A FÁBRICA

Maio 05 2006

Passam amanhã 150 anos do nascimento de Sigmund Freud, e como não podia deixar de ser a Fábrica terá que escrever sobre o assunto, apesar de a imprensa nacional ter já editado uma verdadeira história de todo o seu saber. Do mal-estar que continua sendo detectado na civilização às infindáveis interpretações posteriores do sonho, o seu nome continua, apesar de severas críticas, sendo a mais polémica de todas a recente edição do Livro Negro da Psicanálise, e revisões, presente no nosso imaginário. Apesar de todas as polémicas, parece ser incontestável que Sigmund Freud, foi um dos maiores pensadores do século XX. A essência do legado de Freud fica longe de ser reduzido, apenas, à sua psicanálise. É possível que o próprio, se estivesse vivo, apontasse falhas nas teorias que desenvolveu. “Ele não via na terapia a sua grande obra, mas na importância cultural da psicanálise”, observou o psicólogo Wolfgang Mertens. O legado de Freud deverá ser ligado aos pontos de intersecção da psicanálise com a literatura, a filosofia, o cinema, a sociologia, a antropologia e outros saberes que tornam nítida a necessidade de lembrar Freud. Não deixa de ser curioso, o contraste entre as suas palavras e o seu legado à Humanidade, " Nunca fui realmente ambicioso. Procurei na ciência a satisfação que se oferece durante a pesquisa e no momento da descoberta, mas nunca fui daqueles que não podem suportar o pensamento de serem levados pela morte sem terem deixado o nome gravado numa rocha."
Sigismund (mais tarde Sigmund) Schlomo Freud nasceu a 6 de Maio de 1856, em Freiberg, Morávia - actual Pribor, na Republica Checa – que então, fazia parte do Império Austro-Húngaro. Na época em que nasceu o seu pai, Jakob Freud, tinha 41 anos e a sua mãe, Amália, 21, ambos professavam a religião judaica. Sobre a sua relação com a religião, Freud diria uns mais tarde, "Sempre me mantive distanciado da religião judaica, assim como de qualquer outra religião. Elas interresam-me apenas enquanto objecto de análise científica. No entanto, sempre me senti solidário para com o meu povo, procurando transmitir esse sentimento aos meus filhos. De uma certa forma, todos nós mantivemos a qualidade de judeus."

Seu pai já tinha dois outros filhos de um primeiro casamento: Emanuel e Philipp. Juntamente com eles, viviam também duas crianças, filhos de Emanuel e que eram apenas um ano mais velho do que Sigmund. Essa situação pode ter predisposto Freud, mais tarde a estudar o problema da circulação do desejo dentro das estruturas familiares. Em 1860, devido à guerra Austro-Italiana, os negócios de lã do seu pai, foram à ruína e a família foi obrigada a transferir-se para Viena. "Qualquer pessoa que tenha vivido o sofrimento da miséria na juventude e suportado a indiferença e a arogância dos ricos deveria estar isenta da suspeita de não ter compreensão e boa vontade para as tentativas de eliminação das diferenças económicas entre os homens e de tudo o que elas provocam", diria Freud falando da sua juventude.
É nesta cidade, que Freud iniciou os seus estudos e onde viveu até 1938. “No Gymnasium fui o primeiro da minha turma durante sete anos e desfrutei de privilégios especiais, quase nunca tendo de ser examinado na aula(...) O meu profundo interesse pela história da Bíblia teve, conforme reconheci muito mais tarde, efeito duradouro sobre a orientação do meu interesse. Sob a influência de uma amizade formada na escola com um menino mais velho, e que veio a ser um político conhecido, desenvolvi, como ele, o desejo de estudar Direito e dedicar-me a actividades sociais. Ao mesmo tempo, as teorias de Darwin, que eram então actuais, atraíram-me fortemente, pois ofereciam esperanças de um extraordinário progresso na nossa compreensão do mundo, e foi ouvindo o belo ensaio de Goethe sobre a Natureza, lido em voz alta numa conferência pelo professor Carl Bruhl, pouco antes de ter deixado a escola, que resolvi tornar-me estudante de Medicina.” Aos 17 anos, terminados os estudos secundários, Freud dominava perfeitamente o Inglês, o francês, o latim, o grego e o hebreu; possuía conhecimentos de espanhol e de italiano.
