A FÁBRICA

Junho 16 2006
Tive uma fase de branca. Não conseguia escrever, pura e simplesmente. Nem sequer era por preguiça, apenas uma absoluta, e espero que passageira, incapacidade de dissertar sobre o que quer que fosse que apoquentava a alma. Nem sequer eram as famosas horas de angústia perante a folha de papel imaculada à espera de ser desflorada, somente uma espécie de desmoronamento interior onde, por algum tempo, deixou de ser possível encaixar os pedaços.
Sentimentos ambivalentes surgem. Uma vontade imensa de escrever e de não o fazer, acompanhada por uma estranha letargia mental e física que se sobrepõe a tudo, sentem-se as ideias mas estas têm preguiça de saltar para o papel como se donas de vontade própria e as palavras fossem inimigas mortais. Uma espécie de dor auto-infligida num processo de nostalgização que é absolutamente desconcertante.
À minha escala percebi as convulsões interiores geradas pelo confronto entre a vontade de escrever e criar e a impossibilidade de o fazer perante forças que escapam ao controlo de que tem este tipo de vivências. Os bloqueios que dominam o pensamento, que se tornam obsessões incontroláveis e que, por sua vez, dominam a existência, associado a uma noção cristalina da inexorabilidade do tempo que se escapa, são certamente os piores inimigos dos verdadeiramente grandes, quando perante uma folha a caneta não avança. Nem fraco nem bom, apenas nada.
Há também alturas em que o rio das ideias seca, uma aridez semelhante ao deserto provocada por uma episódica alienação da realidade, que é evidente quando os assuntos que normalmente nos inquietam o espírito e, apesar de nos revelarem as suas incongruências, não nos empurram para as usuais reflexões. A inércia vence, como se a existência fosse um fardo difícil de suportar.
As ideias não são coerentes, saltam aleatoriamente de neurónio em neurónio, são tantas e tão vagas e tão desprovidas de profundidade. Nada serve, como se de repente o nosso discernimento fosse mais profundo que o habitual e apenas restassem devaneios deprimentes que nos parecem, constantemente, de uma pobreza aviltante.
É por isso que a cada fase assim, sucede uma melhor e nos reencontramos com alguma paz interior. A desordem que lhe deu origem e que se apoderou da pessoa cria um estado de espírito que nos atira para uma crise existencial. Como dizem os psicólogos, reconhecer um problema é o primeiro passo para a cura, e nesse instante apercebemo-nos que permitimos que um pensamento obsessivo nos dominasse por um período, mais ou menos longo, o que possibilita o regresso ao equilíbrio, de dimensão obviamente subjectiva.
Esta de conquista configura uma espécie de regresso.
Com talento ou sem ele, exercer o direito à indignação perante as pragas que induzem o sofrimento de milhões é uma obrigação de todos. A presença de qualquer coisa que nos indigna deveria constituir um motivo com força suficiente para nos arrancar de qualquer estado letárgico. Tentar enquadrar um qualquer conceito que exponha a condição humana, descrevendo a vida nem que seja numa das mais simples dentro das suas infinitas cambiantes, pode ser uma forma de melhorar a existência de alguém. Não fazer nada, tendo a possibilidade para o fazer será um acto que, muito provavelmente, tornará o arrependimento uma obsessão implacável.
Perante isto, a única forma de acabar com a óbvia indiferença que grassa pela humanidade, claramente contra ela própria, é a exposição pública do mal. Escrever é a forma mais consistente de o fazer. As palavras, quando colocadas na ordem certa, podem ganhar a imortalidade e influenciar o futuro, pela denúncia daquilo que se afigura como inconsequente. Sonhar com um mundo melhor não basta é preciso lutar por ele com os recursos que possuímos.
O melhor, por isso, é aproximarmo-nos de qualquer sítio onde costumamos escrever, porque as reflexões fazem-se em todos os momentos de solidão, e assim tentar estabelecer um diálogo com a folha à nossa frente, colocar a caneta na posição, como que abraçada pelos dedos, e deixa-la fluir, ganhar vida própria, ser o prolongamento físico do nosso corpo, o objecto que permite a transmigração das ideias desde o cérebro até ao plano físico, acessíveis a todos, pois só aí desempenham o papel que lhes está reservado.
É que as ideias também querem sair, mas por vezes não o sabem. E quando ganham coragem para o fazer, se tiverem valor, podem mudar o mundo, ou pelo menos alterar visão que alguns têm dele. Nesses instantes é como se se conseguisse eliminar uma doença qualquer, uma espécie de demónio interior que nos faz levantar, sentar coçar, andar, estar parado, sentar outra vez, falar, calar numa inquietude incessante.
Então, o silêncio das ideias passa a ser coisa do passado, as palavras parecem fluir como água num rio, não nos limitamos a ver as coisas, reparámos nelas, devoramos a sua existência numa ânsia desmedida e incontrolável de aprisionar a sua essência. Deixamo-nos envolver pela beleza, pelo que provoca felicidade, sorvendo todos os segundos como se um único perdido fosse motivo para chorar.
Este texto é apenas isto, uma tentativa de ordenar a minha mente, dominada pelo cansaço e que algures no tempo se rendeu sem a determinação necessária ao medo de não o conseguir.

Filipe Pinto.
publicado por armando ésse às 06:58

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