A FÁBRICA

Junho 18 2006

Exceptuando o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, penso que nenhum outro português, consegue ter "Uma viagem inesquecível de avião para Frankfurt...". Mas enfim, também nunca pensei, que o professor fosse capaz de tentar escrever sobre futebol e ainda por cima, muito mal.
Sempre me considerei equilibrado, mas desde que começou o Mundial que desconfio que tenho um lado masoquista.
Este lado "sado-maso", advém do facto de ler diariamente no jornal "A Bola", a crónica do professor Marcelo, intitulada "O Postal do Professor".
Não haverá ninguém das relações dele, que lhe possa passar a informação para deixar de escrever sobre aquilo que não percebe nada, é confrangedor ter que ler todas estas parvoíces.
Até, tento ser politicamente correcto, mas há crónicas que extravasam todo e qualquer bom-senso, daquilo que deve ser informação, ainda por cima num jornal auto-intitulado a “ bíblia do desporto".
Não restam dúvidas que o Professor é muito melhor a falar dos livros que não lê...
publicado por armando ésse às 13:38

Junho 18 2006

Exceptuando o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, penso que nenhum outro português, consegue ter "Uma viagem inesquecível de avião para Frankfurt...". Mas enfim, também nunca pensei, que o professor fosse capaz de tentar escrever sobre futebol e ainda por cima, muito mal.
Sempre me considerei equilibrado, mas desde que começou o Mundial que desconfio que tenho um lado masoquista.
Este lado "sado-maso", advém do facto de ler diariamente no jornal "A Bola", a crónica do professor Marcelo, intitulada "O Postal do Professor".
Não haverá ninguém das relações dele, que lhe possa passar a informação para deixar de escrever sobre aquilo que não percebe nada, é confrangedor ter que ler todas estas parvoíces.
Até, tento ser politicamente correcto, mas há crónicas que extravasam todo e qualquer bom-senso, daquilo que deve ser informação, ainda por cima num jornal auto-intitulado a “ bíblia do desporto".
Não restam dúvidas que o Professor é muito melhor a falar dos livros que não lê...
publicado por armando ésse às 13:38

Junho 16 2006
Tive uma fase de branca. Não conseguia escrever, pura e simplesmente. Nem sequer era por preguiça, apenas uma absoluta, e espero que passageira, incapacidade de dissertar sobre o que quer que fosse que apoquentava a alma. Nem sequer eram as famosas horas de angústia perante a folha de papel imaculada à espera de ser desflorada, somente uma espécie de desmoronamento interior onde, por algum tempo, deixou de ser possível encaixar os pedaços.
Sentimentos ambivalentes surgem. Uma vontade imensa de escrever e de não o fazer, acompanhada por uma estranha letargia mental e física que se sobrepõe a tudo, sentem-se as ideias mas estas têm preguiça de saltar para o papel como se donas de vontade própria e as palavras fossem inimigas mortais. Uma espécie de dor auto-infligida num processo de nostalgização que é absolutamente desconcertante.
À minha escala percebi as convulsões interiores geradas pelo confronto entre a vontade de escrever e criar e a impossibilidade de o fazer perante forças que escapam ao controlo de que tem este tipo de vivências. Os bloqueios que dominam o pensamento, que se tornam obsessões incontroláveis e que, por sua vez, dominam a existência, associado a uma noção cristalina da inexorabilidade do tempo que se escapa, são certamente os piores inimigos dos verdadeiramente grandes, quando perante uma folha a caneta não avança. Nem fraco nem bom, apenas nada.
Há também alturas em que o rio das ideias seca, uma aridez semelhante ao deserto provocada por uma episódica alienação da realidade, que é evidente quando os assuntos que normalmente nos inquietam o espírito e, apesar de nos revelarem as suas incongruências, não nos empurram para as usuais reflexões. A inércia vence, como se a existência fosse um fardo difícil de suportar.
As ideias não são coerentes, saltam aleatoriamente de neurónio em neurónio, são tantas e tão vagas e tão desprovidas de profundidade. Nada serve, como se de repente o nosso discernimento fosse mais profundo que o habitual e apenas restassem devaneios deprimentes que nos parecem, constantemente, de uma pobreza aviltante.
É por isso que a cada fase assim, sucede uma melhor e nos reencontramos com alguma paz interior. A desordem que lhe deu origem e que se apoderou da pessoa cria um estado de espírito que nos atira para uma crise existencial. Como dizem os psicólogos, reconhecer um problema é o primeiro passo para a cura, e nesse instante apercebemo-nos que permitimos que um pensamento obsessivo nos dominasse por um período, mais ou menos longo, o que possibilita o regresso ao equilíbrio, de dimensão obviamente subjectiva.
Esta de conquista configura uma espécie de regresso.
Com talento ou sem ele, exercer o direito à indignação perante as pragas que induzem o sofrimento de milhões é uma obrigação de todos. A presença de qualquer coisa que nos indigna deveria constituir um motivo com força suficiente para nos arrancar de qualquer estado letárgico. Tentar enquadrar um qualquer conceito que exponha a condição humana, descrevendo a vida nem que seja numa das mais simples dentro das suas infinitas cambiantes, pode ser uma forma de melhorar a existência de alguém. Não fazer nada, tendo a possibilidade para o fazer será um acto que, muito provavelmente, tornará o arrependimento uma obsessão implacável.
Perante isto, a única forma de acabar com a óbvia indiferença que grassa pela humanidade, claramente contra ela própria, é a exposição pública do mal. Escrever é a forma mais consistente de o fazer. As palavras, quando colocadas na ordem certa, podem ganhar a imortalidade e influenciar o futuro, pela denúncia daquilo que se afigura como inconsequente. Sonhar com um mundo melhor não basta é preciso lutar por ele com os recursos que possuímos.
O melhor, por isso, é aproximarmo-nos de qualquer sítio onde costumamos escrever, porque as reflexões fazem-se em todos os momentos de solidão, e assim tentar estabelecer um diálogo com a folha à nossa frente, colocar a caneta na posição, como que abraçada pelos dedos, e deixa-la fluir, ganhar vida própria, ser o prolongamento físico do nosso corpo, o objecto que permite a transmigração das ideias desde o cérebro até ao plano físico, acessíveis a todos, pois só aí desempenham o papel que lhes está reservado.
É que as ideias também querem sair, mas por vezes não o sabem. E quando ganham coragem para o fazer, se tiverem valor, podem mudar o mundo, ou pelo menos alterar visão que alguns têm dele. Nesses instantes é como se se conseguisse eliminar uma doença qualquer, uma espécie de demónio interior que nos faz levantar, sentar coçar, andar, estar parado, sentar outra vez, falar, calar numa inquietude incessante.
Então, o silêncio das ideias passa a ser coisa do passado, as palavras parecem fluir como água num rio, não nos limitamos a ver as coisas, reparámos nelas, devoramos a sua existência numa ânsia desmedida e incontrolável de aprisionar a sua essência. Deixamo-nos envolver pela beleza, pelo que provoca felicidade, sorvendo todos os segundos como se um único perdido fosse motivo para chorar.
Este texto é apenas isto, uma tentativa de ordenar a minha mente, dominada pelo cansaço e que algures no tempo se rendeu sem a determinação necessária ao medo de não o conseguir.

