A FÁBRICA

Maio 27 2005

O corpo do alpinista britânico George Mallory, desaparecido no monte Evereste em 8 de Junho de 1924, foi encontrado a 01 Maio 1999, 600 metros abaixo do cume, pela equipa do norte-americano Eric Simonson.
Em 1921 Charles Bell, diplomata britânico encarregado dos negócios com o Tibete, depois de muita pressão, persuadiu o 13º Dalai Lama a permitir uma primeira expedição de reconhecimento ao Evereste. Organizada em 1921, montada pela Sociedade Geográfica Real, com montanhistas do Clube Alpino, ela foi chefiada por C. K. Howard-Bury. Embora composta por montanhistas experientes, tratava-se de experiência em montanhas europeias, com a metade da altura do Evereste. Muito pouco era conhecido sobre os efeitos da altitude, bem como roupas e equipamentos específicos para o ambiente que iriam enfrentar, sendo muitas das melhores avaliações da época impróprias para os padrões actuais. Os nove membros da expedição não formavam o que se poderia chamar de uma grande equipa e após uma extenuante caminhada de 640 quilómetros, desde Sikkim, na Índia, apenas seis chegaram à base da montanha. Para ajudá-los, os britânicos contrataram alguns sherpas que haviam imigrado do Nepal para a Índia. Mas a principal figura da expedição foi George Mallory. Com seu parceiro de montanhismo, G. H. Bullock, gastou um árduo mês explorando a área que o levaria com menor dificuldade até o sopé da montanha, o misterioso glaciar Rongbuk oriental. Ficou óbvio que o Verão, durante o período das monções, não era a época mais favorável para qualquer coisa que se quisesse fazer nos Himalaias. Mas, apesar disto, e dos precários equipamentos, três sherpas e três alpinistas, incluindo George Mallory, alcançaram o Colo Norte, a 6.700 metros de altitude. O incansável George Mallory continuou bisbilhotando a montanha até chegar ao passo Lho, 6.006 metros, uma falha na cordilheira que permitia passar do Tibete para o Nepal. Dali ele pode fazer uma minuciosa observação do glaciar que cobria o vale entre o Evereste e o Nuptse, acima da Cascata de Gelo, o qual baptizou de Cwm – vale, em galês – Ocidental, além de se tornar o primeiro europeu a ver a Cascata de Gelo e o vale Khumbu, no lado nepalês. Mallory voltou para o acampamento e, depois de trocar muitas informações com os outros alpinistas, concluiu ser a Cascata de Gelo um caminho intransponível. Portanto, o melhor era continuar tentando pelo lado tibetano, através do Colo Norte, localizado entre o Evereste e o Changtse, que ficava bem em frente, e a partir dali escalar pela aresta norte, à esquerda da face norte.
Em 1922, uma nova expedição, liderada pelo general C.G. Bruce, iniciou sua jornada antes das monções e gabava-se de ser formada por um grande equipa de 13 pessoas, inclusive um cineasta, e estar abastecida com alimentação especial: champanhe, caviar e esparguete. Que congelou nos campos mais altos. Eles realmente tinham uma alimentação bem mais adequada, mas as roupas não. Eles usavam chapéu, óculos escuro, machadinhas de gelo e cordas, como se estivessem indo para um passeio num parque inglês no Inverno. Para facilitar a logística da operação, diversos acampamentos intermediários foram estabelecidos. O acampamento IV foi montado no Colo Norte e o acampamento V a uma altitude de 7.600 metros. Embora fosse claro que este campo estava baixo demais para servir como base de um ataque ao cume, a primeira tentativa foi feita por George Mallory, Edward Norton e Howard Somerval. Eles subiram a 8.150 metros, sem oxigénio suplementar, antes de descerem com sintomas de congelamento. A segunda tentativa foi realizada por George Finch e C.G.Bruce. Passaram a noite dormindo com auxílio de oxigénio suplementar, o que os manteve melhor aquecidos e permitiu-lhe um bom sono, embora alguns membros da expedição fossem contra por acharem tal atitude anti desportiva. Partiram pela manhã levando apenas uma garrafa térmica de chá e subiram até 8.323 metros, estabelecendo um novo recorde de altitude. A terceira tentativa terminou prematuramente 200 metros abaixo do Colo Norte, quando uma avalanche colheu nove sherpas, matando sete. O Evereste começava a cobrar seu tributo de quem o ousava desafiar. Mas eles não desistiram, iniciando uma campanha de arrecadação de fundos para voltarem aos Himalaias. Durante um ciclo de palestras pelos Estados Unidos, ilustradas com slides das expedições anteriores, quando um irritante jornalista perguntou porque motivo alguém teria que escalar o Evereste, George Mallory respondeu com o que veio a tornar – se a mais célebre frase da história do montanhismo:
- Porque ele está lá!
Em 1924, montou-se nova expedição. Eles ainda não tinham roupas adequadas, especialmente roupas de baixo. A cada alpinista foi entregue um kit de vestimentas no valor de 100 dólares. Edward Norton, chefe da expedição, era o mais bem equipado. Gabava-se de usar macacão corta-vento, um blusão de couro e um capacete de motociclista. Mas lá estavam eles de novo: George Mallory, Andrew Irvine, Edward Norton, Howard Somerval e mais cinco alpinistas. Violenta tormenta atacou-os, ainda no início da expedição, danificando o equipamento de oxigénio e obrigando-os a voltarem para se abrigarem no mosteiro Rongbuk, onde receberam a bênção do Lama, o que eles, imprudentemente, não haviam feito quando passaram pelo local em direcção ao acampamento-base. O acampamento VI foi estabelecido a 8.170 metros, tendo Edward Norton e Howard Somerval dormido no local. Iniciaram o ataque no dia seguinte, muito cedo, mas Howard Somerval foi vencido por um sério ataque de tosse. A garganta inchada congelou, quase sufocando-o. Edward Norton seguiu sozinho montanha acima, vencendo, passo a passo, a encosta coberta de neve, até chegar aos 8.572 metros – meros 276 metros abaixo do cume –, estabelecendo um novo recorde de escalada sem oxigénio artificial, uma marca fantástica para a época, só superada em 1978.Se Edward Norton tivesse oxigénio, possivelmente teria alcançado o cume. Naquela noite, com Edward Norton exausto e sofrendo de nifablepsia, uma cegueira temporária provocada pela reflexão da luz solar na neve, e Howard Somerval fora de acção, George Mallory escolheu o jovem e inexperiente Andrew Irvine para acompanhá-lo na tentativa do próximo dia, embora Noel Odell estivesse mais bem aclimatado e em melhores condições físicas. Os sherpas acompanharam George Mallory e Andrew Irvine até o acampamento VI, ponto em que desistiram de prosseguir, tais eram as condições adversas do clima. Após um breve descanso, regressaram para informar que apesar do fogareiro ter despenhado montanha abaixo, tudo estava bem, e que os dois europeus prosseguiriam. Na manhã seguinte, 8 de Junho de 1924, o tempo estava terrível, fazendo com que George Mallory e Andrew Irvine deixassem o acampamento avançado muito tarde. Enquanto esperavam para ver se as condições melhoravam, perderam estimáveis minutos, erro que provavelmente lhes tirou a vida. George Leigh Mallory estava com 38 anos, nasceu em 1886. Filho da alta burguesia inglesa, professor, casado e pai de três filhos, era considerado o melhor alpinista britânico da sua época. Dotado de refinada cultura e alto idealismo, possuía também uma apurada sensibilidade romântica. Nos acampamentos no Evereste, ele costumava ler Shakespeare para seus colegas de barraca. Naquela manhã de 1924, enquanto George Mallory e Andrew Irvine subiam, com extrema dificuldade, em direcção ao topo do mundo, Noel Odell escalava do acampamento V ao acampamento VI para estudar a geologia das rochas ao longo do caminho. Às 12h50, numa das suas paradas, as nuvens abriram uma brecha no céu e ele pode ver a silhueta dos dois companheiros subindo em direcção ao cume. Uma forte tempestade de neve formou-se na parte de cima do Evereste e, quando clareou, duas horas mais tarde, deixando visível a crista noroeste, não existia mais sinal dos alpinistas. Os dois nunca mais foram vistos. Teriam atingido o cume antes de morrerem? Seriam George Mallory e Andrew Irvine os primeiros a terem escalado o ponto mais alto do planeta? Eles haviam morrido na subida ou na descida? A verdade é que o desaparecimento deu origens a um sem-fim de conjecturas sobre se eles conseguiram ou não atingir o cume antes de morrerem. Montanhistas de expedições subsequentes, ao observarem o local onde Noel Odell avistou Mallory e Irvine pela última vez, concluíram que, Mallory e Irvine possivelmente não teriam chegado ao cume. Em 1980, durante uma expedição japonesa, um dos carregadores chineses, Wang Hongbao, procurou o chefe da equipa alegando que cinco anos antes, enquanto participava de uma expedição chinesa, havia encontrado, perto de onde estavam, o cadáver de um alpinista britânico com roupas muito antigas, sentado num terraço nevado a 8.100 metros de altitude. Se a informação estivesse correcta, certamente seria o corpo de Mallory ou Irvine. Como eles carregavam máquinas fotográficas, poderia – se ficar a saber se haviam ou não chegado ao cume. Mas o mistério continuou porque no dia seguinte o próprio carregador chinês morreu sob uma gigantesca avalanche que desabou sobre seu acampamento.

