A FÁBRICA

Maio 12 2008

Nasci na cidade de Bombaim…um certo dia. Não, não pode ser assim. A data exacta. Nasci na maternidade do Dr. Narlikar no dia 15 de Agosto de 1947. Horas? A hora também é importante. Pois seja: foi de noite. Não, procuremos ser mais…Foi exactamente ao bater da meia-noite. Os ponteiros do relógio uniram as palmas das mãos para me cumprimentarem respeitosamente e me darem as boas-vindas. Há que dizer tudo: fui dado à luz no exacto momento em que a Índia se tornava independente. Continha-se a respiração. Do lado de fora da janela misturava-se o estralejar do fogo-de-artifício com a algazarra da multidão. Poucos segundos depois, o meu pai fracturou o dedo grande do pé; acidente insignificante em comparação com aquilo que me acontecia a mim naquele momento da noite; graças à tirania oculta dos relógios delicadamente acolhedores, eu passava a estar misteriosamente ligado à história e o meu destino indissoluvelmente unido ao meu país. Durante as três décadas seguintes, ser-me-ia impossível escapar. A minha chegada tinha sido profetizada pelos adivinhos, celebraram-na os jornais, os políticos ratificaram a minha autenticidade. Não me foi consentido qualquer voto na matéria. Eu, Saleem Sinai, mas tarde chamado também Muco-na-Penca, Cara-Manchada, Careca, Sorve-Ranho, Buda e até Pedaço-de-Lua, fiquei definitivamente comprometido com o destino…as mais das vezes perigosamente amarrado a esse compromisso. E nessas alturas não tinha quaisquer possibilidades de me assoar.
Entretanto, o tempo (uma vez que não sei o que fazer de mim) está agora a chegar ao seu termo. Completarei em breve trinta e um anos. Se calhar. Se este meu corpo velho e escangalhado o permitir. Mas não me restam grandes esperanças de me salvar, não tenho pela frente sequer mil noites e uma noite. Tenho de ser rápido, mais rápido do que Xerazade, e é se quero deixar claro o sentido… Sim, o sentido. Não há nada que eu receie mais do que o absurdo.
E tenho tantas, tantas histórias para contar, são tantas vidas acontecimentos milagres lugares rumores que se entrelaçam, é tal a mistura de improvável e de mundano! Fui um devorador de vidas e para me conhecerem, só a mim, vão ter de engolir outras tantas. Em mim se cruzam e entrechocam multidões desaparecidas. Guiado apenas pela recordação dum enorme lençol branco, com um buraco vagamente circular de sete polegadas de diâmetro aberto no meio, amarrado ao sonho desse pano furado e mutilado que é o meu talismã, o meu abre-te, Sésamo, vou ter de reconstituir a história da minha vida a partir do momento em que ela efectivamente começou, aí uns trinta e dois anos antes de uma coisa tão óbvia e tão presente como foi o meu nascimento badalado pelos relógios e marcado pelo crime.
(O dito lençol, diga-se de passagem, está também manchado por três gotas de um vermelho velho e desmaiado. Como diz o Alcorão: Proclama em nome do Senhor teu Criador que fez o homem de um coágulo de sangue.)
1ª Página do livro, Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, Editores Reunidos, 1994.
Nota: O romance “Os Filhos da Meia-Noite”, é o favorito a converter-se no melhor Prémio Booker da história deste galardão literário, que completa agora 40 anos e é o mais prestigioso do Reino Unido.
A lista de finalistas foi escolhida por um júri presidido pela biógrafa, romancista e crítica literária Victoria Glendinnir e composto pela escritora e apresentadora Mariella Frostrup e o catedrático John Mullan. O vencedor será anunciado a 10 de Julho, no marco do Festival de Literatura de Londres.
Os leitores têm até à meia-noite de 08 de Julho para votar,
na página web do prémio
, no melhor romance premiado com o Booker, concedido pela primeira vez em 22 de Abril de 1969.
Além do romance de Rushdie, premiado en 1981, figuram na lista de finalistas, agora divulgada, “The Ghost Road” (1995), de Pat Barker, “Óscar e Lucinda” (1988), de Peter Carey, “Desgraça” (1999), de JM Coetzee, “ O Conservador” (1974), de Nadine Gordimer, e “The Siege of Krishnapur” (1973), de JG Farrell.
Já quando se celebrou o vigésimo quinto aniversário do galardão, em 1993, o livro de Rushdie fora eleito o melhor “Booker Prize”. Hoje, 15 anos depois, as apostas na firma William Hill voltam a apontá-lo como favorito, seguido pelas obras Pat Barker, Peter Carey, JM Coetzee, Nadine Gordimer e JG Farrell.(Lusa).
publicado por armando ésse às 15:02

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