Filipe Pinto.
publicado por armando ésse às 06:58

Junho 16 2006
Tive uma fase de branca. Não conseguia escrever, pura e simplesmente. Nem sequer era por preguiça, apenas uma absoluta, e espero que passageira, incapacidade de dissertar sobre o que quer que fosse que apoquentava a alma. Nem sequer eram as famosas horas de angústia perante a folha de papel imaculada à espera de ser desflorada, somente uma espécie de desmoronamento interior onde, por algum tempo, deixou de ser possível encaixar os pedaços.
Sentimentos ambivalentes surgem. Uma vontade imensa de escrever e de não o fazer, acompanhada por uma estranha letargia mental e física que se sobrepõe a tudo, sentem-se as ideias mas estas têm preguiça de saltar para o papel como se donas de vontade própria e as palavras fossem inimigas mortais. Uma espécie de dor auto-infligida num processo de nostalgização que é absolutamente desconcertante.
À minha escala percebi as convulsões interiores geradas pelo confronto entre a vontade de escrever e criar e a impossibilidade de o fazer perante forças que escapam ao controlo de que tem este tipo de vivências. Os bloqueios que dominam o pensamento, que se tornam obsessões incontroláveis e que, por sua vez, dominam a existência, associado a uma noção cristalina da inexorabilidade do tempo que se escapa, são certamente os piores inimigos dos verdadeiramente grandes, quando perante uma folha a caneta não avança. Nem fraco nem bom, apenas nada.
Há também alturas em que o rio das ideias seca, uma aridez semelhante ao deserto provocada por uma episódica alienação da realidade, que é evidente quando os assuntos que normalmente nos inquietam o espírito e, apesar de nos revelarem as suas incongruências, não nos empurram para as usuais reflexões. A inércia vence, como se a existência fosse um fardo difícil de suportar.
As ideias não são coerentes, saltam aleatoriamente de neurónio em neurónio, são tantas e tão vagas e tão desprovidas de profundidade. Nada serve, como se de repente o nosso discernimento fosse mais profundo que o habitual e apenas restassem devaneios deprimentes que nos parecem, constantemente, de uma pobreza aviltante.
É por isso que a cada fase assim, sucede uma melhor e nos reencontramos com alguma paz interior. A desordem que lhe deu origem e que se apoderou da pessoa cria um estado de espírito que nos atira para uma crise existencial. Como dizem os psicólogos, reconhecer um problema é o primeiro passo para a cura, e nesse instante apercebemo-nos que permitimos que um pensamento obsessivo nos dominasse por um período, mais ou menos longo, o que possibilita o regresso ao equilíbrio, de dimensão obviamente subjectiva.
Esta de conquista configura uma espécie de regresso.
Com talento ou sem ele, exercer o direito à indignação perante as pragas que induzem o sofrimento de milhões é uma obrigação de todos. A presença de qualquer coisa que nos indigna deveria constituir um motivo com força suficiente para nos arrancar de qualquer estado letárgico. Tentar enquadrar um qualquer conceito que exponha a condição humana, descrevendo a vida nem que seja numa das mais simples dentro das suas infinitas cambiantes, pode ser uma forma de melhorar a existência de alguém. Não fazer nada, tendo a possibilidade para o fazer será um acto que, muito provavelmente, tornará o arrependimento uma obsessão implacável.
Perante isto, a única forma de acabar com a óbvia indiferença que grassa pela humanidade, claramente contra ela própria, é a exposição pública do mal. Escrever é a forma mais consistente de o fazer. As palavras, quando colocadas na ordem certa, podem ganhar a imortalidade e influenciar o futuro, pela denúncia daquilo que se afigura como inconsequente. Sonhar com um mundo melhor não basta é preciso lutar por ele com os recursos que possuímos.
O melhor, por isso, é aproximarmo-nos de qualquer sítio onde costumamos escrever, porque as reflexões fazem-se em todos os momentos de solidão, e assim tentar estabelecer um diálogo com a folha à nossa frente, colocar a caneta na posição, como que abraçada pelos dedos, e deixa-la fluir, ganhar vida própria, ser o prolongamento físico do nosso corpo, o objecto que permite a transmigração das ideias desde o cérebro até ao plano físico, acessíveis a todos, pois só aí desempenham o papel que lhes está reservado.
É que as ideias também querem sair, mas por vezes não o sabem. E quando ganham coragem para o fazer, se tiverem valor, podem mudar o mundo, ou pelo menos alterar visão que alguns têm dele. Nesses instantes é como se se conseguisse eliminar uma doença qualquer, uma espécie de demónio interior que nos faz levantar, sentar coçar, andar, estar parado, sentar outra vez, falar, calar numa inquietude incessante.
Então, o silêncio das ideias passa a ser coisa do passado, as palavras parecem fluir como água num rio, não nos limitamos a ver as coisas, reparámos nelas, devoramos a sua existência numa ânsia desmedida e incontrolável de aprisionar a sua essência. Deixamo-nos envolver pela beleza, pelo que provoca felicidade, sorvendo todos os segundos como se um único perdido fosse motivo para chorar.
Este texto é apenas isto, uma tentativa de ordenar a minha mente, dominada pelo cansaço e que algures no tempo se rendeu sem a determinação necessária ao medo de não o conseguir.