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Maio 27 2005

O corpo do alpinista britânico George Mallory, desaparecido no monte Evereste em 8 de Junho de 1924, foi encontrado a 01 Maio 1999, 600 metros abaixo do cume, pela equipa do norte-americano Eric Simonson.
Em 1921 Charles Bell, diplomata britânico encarregado dos negócios com o Tibete, depois de muita pressão, persuadiu o 13º Dalai Lama a permitir uma primeira expedição de reconhecimento ao Evereste. Organizada em 1921, montada pela Sociedade Geográfica Real, com montanhistas do Clube Alpino, ela foi chefiada por C. K. Howard-Bury. Embora composta por montanhistas experientes, tratava-se de experiência em montanhas europeias, com a metade da altura do Evereste. Muito pouco era conhecido sobre os efeitos da altitude, bem como roupas e equipamentos específicos para o ambiente que iriam enfrentar, sendo muitas das melhores avaliações da época impróprias para os padrões actuais. Os nove membros da expedição não formavam o que se poderia chamar de uma grande equipa e após uma extenuante caminhada de 640 quilómetros, desde Sikkim, na Índia, apenas seis chegaram à base da montanha. Para ajudá-los, os britânicos contrataram alguns sherpas que haviam imigrado do Nepal para a Índia. Mas a principal figura da expedição foi George Mallory. Com seu parceiro de montanhismo, G. H. Bullock, gastou um árduo mês explorando a área que o levaria com menor dificuldade até o sopé da montanha, o misterioso glaciar Rongbuk oriental. Ficou óbvio que o Verão, durante o período das monções, não era a época mais favorável para qualquer coisa que se quisesse fazer nos Himalaias. Mas, apesar disto, e dos precários equipamentos, três sherpas e três alpinistas, incluindo George Mallory, alcançaram o Colo Norte, a 6.700 metros de altitude. O incansável George Mallory continuou bisbilhotando a montanha até chegar ao passo Lho, 6.006 metros, uma falha na cordilheira que permitia passar do Tibete para o Nepal. Dali ele pode fazer uma minuciosa observação do glaciar que cobria o vale entre o Evereste e o Nuptse, acima da Cascata de Gelo, o qual baptizou de Cwm – vale, em galês – Ocidental, além de se tornar o primeiro europeu a ver a Cascata de Gelo e o vale Khumbu, no lado nepalês. Mallory voltou para o acampamento e, depois de trocar muitas informações com os outros alpinistas, concluiu ser a Cascata de Gelo um caminho intransponível. Portanto, o melhor era continuar tentando pelo lado tibetano, através do Colo Norte, localizado entre o Evereste e o Changtse, que ficava bem em frente, e a partir dali escalar pela aresta norte, à esquerda da face norte.
Em 1922, uma nova expedição, liderada pelo general C.G. Bruce, iniciou sua jornada antes das monções e gabava-se de ser formada por um grande equipa de 13 pessoas, inclusive um cineasta, e estar abastecida com alimentação especial: champanhe, caviar e esparguete. Que congelou nos campos mais altos. Eles realmente tinham uma alimentação bem mais adequada, mas as roupas não. Eles usavam chapéu, óculos escuro, machadinhas de gelo e cordas, como se estivessem indo para um passeio num parque inglês no Inverno. Para facilitar a logística da operação, diversos acampamentos intermediários foram estabelecidos. O acampamento IV foi montado no Colo Norte e o acampamento V a uma altitude de 7.600 metros. Embora fosse claro que este campo estava baixo demais para servir como base de um ataque ao cume, a primeira tentativa foi feita por George Mallory, Edward Norton e Howard Somerval. Eles subiram a 8.150 metros, sem oxigénio suplementar, antes de descerem com sintomas de congelamento. A segunda tentativa foi realizada por George Finch e C.G.Bruce. Passaram a noite dormindo com auxílio de oxigénio suplementar, o que os manteve melhor aquecidos e permitiu-lhe um bom sono, embora alguns membros da expedição fossem contra por acharem tal atitude anti desportiva. Partiram pela manhã levando apenas uma garrafa térmica de chá e subiram até 8.323 metros, estabelecendo um novo recorde de altitude. A terceira tentativa terminou prematuramente 200 metros abaixo do Colo Norte, quando uma avalanche colheu nove sherpas, matando sete. O Evereste começava a cobrar seu tributo de quem o ousava desafiar. Mas eles não desistiram, iniciando uma campanha de arrecadação de fundos para voltarem aos Himalaias. Durante um ciclo de palestras pelos Estados Unidos, ilustradas com slides das expedições anteriores, quando um irritante jornalista perguntou porque motivo alguém teria que escalar o Evereste, George Mallory respondeu com o que veio a tornar – se a mais célebre frase da história do montanhismo:
- Porque ele está lá!
Em 1924, montou-se nova expedição. Eles ainda não tinham roupas adequadas, especialmente roupas de baixo. A cada alpinista foi entregue um kit de vestimentas no valor de 100 dólares. Edward Norton, chefe da expedição, era o mais bem equipado. Gabava-se de usar macacão corta-vento, um blusão de couro e um capacete de motociclista. Mas lá estavam eles de novo: George Mallory, Andrew Irvine, Edward Norton, Howard Somerval e mais cinco alpinistas. Violenta tormenta atacou-os, ainda no início da expedição, danificando o equipamento de oxigénio e obrigando-os a voltarem para se abrigarem no mosteiro Rongbuk, onde receberam a bênção do Lama, o que eles, imprudentemente, não haviam feito quando passaram pelo local em direcção ao acampamento-base. O acampamento VI foi estabelecido a 8.170 metros, tendo Edward Norton e Howard Somerval dormido no local. Iniciaram o ataque no dia seguinte, muito cedo, mas Howard Somerval foi vencido por um sério ataque de tosse. A garganta inchada congelou, quase sufocando-o. Edward Norton seguiu sozinho montanha acima, vencendo, passo a passo, a encosta coberta de neve, até chegar aos 8.572 metros – meros 276 metros abaixo do cume –, estabelecendo um novo recorde de escalada sem oxigénio artificial, uma marca fantástica para a época, só superada em 1978.Se Edward Norton tivesse oxigénio, possivelmente teria alcançado o cume. Naquela noite, com Edward Norton exausto e sofrendo de nifablepsia, uma cegueira temporária provocada pela reflexão da luz solar na neve, e Howard Somerval fora de acção, George Mallory escolheu o jovem e inexperiente Andrew Irvine para acompanhá-lo na tentativa do próximo dia, embora Noel Odell estivesse mais bem aclimatado e em melhores condições físicas. Os sherpas acompanharam George Mallory e Andrew Irvine até o acampamento VI, ponto em que desistiram de prosseguir, tais eram as condições adversas do clima. Após um breve descanso, regressaram para informar que apesar do fogareiro ter despenhado montanha abaixo, tudo estava bem, e que os dois europeus prosseguiriam. Na manhã seguinte, 8 de Junho de 1924, o tempo estava terrível, fazendo com que George Mallory e Andrew Irvine deixassem o acampamento avançado muito tarde. Enquanto esperavam para ver se as condições melhoravam, perderam estimáveis minutos, erro que provavelmente lhes tirou a vida. George Leigh Mallory estava com 38 anos, nasceu em 1886. Filho da alta burguesia inglesa, professor, casado e pai de três filhos, era considerado o melhor alpinista britânico da sua época. Dotado de refinada cultura e alto idealismo, possuía também uma apurada sensibilidade romântica. Nos acampamentos no Evereste, ele costumava ler Shakespeare para seus colegas de barraca. Naquela manhã de 1924, enquanto George Mallory e Andrew Irvine subiam, com extrema dificuldade, em direcção ao topo do mundo, Noel Odell escalava do acampamento V ao acampamento VI para estudar a geologia das rochas ao longo do caminho. Às 12h50, numa das suas paradas, as nuvens abriram uma brecha no céu e ele pode ver a silhueta dos dois companheiros subindo em direcção ao cume. Uma forte tempestade de neve formou-se na parte de cima do Evereste e, quando clareou, duas horas mais tarde, deixando visível a crista noroeste, não existia mais sinal dos alpinistas. Os dois nunca mais foram vistos. Teriam atingido o cume antes de morrerem? Seriam George Mallory e Andrew Irvine os primeiros a terem escalado o ponto mais alto do planeta? Eles haviam morrido na subida ou na descida? A verdade é que o desaparecimento deu origens a um sem-fim de conjecturas sobre se eles conseguiram ou não atingir o cume antes de morrerem. Montanhistas de expedições subsequentes, ao observarem o local onde Noel Odell avistou Mallory e Irvine pela última vez, concluíram que, Mallory e Irvine possivelmente não teriam chegado ao cume. Em 1980, durante uma expedição japonesa, um dos carregadores chineses, Wang Hongbao, procurou o chefe da equipa alegando que cinco anos antes, enquanto participava de uma expedição chinesa, havia encontrado, perto de onde estavam, o cadáver de um alpinista britânico com roupas muito antigas, sentado num terraço nevado a 8.100 metros de altitude. Se a informação estivesse correcta, certamente seria o corpo de Mallory ou Irvine. Como eles carregavam máquinas fotográficas, poderia – se ficar a saber se haviam ou não chegado ao cume. Mas o mistério continuou porque no dia seguinte o próprio carregador chinês morreu sob uma gigantesca avalanche que desabou sobre seu acampamento.

