabe fazer contas? Ora, está a brincar comigo?” disse-lhe ironicamente.
”Não, a sério, ele para fazer contas está sempre a usar o telemóvel para somar e subtrair, perdendo uma quantidade de tempo enorme. Assim ele não serve.”
Era absolutamente necessário saber fazer contas, ainda que básicas.
Chamei o funcionário e disse-lhe meio a brincar meio a sério: “Ouve lá, é verdade que não sabes somar nem subtrair?”
Responde-me ele “Hein…eu.. Sei…Usando o telemóvel faço as contas.”
Exclamei, admirado com tamanha ignorância. “Usando o telemóvel?!! Mas tens 20 anos? E de acordo com os dados que tenho possuis o 9º ano completo. Não te ensinaram matemática na escola?
“Ah, na escola deixavam usar a calculadora, portanto não precisava de fazer contas.”
Estupefacto, insisti:
“Senta-te aqui ao meu lado, pega nesta caneta e papel, e faz-me a seguinte conta”
Escrevinhei no papel, como me foi ensinado na primária, uma conta simples de fazer (pensava eu).
“Tenho 100 cartões, recebo mais 25 e tiro 10, quantos ficam? “ (Para quem não sabe, ficam 115 cartões). Ele também não soube.
Perante esta situação, não tive outra solução do que devolvê-lo á secção final das linhas de produção e cujo trabalho consistia, no aparafusamento de componentes metálicos de forma repetida e continuada durante as 8 horas laborais. Este trabalho monótono e repetitivo, não carece, de facto, de saber fazer cálculos.
Dias depois, ao chegar ao parque de estacionamento, qual não é minha surpresa, quando vejo este jovem funcionário chegar num carro novo, significativamente melhor do que o meu. Estava eu a matutar sobre como era possível um funcionário que ganhava o salário mínimo andar com um carro daqueles quando encontrei outro colega.
Disparo “Diz-me lá, como é possível fulano tal, ter um carro novo, ele que ganha o salário mínimo e que nem sequer contas de somar/subtrair sabe fazer? “
“Pois, já sabes. Ele não sabe fazer contas, pois não? È por isso que já é 3ª vez que o banco lhe vai buscar um carro á casa por ele não pagar as prestações.”
De facto não era primeira vez que isso lhe sucedia.
A Banca tem atribuído nos anos recentes empréstimos a qualquer pessoa sem averiguar a capacidade dessas pessoas em suportar os empréstimos concedidos. Chegamos pois á situação actual em que a maior parte das pessoas em Portugal têm a corda na garganta no respeitante ao crédito, não conseguindo equilibrar o frágil orçamento familiar.
Resultado: O Português está super endividado, por culpa própria (muitas pessoas têm mais olhos do que barriga quando chega a altura de comprar bens) e do alheio (A concessão de todos as facilidades na hora de conceder créditos/empréstimos por partes das entidades bancárias e outras (Vejam a proliferação de créditos fáceis: Ex: Cofidis)). Esta mistura explosiva tem portanto as consequências já referidas: Impossibilidade de equilibrar o orçamento familiar, pendendo de forma claro e preocupante para um abismo negro para as contas do dia à dia.
Depois é o que se vê:
Os principais bancos Portugueses apresentam lucros recordes na ordem dos milhões de euros (Ex: BCP: 753,5 milhões de euros referentes ao ano de 2005).
A taxa de desemprego não cessa de aumentar contribuindo desse modo para o empobrecimento do cidadão Português. (De acordo com dados publicados pelo INE, no 4º trimestre de 2005, o desemprego oficial atingiu 447.300, mas o corrigido, que inclui os desempregados efectivos que não são considerados nos números oficiais de desemprego, alcançou 579.400.
Em 2005, a taxa oficial de desemprego era de 8%, mas a taxa corrigida de desemprego era já de 10,4%.

Para finalizar a história e porque o problema é mais abrangente do que o que se pensa, uma semana depois do ocorrido, surge uma notícia no telejornal da SIC. Estudantes Universitários não sabem efectuar contas. Em comum o facto de vários estudantes universitários das áreas de Humanística e também das área de Ciências, Matemáticas e Engenharias (estes dois últimos com maiores responsabilidades) não conseguirem efectuar simples contas, tivemos então o seguinte diálogo:
- “No outro dia estava a gozar com o rapaz pelo facto dele não saber fazer contas, mas olha que os seus colegas da Universidade também são iguais…”
Respondi-lhe sorrindo: “Pois é Mário, pois é…”
Enfiei a viola no saco e lá fiquei a pensar no caricato da situação.”
Hoje de manhã, mais dois carros estavam á venda.
A vida está difícil mesmo para quem sabe fazer contas.

Eduardo Luz.
O Eduardo Luz escreverá semanalmente, na Fábrica.
Bem-vindo Luz.
publicado por armando ésse às 10:39

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