Ingressou na Universidade de Viena em 1873. Durante o curso, desenvolveu algumas pesquisas com alguns dos seus professores; com Ernest Bruucke, trabalhou durante seis anos numa pesquisa sobre o sistema nervoso central; em psiquiatria, trabalhou com Theodor Meynert, considerado o mais brilhante na sua especialidade, neuropatologia. Findo o curso, vê-se obrigado a trabalhar como médico de clínica geral, pois não consegue arranjar trabalho como pesquisador na Universidade. Entretanto, conheceu Martha Bernays, filha de um dos rabinos mais importantes do mundo judaico da época. Casou-se em 1886 e nesse mesmo ano abriu o seu consultório de neuropatologia. O casal teve seis filhos (Mathilde, 1887; Jean-Martin, 1889; Olivier, 1891; Ernst, 1892; Sophie, 1893; Anna, 1895). O início da obra freudiana está ligado à descrição clínica do caso Anna O., que Freud desenvolveu juntamente com Josef Breuer e que seria publicado sob o título de Estudos Sobre a Histeria, em 1895. Nesse livro, Freud afirma que os sintomas dos doentes histéricos são resíduos e símbolos de ocorrências traumáticas, nas quais um processo afectivo qualquer foi desviado da sua elaboração consciente normal. A hipnose revivesceria esse facto passado. A este processo foi dado o nome de catarse. Após este estudo, Freud convenceu-se de que todo o conteúdo das neuroses possuía uma origem sexual, e que a hipnose e o método catártico não apresentava bons resultados em todos os pacientes. Passou então a utilizar o método da associação livre e foi aí que, segundo as suas próprias palavras, nasceu a psicanálise. Esse método consistia em deixar o paciente livre para falar o que lhe viesse à mente, e competia ao analista interpretar as ideias a fim de clarificar o trauma responsável pela origem da perturbação nervosa. Num estudo publicado anos mais tarde, seria desenvolvida a tese de que a natureza da neurose era de origem sexual, tratando-se de impulsos reprimidos na infância do paciente, daí as considerações que fez sobre o complexo de Édipo e sobre a sexualidade infantil, como determinantes básicas do comportamento humano. O termo “psicanálise” foi concebido por Freud em 1896.”Demos o nome de psicanálise ao trabalho pelo qual trazemos à consciência do doente o psíquico que há recalcado nele”, definiria Freud.
Após romper com Breuer, e passando por uma crise, devida à morte de seu pai, Freud iniciou sua auto-análise em 1897, ao examinar seus sonhos e fantasias, contando com o apoio emocional de seu amigo íntimo, Wilhelm Fliess.
A Interpretação dos Sonhos, obra que Freud considerou como sendo o mais importante de todos os seus livros, foi publicado em 1899. Entretanto, foi nomeado Professor na Universidade de Viena e fundou a “Sociedade Psicológica das Quartas-feiras” em 1902 (reunião semanal de amigos, em sua casa, com o propósito de discutir os trabalhos que vinha desenvolvendo), a qual se veio a tornar a Associação de Psicanálise de Viena, em 1908. Por volta de 1906, um pequeno grupo de seguidores juntaram-se em torno de Freud, incluindo William Stekel, Alfred Adler, Otto Rank, Abraham Brill, Eugen Bleuler e Carl Jung.