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Maio 27 2005

O Evereste é a montanha mais alta da Terra com 8848 metros de altura – o equivalente à altitude de cruzeiro de um Boeing.
O cume, localizado na cordilheira dos Himalaias, possui 60 milhões de anos e foi identificado como tecto do mundo pelo Procurador-geral da Coroa Britânica na Índia Sir George Everest em 1856. Criou-se então a aura de mistério em torno da montanha.
Enquanto os nativos da região a encaravam como um lugar sagrado e, portanto, evitavam aventurar-se nas suas encostas, os ocidentais olhavam-no como mais um ponto a ser conquistado. O primeiro homem a explorar o monte, cujo nome nativo é Sagarmatha (a deusa mãe da Terra), foi John Noel. No início da década de 20, ele fotografou os Himalaias com predilecção por imagens do Evereste.
Em 1921, um diplomata britânico conseguiu persuadir o 13º Dalai Lama a permitir uma primeira expedição de reconhecimento do Evereste. A equipa estava mal preparada, pois só havia treinado em montanhas europeias com no máximo metade do tamanho de Sagarmatha.
Dos nove alpinistas apenas seis chegaram à base da montanha. Entre eles estava George Mallory, o homem que pode ter sido o primeiro a chegar ao topo do Evereste. Fascinado pelo desafio de chegar ao tecto do mundo, Mallory não desistiu e tentou chegar ao topo da montanha por mais três vezes.
Acabou morrendo na sua última escalada, em Junho de 1924.
Não se sabe consegui chegar ao topo ou não, mas sem provas não há façanha e a conquista do Evereste só foi reconhecida no dia 29 de Maio de 1953, quando o neozelandês Edmund Hillary e o sherpa nepalês Tenzing Norgay chegaram ao topo.
Desde essa data, cerca de 1200 pessoas realizaram o feito e 175 morreram tentando atingir o pico do Evereste.
Outros números:
Em 1973, Sambu Tamang, do Nepal, chegou ao topo aos 16 anos tornando-se a pessoa mais jovem a subir o Evereste.
Em 1975, a primeira mulher chegou ao topo do monte Evereste. Tratava-se da japonesa Junko Tabei.
Em 1978, o italiano Reinhold Messner e o austríaco Peter Habeler são os primeiros a subir o Evereste sem utilizarem oxigénio artificial.
Em 1995 a alpinista inglesa Alison Hargreaves torna-se a primeira mulher a escalar os 8.848 metros do Evereste sem usar oxigénio artificial.
A pessoa mais velha a escalar o Evereste foi Yuichiro Miura, de 70 anos. Chegou ao topo no dia 22 de Maio de 2003.
Em coordenadas geográficas, o Monte Evereste está a 27° 59’ Norte de latitude e 86° 56’ Leste de longitude.
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Maio 27 2005

O Evereste é a montanha mais alta da Terra com 8848 metros de altura – o equivalente à altitude de cruzeiro de um Boeing.
O cume, localizado na cordilheira dos Himalaias, possui 60 milhões de anos e foi identificado como tecto do mundo pelo Procurador-geral da Coroa Britânica na Índia Sir George Everest em 1856. Criou-se então a aura de mistério em torno da montanha.
Enquanto os nativos da região a encaravam como um lugar sagrado e, portanto, evitavam aventurar-se nas suas encostas, os ocidentais olhavam-no como mais um ponto a ser conquistado. O primeiro homem a explorar o monte, cujo nome nativo é Sagarmatha (a deusa mãe da Terra), foi John Noel. No início da década de 20, ele fotografou os Himalaias com predilecção por imagens do Evereste.
Em 1921, um diplomata britânico conseguiu persuadir o 13º Dalai Lama a permitir uma primeira expedição de reconhecimento do Evereste. A equipa estava mal preparada, pois só havia treinado em montanhas europeias com no máximo metade do tamanho de Sagarmatha.
Dos nove alpinistas apenas seis chegaram à base da montanha. Entre eles estava George Mallory, o homem que pode ter sido o primeiro a chegar ao topo do Evereste. Fascinado pelo desafio de chegar ao tecto do mundo, Mallory não desistiu e tentou chegar ao topo da montanha por mais três vezes.
Acabou morrendo na sua última escalada, em Junho de 1924.
Não se sabe consegui chegar ao topo ou não, mas sem provas não há façanha e a conquista do Evereste só foi reconhecida no dia 29 de Maio de 1953, quando o neozelandês Edmund Hillary e o sherpa nepalês Tenzing Norgay chegaram ao topo.
Desde essa data, cerca de 1200 pessoas realizaram o feito e 175 morreram tentando atingir o pico do Evereste.
Outros números:
Em 1973, Sambu Tamang, do Nepal, chegou ao topo aos 16 anos tornando-se a pessoa mais jovem a subir o Evereste.
Em 1975, a primeira mulher chegou ao topo do monte Evereste. Tratava-se da japonesa Junko Tabei.
Em 1978, o italiano Reinhold Messner e o austríaco Peter Habeler são os primeiros a subir o Evereste sem utilizarem oxigénio artificial.
Em 1995 a alpinista inglesa Alison Hargreaves torna-se a primeira mulher a escalar os 8.848 metros do Evereste sem usar oxigénio artificial.
A pessoa mais velha a escalar o Evereste foi Yuichiro Miura, de 70 anos. Chegou ao topo no dia 22 de Maio de 2003.
Em coordenadas geográficas, o Monte Evereste está a 27° 59’ Norte de latitude e 86° 56’ Leste de longitude.
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Maio 27 2005

João José Silva Abranches Garcia nasceu no dia 11 de Junho de 1967 na cidade de Lisboa. Iniciou-se na escalada em rocha na Serra da Estrela, quando tinha 16 anos, através de um contacto com o Clube de Montanhismo da Guarda. Passou à escalada em neve e gelo em 1983, nos Alpes, e, dez anos mais tarde, integrou uma expedição internacional ao monte Cho – Oyo (8201 metros), no Tibete. Chegou ao topo sem recorrer a oxigénio e, no ano seguinte, decidiu repetir o feito numa outra expedição internacional, desta feita ao monte Dhaulagiri (8167 metros), no Nepal. Tornou-se, por isso, no primeiro português a escalar duas montanhas com mais de oito mil metros de altitude sem oxigénio artificial. Em 1997 tentou, pela primeira vez, escalar o monte Evereste (8848 metros) – pisado pela primeira vez em 29 de Maio de 1953, pelo neo-zelandês Sir Edmund Hillary e pelo nepalês Tenzing Norgay- mas o mau tempo impediu-o de chegar ao topo. No ano seguinte voltou a tentar, mas apenas conseguiu chegar aos 8200 metros e, mesmo assim, ficou com geluras (queimaduras provocadas pelo frio) no nariz. Em 1999, juntamente com o belga Pascal Debrouwer, João Garcia voltou a tentar chegar ao topo do Evereste e, desta vez, conseguiu atingi-lo e sem a ajuda de oxigénio. Pascal Debrouwer, no entanto, caiu numa ravina durante a descida e morreu. João Garcia teve de ser internado num hospital de Saragoça, em Espanha, especializado em queimaduras de segundo e terceiro grau, onde lhe amputaram alguns dedos de uma mão. Este feito colocou João Garcia na galeria de alpinistas que subiram ao monte mais alto do mundo e que é composta por oito centenas de pessoas, fazendo com que o seu nome figurasse entre as seis dezenas de escaladores que lá chegaram sem oxigénio. Destes 60, metade morreu.
João Garcia já subiu várias vezes o Monte Branco, nos Alpes. Escala frequentemente em Yosemite, no Alasca, nos Andes e no Atlas. Entre os montes mais importantes que já escalou, para além das três montanhas já referidas com mais de oito mil metros, estão o Shishapangma, face sul, (7500 metros), nos Himalaias, em 1993, o Nanga Parbat (7600 metros), também nos Himalaias, em 1996, o Aconcágua (6959 metros), nos Andes, em 1996, e o Ama Dablam (6856 metros), igualmente nos Himalaias, em 1997, em 2001 o Gasherbrum II, Em 2002 o Pumori (7120 metros), em 2003 o Vinson, na Antártica, Mimlung Himal (7167 metros), em 2004 o Gasherbrum I (8064 metros), o Aconcagua e o Amadablam (6954 metros), em 2005 o Lothse (8516 metros).

