A FÁBRICA

Dezembro 21 2005

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Foi este o auto-retrato que Bocage nos deixou, mas no dia em que se assinala o bicentenário da sua morte, o seu perfil psicológico está longe de ser tão consensual, subsistindo a seu respeito mitos, meias-verdades ou falsidades. A pretexto de uma existência libertina e de boémia, o seu nome passou a estar associado, de há 100 anos a esta parte a anedotas, que fazem parte da memória colectiva. Reduzir toda uma carreira literária onde a inovação, a sátira e o sarcasmo, efectivamente, desempenharam um papel importante, às simples anedotas que fazem parte da nossa memória, é certamente a maior injustiça cometida em toda a história da nossa literatura.
Manuel Maria Barbosa du Bocage, nasceu em Setúbal, no dia 15 de Setembro de 1765.

A sua vocação foi incentivada pelo ambiente familiar. Madame Fiquet du Bocage, uma tia-avó do poeta, era uma poetisa ilustre na época e traduzira o poeta suíço pré-romântico Gressner.O próprio pai de Bocage, cultivava a poesia nas horas vagas. Igualmente o marcou, como ele próprio sublinhou, a morte da mãe aos dez anos de idade (“aos dois lustros a morte devorante, me roubou, terna mãe, teu doce agrado”).
Frequentou a Academia Real de Guarda-Marinhas, para onde entrou em 1783, entregando-se, mais do que aos estudos, à boémia literária da Lisboa da época, frequentando botequins, sobretudo o Nicola, ao qual o seu nome ficou para sempre ligado, como famoso improvisador de versos.
Embarcou para a Índia em 1786 e serviu na guarnição de Damão, até ter desertado em 1789, embarcando para Macau, de onde regressou a Lisboa, em 1790. Nesse mesmo ano foi fundada, uma associação literária, a Nova Arcádia, na qual ingressou, adoptando o nome poético de Elmano Sadino. Dela foi expulso em 1794, devido ao seu espírito independente, sarcástico e indisciplinado.
Inquieto e atraído pela vida boémia foi preso a 10 de Agosto de 1797, na sequência de uma rusga policial, lhe terem sido detectados panfletos apologistas da revolução francesa e um poema erótico e político e anti-religioso, intitulado “Pavorosa Ilusão da Eternidade”, também conhecido por “Epístola a Marília”. Encarcerado no Limoeiro, acusado de crime de lesa-majestade, moveu influências, sendo, então, entregue à Inquisição, instituição que já não possuía o poder discricionário que anteriormente tivera. Em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser “doutrinado”.
Saiu em liberdade em 1789, convertendo-se a uma vida mais regrada em casa da irmã, Maria Francisca, que sustentou com trabalhos de tradução. Apesar da forte empatia popular e da fama de que chegou a usufruir, em particular os sonetos eróticos, os últimos anos foram-lhe dolorosos. A sua saúde sempre frágil, ficou cada vez mais debilitada, devido à vida pouco regrada que levara.
Em 1805,em 21 de Dezembro, com apenas 40 anos de idade, faleceu em Lisboa, deixando publicadas, em três volumes, Rimas (1791,1799 e 1804), completadas com a publicação póstuma de novos volumes e obras sobre a sua criação poética.

publicado por armando ésse às 11:15
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Dezembro 21 2005

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Foi este o auto-retrato que Bocage nos deixou, mas no dia em que se assinala o bicentenário da sua morte, o seu perfil psicológico está longe de ser tão consensual, subsistindo a seu respeito mitos, meias-verdades ou falsidades. A pretexto de uma existência libertina e de boémia, o seu nome passou a estar associado, de há 100 anos a esta parte a anedotas, que fazem parte da memória colectiva. Reduzir toda uma carreira literária onde a inovação, a sátira e o sarcasmo, efectivamente, desempenharam um papel importante, às simples anedotas que fazem parte da nossa memória, é certamente a maior injustiça cometida em toda a história da nossa literatura.
Manuel Maria Barbosa du Bocage, nasceu em Setúbal, no dia 15 de Setembro de 1765.

A sua vocação foi incentivada pelo ambiente familiar. Madame Fiquet du Bocage, uma tia-avó do poeta, era uma poetisa ilustre na época e traduzira o poeta suíço pré-romântico Gressner.O próprio pai de Bocage, cultivava a poesia nas horas vagas. Igualmente o marcou, como ele próprio sublinhou, a morte da mãe aos dez anos de idade (“aos dois lustros a morte devorante, me roubou, terna mãe, teu doce agrado”).
Frequentou a Academia Real de Guarda-Marinhas, para onde entrou em 1783, entregando-se, mais do que aos estudos, à boémia literária da Lisboa da época, frequentando botequins, sobretudo o Nicola, ao qual o seu nome ficou para sempre ligado, como famoso improvisador de versos.
Embarcou para a Índia em 1786 e serviu na guarnição de Damão, até ter desertado em 1789, embarcando para Macau, de onde regressou a Lisboa, em 1790. Nesse mesmo ano foi fundada, uma associação literária, a Nova Arcádia, na qual ingressou, adoptando o nome poético de Elmano Sadino. Dela foi expulso em 1794, devido ao seu espírito independente, sarcástico e indisciplinado.
Inquieto e atraído pela vida boémia foi preso a 10 de Agosto de 1797, na sequência de uma rusga policial, lhe terem sido detectados panfletos apologistas da revolução francesa e um poema erótico e político e anti-religioso, intitulado “Pavorosa Ilusão da Eternidade”, também conhecido por “Epístola a Marília”. Encarcerado no Limoeiro, acusado de crime de lesa-majestade, moveu influências, sendo, então, entregue à Inquisição, instituição que já não possuía o poder discricionário que anteriormente tivera. Em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser “doutrinado”.
Saiu em liberdade em 1789, convertendo-se a uma vida mais regrada em casa da irmã, Maria Francisca, que sustentou com trabalhos de tradução. Apesar da forte empatia popular e da fama de que chegou a usufruir, em particular os sonetos eróticos, os últimos anos foram-lhe dolorosos. A sua saúde sempre frágil, ficou cada vez mais debilitada, devido à vida pouco regrada que levara.
Em 1805,em 21 de Dezembro, com apenas 40 anos de idade, faleceu em Lisboa, deixando publicadas, em três volumes, Rimas (1791,1799 e 1804), completadas com a publicação póstuma de novos volumes e obras sobre a sua criação poética.