Sándor Ferenczi e Ernest Jones juntaram-se ao círculo psicanalítico e o “Primeiro Congresso de Psicologia Freudiana” teve lugar em Salzburg, em 1908, contando com a presença de quarenta participantes de cinco países. Em 1909, Freud foi convidado por Stanley Hall para proferir cinco conferências, na Clark University (Worcester, Massachussets), que mais tarde seriam editadas com o título de Cinco Lições de Psicanálise. Seria esta a sua única visita aos Estados Unidos da América, mas esta oportunidade marcou definitivamente a sua carreira, ao atrair a atenção mundial para os seus trabalhos. O movimento psicanalítico foi sendo gradualmente reconhecido e uma organização internacional, chamada “International Psychoanalytical Association” foi fundada em 1910. A revista de psicanálise “Imago” foi criada em 1912. Conforme o movimento se ia difundindo, Freud teve que enfrentar a dissidência entre os membros de seu círculo. Adler (1911) e Jung (1913) deixaram a “Associação Psicanalítica de Viena” e formaram as suas próprias escolas de pensamento, discordando da ênfase dada por Freud à origem sexual da neurose.
Os anos da Primeira Guerra Mundial, foram improdutivos para Freud, que referindo-se à Grande Guerra, diria" Não duvido de que a humanidade se recuperará desta guerra, mas sei com segurança que eu e os meus compatriotas nunca mais haveremos de viver num mundo tão alegre quanto aquele em que vivemos. Tudo isso é muito repelente. E a coisa mais triste de todas está em que tudo isso é exactamente aquilo que a psicanálise esperava do homem e do seu comportamento." Só em 1919 é que escreveu uma das suas mais importantes obras: Além do Princípio do Prazer, onde demonstrou a existência de dois instintos opostos no homem. Um, de preservação, ligado ao Prazer (Eros) e outro de destruição(Tanatos). Alguns factos ocorridos no início dos anos 20 vieram a alterar profundamente a vida de Freud: Primeiro a morte da sua filha Sofia, em 1920 e depois a morte do seu neto, filho de Sofia. Entretanto, em 1923 é-lhe diagnosticado um cancro no maxilar superior e Freud é submetido à primeira de uma série de 33 operações na boca, que o levou a perder todo o maxilar superior. Mas a sua produção intelectual permaneceu bastante intensa. Em 1923, publicou o Ego e o Id, onde apresentou um modelo dinâmico da mente, constituído pelo Ego, Superego e Id. O Id constitui a fonte dos impulsos ou tendências de uma pessoa; o Superego representa os educadores introjectados no indivíduo; e o Ego é uma espécie de relações públicas entre o ser, os seus impulsos e a sociedade. Freud usou a seguinte metáfora para mostrar como essas três instâncias se relacionam: “o Ego é um cavaleiro tentando meter freio a um cavalo selvagem (o Id), seguindo as ordens do professor de equitação (Superego).”
No ano seguinte, ocorreu a ruptura com dois dos seus discípulos, Otto Rank e Sándor Ferenczi, devido à teoria do trauma do nascimento. Em 1930 Freud foi laureado com o “Prémio Goethe”. A década de 30 marcou a ascensão do nazismo na Alemanha. Os livros de Freud e de muitos pensadores modernos foram queimados na praça pública. Em 1934, Freud começou a escrever Moisés e o Monoteísmo, onde procurou esclarecer a origem da religião judaica. Nos anos seguintes, Hitler e os nazistas, continuam a invadir os países vizinhos e a endurecer as leis contra os judeus. Em 1938 anexa a Áustria e Freud é imediatamente incomodado. Freud que sempre se manteve afastado da prática religiosa, não evitou que a Gestapo investigasse a sua casa, de onde roubaram preciosos objectos da sua colecção de antiguidades e prenderam e interrogaram a sua filha Anna durante um dia. Várias pessoas intervieram a favor dele, conseguindo que Freud escapasse da Áustria, juntamente com a sua mulher e com a sua filha Anna. Já bastante debilitado pela doença, Freud passou o último ano da sua existência em Londres. Sigmund Freud faleceu, aos 83 anos de idade, no dia 23 de Setembro de 1939, em Londres.
publicado por armando ésse às 07:18
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