A sedução pelas montanhas, que conheceu desde muito novo com o pai, que é piloto de aviação, fez com que fizesse do alpinismo o seu modo de vida. Foi militar ao serviço da Nato, tendo passado duas comissões nos Alpes, o que lhe valeu alguma experiência em matéria de alpinismo. Desde 1998, é guia de alta montanha da agência «Montagnes du Monde», com sede na Bélgica e escritório em Kathmandu, a capital do Nepal.
Depois de ter conseguido chegar ao topo do Evereste, a Secretaria de Estado do Desporto portuguesa decidiu atribuir-lhe uma Medalha de Mérito Desportivo e um apoio financeiro idêntico ao que recebem os campeões do mundo noutras modalidades, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou-o no dia 18 de Janeiro de 2000. É sócio Honorário do Clube de Montanhismo da Guarda e tem a Carta de Montanheiro honorífica por parte da Federação Portuguesa de Campismo – Escola Nacional de Montanhismo. Recebeu o prémio “Fair-Play” referente ao ano de 1999, atribuído por deliberação da Comissão Executiva do Comité Olímpico de Portugal e o galardão de desportista do ano de 1999 da Confederação dos Desportos.
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Maio 27 2005

João José Silva Abranches Garcia nasceu no dia 11 de Junho de 1967 na cidade de Lisboa. Iniciou-se na escalada em rocha na Serra da Estrela, quando tinha 16 anos, através de um contacto com o Clube de Montanhismo da Guarda. Passou à escalada em neve e gelo em 1983, nos Alpes, e, dez anos mais tarde, integrou uma expedição internacional ao monte Cho – Oyo (8201 metros), no Tibete. Chegou ao topo sem recorrer a oxigénio e, no ano seguinte, decidiu repetir o feito numa outra expedição internacional, desta feita ao monte Dhaulagiri (8167 metros), no Nepal. Tornou-se, por isso, no primeiro português a escalar duas montanhas com mais de oito mil metros de altitude sem oxigénio artificial. Em 1997 tentou, pela primeira vez, escalar o monte Evereste (8848 metros) – pisado pela primeira vez em 29 de Maio de 1953, pelo neo-zelandês Sir Edmund Hillary e pelo nepalês Tenzing Norgay- mas o mau tempo impediu-o de chegar ao topo. No ano seguinte voltou a tentar, mas apenas conseguiu chegar aos 8200 metros e, mesmo assim, ficou com geluras (queimaduras provocadas pelo frio) no nariz. Em 1999, juntamente com o belga Pascal Debrouwer, João Garcia voltou a tentar chegar ao topo do Evereste e, desta vez, conseguiu atingi-lo e sem a ajuda de oxigénio. Pascal Debrouwer, no entanto, caiu numa ravina durante a descida e morreu. João Garcia teve de ser internado num hospital de Saragoça, em Espanha, especializado em queimaduras de segundo e terceiro grau, onde lhe amputaram alguns dedos de uma mão. Este feito colocou João Garcia na galeria de alpinistas que subiram ao monte mais alto do mundo e que é composta por oito centenas de pessoas, fazendo com que o seu nome figurasse entre as seis dezenas de escaladores que lá chegaram sem oxigénio. Destes 60, metade morreu.
João Garcia já subiu várias vezes o Monte Branco, nos Alpes. Escala frequentemente em Yosemite, no Alasca, nos Andes e no Atlas. Entre os montes mais importantes que já escalou, para além das três montanhas já referidas com mais de oito mil metros, estão o Shishapangma, face sul, (7500 metros), nos Himalaias, em 1993, o Nanga Parbat (7600 metros), também nos Himalaias, em 1996, o Aconcágua (6959 metros), nos Andes, em 1996, e o Ama Dablam (6856 metros), igualmente nos Himalaias, em 1997, em 2001 o Gasherbrum II, Em 2002 o Pumori (7120 metros), em 2003 o Vinson, na Antártica, Mimlung Himal (7167 metros), em 2004 o Gasherbrum I (8064 metros), o Aconcagua e o Amadablam (6954 metros), em 2005 o Lothse (8516 metros).

A sedução pelas montanhas, que conheceu desde muito novo com o pai, que é piloto de aviação, fez com que fizesse do alpinismo o seu modo de vida. Foi militar ao serviço da Nato, tendo passado duas comissões nos Alpes, o que lhe valeu alguma experiência em matéria de alpinismo. Desde 1998, é guia de alta montanha da agência «Montagnes du Monde», com sede na Bélgica e escritório em Kathmandu, a capital do Nepal.
Depois de ter conseguido chegar ao topo do Evereste, a Secretaria de Estado do Desporto portuguesa decidiu atribuir-lhe uma Medalha de Mérito Desportivo e um apoio financeiro idêntico ao que recebem os campeões do mundo noutras modalidades, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou-o no dia 18 de Janeiro de 2000. É sócio Honorário do Clube de Montanhismo da Guarda e tem a Carta de Montanheiro honorífica por parte da Federação Portuguesa de Campismo – Escola Nacional de Montanhismo. Recebeu o prémio “Fair-Play” referente ao ano de 1999, atribuído por deliberação da Comissão Executiva do Comité Olímpico de Portugal e o galardão de desportista do ano de 1999 da Confederação dos Desportos.
publicado por armando ésse às 14:00