publicado por armando ésse às 11:15
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Dezembro 19 2005
Alexandre O'Neill, (n.19.12.1924-m.21.08.1986).
Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
Os convencidos da vida só se isolam, por assim dizer, quando atingem uma certa cotação. As expressões “deixou de frequentar” e “passou a frequentar” podem muito bem indicar, na desprevenida conversa quotidiana, subidas ou descidas de cotação ou, mais simplesmente, mudanças de estratégia do convencido da vida. O convencido que se isola não o faz por desgosto da sua pessoa, senão perderia o estatuto e a prática de convencido da vida e correria o risco de se tornar um homem vulgar. Fá-lo para, arteiramente, tomar as suas distâncias. Por isso, quando isolado, o convencido “vai soprando notícias”, “vai fazendo constar”…Maneira de, ausente, estar presente. Não há, nesse estudado isolamento, nenhum Vale de Lobos.
No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil. Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro. Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi.
Alexandre O’Neill, in “Uma Coisa em Forma de Assim”, páginas, 27, 28 e 29.
publicado por armando ésse às 09:33

Dezembro 19 2005
Alexandre O'Neill, (n.19.12.1924-m.21.08.1986).
Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
Os convencidos da vida só se isolam, por assim dizer, quando atingem uma certa cotação. As expressões “deixou de frequentar” e “passou a frequentar” podem muito bem indicar, na desprevenida conversa quotidiana, subidas ou descidas de cotação ou, mais simplesmente, mudanças de estratégia do convencido da vida. O convencido que se isola não o faz por desgosto da sua pessoa, senão perderia o estatuto e a prática de convencido da vida e correria o risco de se tornar um homem vulgar. Fá-lo para, arteiramente, tomar as suas distâncias. Por isso, quando isolado, o convencido “vai soprando notícias”, “vai fazendo constar”…Maneira de, ausente, estar presente. Não há, nesse estudado isolamento, nenhum Vale de Lobos.
No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil. Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro. Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi.
Alexandre O’Neill, in “Uma Coisa em Forma de Assim”, páginas, 27, 28 e 29.
publicado por armando ésse às 09:33

Dezembro 18 2005

A revista Time nomeou o cantor Bono e o casal Melinda e Bill Gates personalidades do ano 2005, pela forma "inteligente" como actuaram a favor da justiça no mundo.
Segundo a Time, que anualmente escolhe uma figura de destaque, estas nomeações premeiam "a forma inteligente de fazer o bem, de reescrever a política e a justiça, de tornar a solidariedade mais lúcida e a esperança estratégica, desafiando-nos a fazer o mesmo".

O casal Gates lidera o ranking de filantropia a nível mundial, um exemplo do empenho do ser humano em formar um mundo em que os que têm ajudam os que não têm, um exemplo de altruísmo, transferindo as oportunidades que eles tiveram para outros, através de iniciativas humanitárias.
Quanto ao cantor irlandês Bono, é um defensor infatigável da causa dos países mais desfavorecidos.

Link:time.
publicado por armando ésse às 15:36

Dezembro 18 2005

A revista Time nomeou o cantor Bono e o casal Melinda e Bill Gates personalidades do ano 2005, pela forma "inteligente" como actuaram a favor da justiça no mundo.
Segundo a Time, que anualmente escolhe uma figura de destaque, estas nomeações premeiam "a forma inteligente de fazer o bem, de reescrever a política e a justiça, de tornar a solidariedade mais lúcida e a esperança estratégica, desafiando-nos a fazer o mesmo".

O casal Gates lidera o ranking de filantropia a nível mundial, um exemplo do empenho do ser humano em formar um mundo em que os que têm ajudam os que não têm, um exemplo de altruísmo, transferindo as oportunidades que eles tiveram para outros, através de iniciativas humanitárias.
Quanto ao cantor irlandês Bono, é um defensor infatigável da causa dos países mais desfavorecidos.

Link:time.
publicado por armando ésse às 15:36

Dezembro 17 2005
Na tal... é quando um homem pode... não quando quer!
publicado por armando ésse às 14:38

Dezembro 17 2005
Na tal... é quando um homem pode... não quando quer!
publicado por armando ésse às 14:38

Dezembro 17 2005
A Fábrica foi laureada, pelo iluste JN do blogue Contra-Indicado, como o melhor blogue do ano na categoria de "Melhor Blogue Enciclopédico"( a fábrica era o único concorrente!), na 1ª Edição dos Prémios Contra-indicados.
Muito obrigado ao JN, que além, de me atribuir o prémio, ainda se deu ao trabalho de me informar e entregar a estatueta e, a todos vocês.
publicado por armando ésse às 06:30

Dezembro 17 2005
A Fábrica foi laureada, pelo iluste JN do blogue Contra-Indicado, como o melhor blogue do ano na categoria de "Melhor Blogue Enciclopédico"( a fábrica era o único concorrente!), na 1ª Edição dos Prémios Contra-indicados.
Muito obrigado ao JN, que além, de me atribuir o prémio, ainda se deu ao trabalho de me informar e entregar a estatueta e, a todos vocês.
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