A FÁBRICA

Outubro 19 2005

Saddam Hussein, capturado a 13 de Dezembro de 2003, oito meses após a queda do seu regime, comparecerá perante cinco juízes, numa audiência rodeada de medidas de segurança excepcionais.
Saddam Hussein e sete dos seus colaboradores sentam-se, hoje, no banco dos réus do Tribunal Especial Iraquiano, em Bagdade, acusados de um único crime, cujo processo foi concluído pela instrução o massacre de mais de uma centena de xiitas, em 1982.
Os oito acusados pela “execução de 143 aldeões, o sequestro de 399 famílias, a destruição das suas casas e terras” agrícolas na aldeia de Dujail, situada 60 quilómetros a norte de Bagdade, correm o risco de condenação à pena de morte.
Após disparos contra a coluna automóvel em que seguia Saddam, os aldeões de Dujail morreram na retaliação efectuada pelos serviços de segurança. Muitas propriedades foram destruídas, quintas e pomares saqueados e os sobreviventes condenados ao exílio interno durante quatro anos.
Além do caso pelo qual Saddam Hussein começa hoje a ser julgado, há instrução de mais 12 contra o ex-presidente iraquiano.
Saddam Hussein é suspeito por crimes contra a humanidade e crimes de guerra em vários casos a operação de Al-Anfal contra os curdos, em 1988, que fez 180.000 mortos; o gaseamento de cerca de 5.000 curdos em Halabja, no mesmo ano; a repressão dos xiitas, em 1991, com milhares de mortos; a invasão do Kuwait, um ano antes; o massacre de 8000 membros da tribo dos Barzani (um clã curdo), em 1983, e o assassínio de líderes de partidos políticos e de dignitários religiosos xiitas entre 1980 e 1999. Aliás, o Irão também quer julgar Saddam, tendo as autoridades de Teerão enviado, ontem, às homólogas iraquianas, uma acusação própria contra o ex-ditador.

Saddam Hussein nasceu a 28 de Abril de 1937 em Ouija, uma aldeia próxima de Tikrit, 170 quilómetros a Norte de Bagdad. O seu pai, um camponês pobre, morreu pouco tempo antes do filho nascer, e a sua mãe, Subna al-Tulfah, voltou a casar-se com Ibrahim al-Hassan.
Saddam não se dava bem com o padrasto. A sua biografia oficial relata uma infância difícil, com Ibrahim a obrigá-lo a acordar de madrugada para ir tratar dos rebanhos. Ele queria estudar e – contrariando a família – um dia pôs-se a caminho da escola sozinho. Devido ao mau relacionamento com o padrasto, quando Saddam tinha dez anos, Subna decidiu enviá-lo para Bagdad para viver com o tio Khairallah Tulfa, oficial do Exército e militante antibritânico (o tio era também o futuro sogro de Saddam, que aos cinco anos já tinha sido prometido em casamento à sua prima Sajida).
Foi aos 18 anos que Saddam se filiou no Partido Baas, aderindo aos seus ideais laicos e nacionalistas. Mas foi também nesse ano que viu rejeitada a sua candidatura à Academia Militar, por falta de habilitações. Os biógrafos apontam 1958 como a data do seu primeiro assassínio político – a vítima foi um militante comunista, morto em Tikrit com um tiro na cabeça. Terá sido esta acção – pela qual passou alguns meses na prisão – que chamou a atenção dos dirigentes do Baas para o jovem militante.
Saddam foi então incluído num comando de dez homens com a missão de assassinar o primeiro-ministro Abdel Karim Qassem. O atentado falha, Saddam é ferido numa perna e foge, a pé e a cavalo, para a Síria, depois de ter retirado, ele próprio, a bala com uma faca. Este é, provavelmente, um dos episódios de que o líder iraquiano mais se orgulha, a ponto de ter mandado fazer um livro e um filme (de seis horas) que relatam a história – com o título “The Long Days”. Durante os três anos seguintes, Saddam viveu em Damasco e no Cairo, onde estudou Direito.
O regresso a Bagdad dá-se depois de o Baas ter, finalmente, conseguido derrubar Qassem, num golpe dirigido pelo coronel Ahmad Hassan al-Bakr, que era também seu tio. O cristão Michel Aflak, ideólogo do Baas, convida-o para a direcção do partido. Saddam é “investigador”, o que significa que é o responsável pelos interrogatórios.
Pela mão de Al-Bakr foi subindo a escada do poder. Primeiro é vice-secretário-geral adjunto do Conselho do Comando da Revolução, depois vice-presidente, depois comandante do Exército. Em 1979, afasta Al-Bakr do poder e, com 42 anos, chega à chefia do Estado.
Pouco tempo após ter conquistado o poder, implementou uma violenta purga que levou à morte dezenas de membros do governo suspeitos de falta de lealdade. No inicio dos anos 80, utilizou armas químicas para pôr termo à rebelião Curda no norte do Iraque. A fome de poder de Saddam Hussein espalhou- se muito para além das fronteiras do Iraque; apostado em subjugar o mundo Islamico, atacou os países vizinhos. Em 1980 invadiu o Irão, iniciando um guerra de oito anos que não venceu. Em Agosto de 1990 invadiu o Kuwait, país rico em petróleo, que proclamou como a 19º província do Iraque.
Desafiou as Nações Unidas ao não cumprir as directivas que o obrigavam a retirar do Kuwait, provocando a que chamou “Mãe de Todas as Batalhas”, a Guerra do Golfo. O breve conflito dizimou as forças militares de Saddam, mas o ditador conseguiu reconstruir a sua república e a sua base de poder, a começar pela tenebrosa polícia secreta e manteve-se no poder mais 12 anos.