Maio 27 2005

«A montanha só está escalada quando chegamos ao cume, mas o importante é regressarmos bem.» O alpinista João Garcia arruma numa frase a persistência, a coragem e outros tantos atributos que pela primeira vez levaram a bandeira de Portugal ao «tecto do mundo». A amputação do nariz, de parte dos dedos das mãos e a perda do companheiro Pascal Debrouwer é a prova de que a expedição não correu bem. A resposta ao desafio de escalar o Evereste, foi dada no livro que João Garcia, alpinista profissional, escreveu, “A mais alta solidão”, e essencialmente para contar a subida e a descida atribulada que custou a vida ao companheiro de expedição, Pascal Debrouwer. O monte Evereste, nos Himalaias, a 8.848 metros de altitude e uma temperatura de 40º negativos. Gorada a tentativa de 1997, por razões logísticas, João Garcia conheceu Pascal, um alpinista belga responsável pela empresa «Montagnes du Monde», que organizava expedições aos locais mais altos do globo. Ambos formaram uma parceria e delinearam as duas expedições ao monte Evereste em 98 e 99, a 8.848 metros de altitude e a uma temperatura de 40º negativos. Os dois alpinistas profissionais moviam-se por um sentimento comum. A vontade em ultrapassar o clima inóspito e instável dos montes Himalaias levou-os a traçar o plano para atingirem o pico do monte Evereste, pela face Norte. Recusaram levar oxigénio artificial, querendo fazer tudo da forma mais ética e correcta, o que segundo João Garcia «torna tudo mais difícil, mas com muito mais valor». Uma prática restringida a uma elite mundial: 7% dos destemidos que subiram ao Evereste fizeram-no neste estilo. Era uma questão de terminar algo que se encontrava incompleto numa vida dedicada à escalada.
A preparação para uma tarefa tão árdua vem de há muito tempo. «Não comecei ontem, comecei há 17 anos, durante os quais já tinha realizado sete expedições a cumes de mais de 8.000 metros. O medo existe mas vamo-nos habituando a pouco e pouco. Ganha-se a endurance e a resistência capazes de enfrentar este tipo de dificuldades», confessa João Garcia, um desportista que praticou triatlo de competição, treinava quatro horas por dia, correu duas maratonas e acima de tudo andava muito montanha, onde por vezes permanecia durante oito horas. A expedição saíu a 4 de Abril de Kathmandu, a capital do Nepal, a 1.600 metros de altitude. Depois, mais à frente, era preciso aclimatizar. Ou seja, fazer uma adaptação progressiva à altitude, através de movimentos ascendentes e descendentes no percurso para o cume. Até ao dia do «assalto final». O homem não foi feito para viver a esta altitude, mas «para nós há um certo fascínio. A muita gente faria medo estar lá em cima a algumas horas de descida. Uma pessoa habitua-se. Até a própria família convive com o facto de eu partir e estar dois meses fora», esclarece João Garcia. A caminho do cume o oxigénio escasseia. Neste ambiente, o corpo humano responde intensificando a produção de glóbulos vermelhos para melhorar o aporte de oxigénio às células. E João Garcia possui características semelhantes à de um atleta de alta competição: «Adapto-me bem às situações adversas, mas não deixa de ser muito cansativo. Acima dos 8.000 metros já estamos numa situação de quatro respirações, um movimento e assim por diante. Quando paramos não conseguimos repor a nossa respiração. Estamos sempre ofegantes 24 por 24 horas.»
No topo branco do Evereste, a pequena bandeira portuguesa foi exibida a 18 de Maio de 1999. João Garcia posou para a posteridade, numa fotografia tirada por Pascal Debrouwer. Agora Faltava descer, e aí a tragédia aconteceu, algo que é frequente naquele meio agreste. O maior problema da grande altitude e das sequelas que trouxe da expedição não é só o frio e o vento. O metabolismo e a respiração aceleram, o ar é tão seco que a simples respiração leva a uma enorme desidratação e a capacidade de raciocínio é reduzida drasticamente. Por dia perdem-se cerca de oito litros de líquido, que é impossível repor na totalidade. Fazer cada litro de água a oito mil metros, com 40 º negativos, demora cerca de meia hora. Três a quatro litros por dia já são um contentamento. Por isso, acima dos oito mil metros convém não estar mais que 24 a 36 horas.«Com a desidratação, o organismo entra imediatamente em saldo negativo, o sangue torna-se mais espesso e a circulação nas extremidades torna-se muito deficiente e é por isso que congelamos», refere o nosso interlocutor. A noite e a intempérie constituíram um bloqueio para alcançar o campo 3, a 8.300 metros. Sem conseguir fazer água, restou apenas a João Garcia manter o corpo quente. «Se me tenho aventurado a descer pela noite, se calhar não regressava.» Mas a determinação fez com que não se juntasse aos mais de 150 escaladores que pereceram no Evereste. Quando chegou ao campo base vinha sozinho. Pascal Debrouwer, o seu companheiro de escalada, não tinha conseguido. Ministraram-lhe injecções de aparina, substância que dilui o sangue e facilita a circulação. Mas o português apresentava tecidos mortos por congelação no nariz e nas pontas dos dedos das mãos. Nos pés formaram-se bolhas em tecidos mal irrigados por congelação e, por mais antibióticos que tomasse, uma infecção oportunista seria bastante grave, sabendo que o calçado é bastante atreito a fungos e micoses, por exemplo. A ajuda para prosseguir caminho surgiu nos sete tibetanos contratados que o carregaram até ao transporte que o levaria a Kathmandu. Sobreviveu.
Saragoça foi a próxima escala. Aí esperava-o José Ramon Morandeira, director da Unidade Mista do Hospital Universitário Lozano Tlesa. Este médico alpinista e também vítima de congelação nos dedos dos pés, encetou as investigações nessa área há cerca de 10 anos e pela sua equipa passaram já mais de 90 casos. Por isso, João Garcia sentiu a segurança de que precisava: «Quando se está numa situação em que estive, sentir que estava bem entregue foi meio caminho andado para o bem-estar psíquico.» Vieram os banhos térmicos com borbulhas de oxigénio e as injecções de aparinas de baixo teor molecular. «Quando cheguei ao hospital os médicos disseram-me para me acalmar e que provavelmente nem perderia nada das mãos. Reconheci que a situação estava difícil, mas queria acreditar que as coisas se resolvessem. Depois de três semanas de tratamento, o meu grande choque foi quando vi a gamografia. Olhei para o monitor e reparei que as minhas mãos só eram detectadas a metade...» O cérebro de João Garcia ainda não «esqueceu» a sensação das unhas e das pontas dos dedos, mas a chamada síndroma fantasma desaparecerá com o tempo. «Este é o pior dos cenários para um escalador, já que as mãos são essencialmente o verdadeiro instrumento de trabalho.» O nariz, os dedos das mãos e os dedos dos pés foram alvo de intervenções cirúrgicas. O «enxerto índio» é o nome da técnica de reconstrução nasal a que João Garcia foi submetido. Agora só falta realizar um enxerto de pele na testa, donde foi retirado o tecido para o nariz. Uma operação que provavelmente vai realizar em Portugal. Para fechar as feridas resultantes da amputação dos dedos das mãos foram executados micro enxertos com tecido extraído de um dos braços. Há cinco ou dez anos pouco teria restado dos dedos, mas o requinte das técnicas actuais salvaram uma parte. «Agora sinto-me como um reformado aos 30 anos, que pode continuar a fazer aquilo de que gosta. Sempre fui uma pessoa muito racional e chego à conclusão de que hei-de desfrutar o alpinismo de outra maneira.» Sem perder a vontade de subir à montanha, pensa voltar aos oito mil metros, mas prevenido. Usará oxigénio nos últimos 500 metros, umas injecções de aparina para favorecer o fluxo sanguíneo, uma hidratação adequada e umas luvas com aquecimento eléctrico. A circulação periférica nas mãos de João Garcia vai demorar dois anos a reconstituir-se. As palmas das mãos de João Garcia estão quentes, mas os dedos são frios, como a inóspita região dos Himalaias, onde conquistou o topo do mundo para Portugal. «Tenho de continuar, pelo menos para dar sentido aos últimos 15 anos da minha vida!»
«Não posso chamar tempestade àquilo que aconteceu. Uma tempestade a 8.800 ou 8.600 metros— foi onde eu bivaquei – é uma coisa terrível. O «jet stream» é o vento de 30.000 pés, que atingem 250 km/h. Ora um homem lá em cima voa nessas condições. Por isso eu não estaria cá se tal acontecesse. Mas houve de facto um aumento gradual do vento, o que acontece sempre à tarde».
«O sol começa a pôr-se, a temperatura começa a esfriar e o ar quente começa a subir pela face norte do Evereste. Isto dificulta muito depois na descida. Temos umas luvas grandes e depois umas mais pequenas, mas há que agarrar uma corda, colocar um mosquetão (espécie de argolas por onde deslizam as cordas)... Tudo isto obriga a meter os dentes nas luvas para não perdê-las, trabalhar e voltar a meter as luvas: são factores que atrasam e que, neste caso, atrasaram mesmo. Depois a noite chegou e ficámos bloqueados, tentando sobreviver. Entretanto, perdi de vista o Pascal. «Devo reconhecer que o facto de ter estado muito tempo em altitude à espera do meu colega fez com que o efeito da congelação se agravasse. Nestas altitudes raciocinamos muito mal, com cerca de 30% das faculdades normais. É como “a bebedeira de altitude”. Só uma grande determinação impede que o escalador se sente e continue a descida.»
publicado por armando ésse às 13:16