publicado por armando ésse às 08:06
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Outubro 19 2005

Saddam Hussein, capturado a 13 de Dezembro de 2003, oito meses após a queda do seu regime, comparecerá perante cinco juízes, numa audiência rodeada de medidas de segurança excepcionais.
Saddam Hussein e sete dos seus colaboradores sentam-se, hoje, no banco dos réus do Tribunal Especial Iraquiano, em Bagdade, acusados de um único crime, cujo processo foi concluído pela instrução o massacre de mais de uma centena de xiitas, em 1982.
Os oito acusados pela “execução de 143 aldeões, o sequestro de 399 famílias, a destruição das suas casas e terras” agrícolas na aldeia de Dujail, situada 60 quilómetros a norte de Bagdade, correm o risco de condenação à pena de morte.
Após disparos contra a coluna automóvel em que seguia Saddam, os aldeões de Dujail morreram na retaliação efectuada pelos serviços de segurança. Muitas propriedades foram destruídas, quintas e pomares saqueados e os sobreviventes condenados ao exílio interno durante quatro anos.
Além do caso pelo qual Saddam Hussein começa hoje a ser julgado, há instrução de mais 12 contra o ex-presidente iraquiano.
Saddam Hussein é suspeito por crimes contra a humanidade e crimes de guerra em vários casos a operação de Al-Anfal contra os curdos, em 1988, que fez 180.000 mortos; o gaseamento de cerca de 5.000 curdos em Halabja, no mesmo ano; a repressão dos xiitas, em 1991, com milhares de mortos; a invasão do Kuwait, um ano antes; o massacre de 8000 membros da tribo dos Barzani (um clã curdo), em 1983, e o assassínio de líderes de partidos políticos e de dignitários religiosos xiitas entre 1980 e 1999. Aliás, o Irão também quer julgar Saddam, tendo as autoridades de Teerão enviado, ontem, às homólogas iraquianas, uma acusação própria contra o ex-ditador.

Saddam Hussein nasceu a 28 de Abril de 1937 em Ouija, uma aldeia próxima de Tikrit, 170 quilómetros a Norte de Bagdad. O seu pai, um camponês pobre, morreu pouco tempo antes do filho nascer, e a sua mãe, Subna al-Tulfah, voltou a casar-se com Ibrahim al-Hassan.
Saddam não se dava bem com o padrasto. A sua biografia oficial relata uma infância difícil, com Ibrahim a obrigá-lo a acordar de madrugada para ir tratar dos rebanhos. Ele queria estudar e – contrariando a família – um dia pôs-se a caminho da escola sozinho. Devido ao mau relacionamento com o padrasto, quando Saddam tinha dez anos, Subna decidiu enviá-lo para Bagdad para viver com o tio Khairallah Tulfa, oficial do Exército e militante antibritânico (o tio era também o futuro sogro de Saddam, que aos cinco anos já tinha sido prometido em casamento à sua prima Sajida).
Foi aos 18 anos que Saddam se filiou no Partido Baas, aderindo aos seus ideais laicos e nacionalistas. Mas foi também nesse ano que viu rejeitada a sua candidatura à Academia Militar, por falta de habilitações. Os biógrafos apontam 1958 como a data do seu primeiro assassínio político – a vítima foi um militante comunista, morto em Tikrit com um tiro na cabeça. Terá sido esta acção – pela qual passou alguns meses na prisão – que chamou a atenção dos dirigentes do Baas para o jovem militante.
Saddam foi então incluído num comando de dez homens com a missão de assassinar o primeiro-ministro Abdel Karim Qassem. O atentado falha, Saddam é ferido numa perna e foge, a pé e a cavalo, para a Síria, depois de ter retirado, ele próprio, a bala com uma faca. Este é, provavelmente, um dos episódios de que o líder iraquiano mais se orgulha, a ponto de ter mandado fazer um livro e um filme (de seis horas) que relatam a história – com o título “The Long Days”. Durante os três anos seguintes, Saddam viveu em Damasco e no Cairo, onde estudou Direito.
O regresso a Bagdad dá-se depois de o Baas ter, finalmente, conseguido derrubar Qassem, num golpe dirigido pelo coronel Ahmad Hassan al-Bakr, que era também seu tio. O cristão Michel Aflak, ideólogo do Baas, convida-o para a direcção do partido. Saddam é “investigador”, o que significa que é o responsável pelos interrogatórios.
Pela mão de Al-Bakr foi subindo a escada do poder. Primeiro é vice-secretário-geral adjunto do Conselho do Comando da Revolução, depois vice-presidente, depois comandante do Exército. Em 1979, afasta Al-Bakr do poder e, com 42 anos, chega à chefia do Estado.
Pouco tempo após ter conquistado o poder, implementou uma violenta purga que levou à morte dezenas de membros do governo suspeitos de falta de lealdade. No inicio dos anos 80, utilizou armas químicas para pôr termo à rebelião Curda no norte do Iraque. A fome de poder de Saddam Hussein espalhou- se muito para além das fronteiras do Iraque; apostado em subjugar o mundo Islamico, atacou os países vizinhos. Em 1980 invadiu o Irão, iniciando um guerra de oito anos que não venceu. Em Agosto de 1990 invadiu o Kuwait, país rico em petróleo, que proclamou como a 19º província do Iraque.
Desafiou as Nações Unidas ao não cumprir as directivas que o obrigavam a retirar do Kuwait, provocando a que chamou “Mãe de Todas as Batalhas”, a Guerra do Golfo. O breve conflito dizimou as forças militares de Saddam, mas o ditador conseguiu reconstruir a sua república e a sua base de poder, a começar pela tenebrosa polícia secreta e manteve-se no poder mais 12 anos.

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