Maio 27 2005

«A montanha só está escalada quando chegamos ao cume, mas o importante é regressarmos bem.» O alpinista João Garcia arruma numa frase a persistência, a coragem e outros tantos atributos que pela primeira vez levaram a bandeira de Portugal ao «tecto do mundo». A amputação do nariz, de parte dos dedos das mãos e a perda do companheiro Pascal Debrouwer é a prova de que a expedição não correu bem. A resposta ao desafio de escalar o Evereste, foi dada no livro que João Garcia, alpinista profissional, escreveu, “A mais alta solidão”, e essencialmente para contar a subida e a descida atribulada que custou a vida ao companheiro de expedição, Pascal Debrouwer. O monte Evereste, nos Himalaias, a 8.848 metros de altitude e uma temperatura de 40º negativos. Gorada a tentativa de 1997, por razões logísticas, João Garcia conheceu Pascal, um alpinista belga responsável pela empresa «Montagnes du Monde», que organizava expedições aos locais mais altos do globo. Ambos formaram uma parceria e delinearam as duas expedições ao monte Evereste em 98 e 99, a 8.848 metros de altitude e a uma temperatura de 40º negativos. Os dois alpinistas profissionais moviam-se por um sentimento comum. A vontade em ultrapassar o clima inóspito e instável dos montes Himalaias levou-os a traçar o plano para atingirem o pico do monte Evereste, pela face Norte. Recusaram levar oxigénio artificial, querendo fazer tudo da forma mais ética e correcta, o que segundo João Garcia «torna tudo mais difícil, mas com muito mais valor». Uma prática restringida a uma elite mundial: 7% dos destemidos que subiram ao Evereste fizeram-no neste estilo. Era uma questão de terminar algo que se encontrava incompleto numa vida dedicada à escalada.
A preparação para uma tarefa tão árdua vem de há muito tempo. «Não comecei ontem, comecei há 17 anos, durante os quais já tinha realizado sete expedições a cumes de mais de 8.000 metros. O medo existe mas vamo-nos habituando a pouco e pouco. Ganha-se a endurance e a resistência capazes de enfrentar este tipo de dificuldades», confessa João Garcia, um desportista que praticou triatlo de competição, treinava quatro horas por dia, correu duas maratonas e acima de tudo andava muito montanha, onde por vezes permanecia durante oito horas. A expedição saíu a 4 de Abril de Kathmandu, a capital do Nepal, a 1.600 metros de altitude. Depois, mais à frente, era preciso aclimatizar. Ou seja, fazer uma adaptação progressiva à altitude, através de movimentos ascendentes e descendentes no percurso para o cume. Até ao dia do «assalto final». O homem não foi feito para viver a esta altitude, mas «para nós há um certo fascínio. A muita gente faria medo estar lá em cima a algumas horas de descida. Uma pessoa habitua-se. Até a própria família convive com o facto de eu partir e estar dois meses fora», esclarece João Garcia. A caminho do cume o oxigénio escasseia. Neste ambiente, o corpo humano responde intensificando a produção de glóbulos vermelhos para melhorar o aporte de oxigénio às células. E João Garcia possui características semelhantes à de um atleta de alta competição: «Adapto-me bem às situações adversas, mas não deixa de ser muito cansativo. Acima dos 8.000 metros já estamos numa situação de quatro respirações, um movimento e assim por diante. Quando paramos não conseguimos repor a nossa respiração. Estamos sempre ofegantes 24 por 24 horas.»
No topo branco do Evereste, a pequena bandeira portuguesa foi exibida a 18 de Maio de 1999. João Garcia posou para a posteridade, numa fotografia tirada por Pascal Debrouwer. Agora Faltava descer, e aí a tragédia aconteceu, algo que é frequente naquele meio agreste. O maior problema da grande altitude e das sequelas que trouxe da expedição não é só o frio e o vento. O metabolismo e a respiração aceleram, o ar é tão seco que a simples respiração leva a uma enorme desidratação e a capacidade de raciocínio é reduzida drasticamente. Por dia perdem-se cerca de oito litros de líquido, que é impossível repor na totalidade. Fazer cada litro de água a oito mil metros, com 40 º negativos, demora cerca de meia hora. Três a quatro litros por dia já são um contentamento. Por isso, acima dos oito mil metros convém não estar mais que 24 a 36 horas.«Com a desidratação, o organismo entra imediatamente em saldo negativo, o sangue torna-se mais espesso e a circulação nas extremidades torna-se muito deficiente e é por isso que congelamos», refere o nosso interlocutor. A noite e a intempérie constituíram um bloqueio para alcançar o campo 3, a 8.300 metros. Sem conseguir fazer água, restou apenas a João Garcia manter o corpo quente. «Se me tenho aventurado a descer pela noite, se calhar não regressava.» Mas a determinação fez com que não se juntasse aos mais de 150 escaladores que pereceram no Evereste. Quando chegou ao campo base vinha sozinho. Pascal Debrouwer, o seu companheiro de escalada, não tinha conseguido. Ministraram-lhe injecções de aparina, substância que dilui o sangue e facilita a circulação. Mas o português apresentava tecidos mortos por congelação no nariz e nas pontas dos dedos das mãos. Nos pés formaram-se bolhas em tecidos mal irrigados por congelação e, por mais antibióticos que tomasse, uma infecção oportunista seria bastante grave, sabendo que o calçado é bastante atreito a fungos e micoses, por exemplo. A ajuda para prosseguir caminho surgiu nos sete tibetanos contratados que o carregaram até ao transporte que o levaria a Kathmandu. Sobreviveu.
Saragoça foi a próxima escala. Aí esperava-o José Ramon Morandeira, director da Unidade Mista do Hospital Universitário Lozano Tlesa. Este médico alpinista e também vítima de congelação nos dedos dos pés, encetou as investigações nessa área há cerca de 10 anos e pela sua equipa passaram já mais de 90 casos. Por isso, João Garcia sentiu a segurança de que precisava: «Quando se está numa situação em que estive, sentir que estava bem entregue foi meio caminho andado para o bem-estar psíquico.» Vieram os banhos térmicos com borbulhas de oxigénio e as injecções de aparinas de baixo teor molecular. «Quando cheguei ao hospital os médicos disseram-me para me acalmar e que provavelmente nem perderia nada das mãos. Reconheci que a situação estava difícil, mas queria acreditar que as coisas se resolvessem. Depois de três semanas de tratamento, o meu grande choque foi quando vi a gamografia. Olhei para o monitor e reparei que as minhas mãos só eram detectadas a metade...» O cérebro de João Garcia ainda não «esqueceu» a sensação das unhas e das pontas dos dedos, mas a chamada síndroma fantasma desaparecerá com o tempo. «Este é o pior dos cenários para um escalador, já que as mãos são essencialmente o verdadeiro instrumento de trabalho.» O nariz, os dedos das mãos e os dedos dos pés foram alvo de intervenções cirúrgicas. O «enxerto índio» é o nome da técnica de reconstrução nasal a que João Garcia foi submetido. Agora só falta realizar um enxerto de pele na testa, donde foi retirado o tecido para o nariz. Uma operação que provavelmente vai realizar em Portugal. Para fechar as feridas resultantes da amputação dos dedos das mãos foram executados micro enxertos com tecido extraído de um dos braços. Há cinco ou dez anos pouco teria restado dos dedos, mas o requinte das técnicas actuais salvaram uma parte. «Agora sinto-me como um reformado aos 30 anos, que pode continuar a fazer aquilo de que gosta. Sempre fui uma pessoa muito racional e chego à conclusão de que hei-de desfrutar o alpinismo de outra maneira.» Sem perder a vontade de subir à montanha, pensa voltar aos oito mil metros, mas prevenido. Usará oxigénio nos últimos 500 metros, umas injecções de aparina para favorecer o fluxo sanguíneo, uma hidratação adequada e umas luvas com aquecimento eléctrico. A circulação periférica nas mãos de João Garcia vai demorar dois anos a reconstituir-se. As palmas das mãos de João Garcia estão quentes, mas os dedos são frios, como a inóspita região dos Himalaias, onde conquistou o topo do mundo para Portugal. «Tenho de continuar, pelo menos para dar sentido aos últimos 15 anos da minha vida!»
«Não posso chamar tempestade àquilo que aconteceu. Uma tempestade a 8.800 ou 8.600 metros— foi onde eu bivaquei – é uma coisa terrível. O «jet stream» é o vento de 30.000 pés, que atingem 250 km/h. Ora um homem lá em cima voa nessas condições. Por isso eu não estaria cá se tal acontecesse. Mas houve de facto um aumento gradual do vento, o que acontece sempre à tarde».
«O sol começa a pôr-se, a temperatura começa a esfriar e o ar quente começa a subir pela face norte do Evereste. Isto dificulta muito depois na descida. Temos umas luvas grandes e depois umas mais pequenas, mas há que agarrar uma corda, colocar um mosquetão (espécie de argolas por onde deslizam as cordas)... Tudo isto obriga a meter os dentes nas luvas para não perdê-las, trabalhar e voltar a meter as luvas: são factores que atrasam e que, neste caso, atrasaram mesmo. Depois a noite chegou e ficámos bloqueados, tentando sobreviver. Entretanto, perdi de vista o Pascal. «Devo reconhecer que o facto de ter estado muito tempo em altitude à espera do meu colega fez com que o efeito da congelação se agravasse. Nestas altitudes raciocinamos muito mal, com cerca de 30% das faculdades normais. É como “a bebedeira de altitude”. Só uma grande determinação impede que o escalador se sente e continue a descida.»
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