Filipe Pinto.
publicado por armando ésse às 06:58

Junho 08 2006
Sempre nos demos mal com a norma. Os portugueses não são um povo dado a insurreições mas se poderem defecar em cima da lei, fazem-no. Este é o país onde um acidente por excesso de velocidade é encarado como uma contingência da audácia rodoviária. Somos heróis à nossa maneira. Europeus, mas especiais. Uma espécie de Epá sem chiclet. De facto, Portugal vê a Europa como um gelado. O problema é que está sempre a chupar no pau.
Falemos agora dos males da época.
A espécie mais exemplificativa do charme luso é John Matias. Quem é John Matias? Passo a explicar:

Newark – 8:30 a.m.

Numa casa de um bairro de subúrbio votado ao esquecimento pela polícia, um casal com dois filhos faz as malas para partir de férias.
- Bob, onde está a tua irmã? – pergunta a mãe – Já são horas!
- Está no W.C. a vomitar. Ontem ela break-up com o boyfriend e depois apanhou uma carroça.
- Ó Bob, diz a essa motherfucker que se não sai da casa de banho enfio-lhe um estouro no ass! – grita, John Matias, o extremoso pai revoltado.
Tudo se resolve. A família sai de casa bem trajada:
Pai – T-Shirt lilás sem mangas, contrafacção da Armani, calções pretos e sapatilhas brancas Nike.
Mãe – Fato-de-treino adidas verde, também contrafacção, sapatilhas Nike brancas, óculos de sol castanhos e duas latas de laca no cabelo.
Filho – T-Shirt do Benfica, calções Benfica TBZ e sapatilhas brancas Nike.
Filha – T-Shirt branca com a cara da Madonna estampada, mini-saia de ganga e sapatos rosa de salto alto.
A ida para o aeroporto faz-se de autocarro disponibilizado pela companhia aérea. Pelo caminho, o pai Matias recorda com saudade os seus tempos de menino e o lançamento do primeiro álbum do Boy George.
A viagem de avião para Portugal é rapidamente efectuada. No aeroporto de Lisboa as irmãs de John Matias esperam-no.
- Oh, João, Oh, João – gritam com as lágrimas nos olhos.
- Ó pai, quem é esse João? – pergunta Christie Carina, a filha do casal.
- Era assim que me chamavam quando eu ainda vivia in Portugal – responde
- Voltaste! – continuam as histerias irmãs – Estás mais gordo. Já viste o ácido úrico? Olha que o Sr. Justino da junta morreu a semana passada por causa disso.
A conversa, as lágrimas, o ranho e a loucura continuam. Ao longe, os dois filhos do casal visionam toda esta cena com o espanto de quem chegou a um zoo.
John Matias, mede 1,64m. Pesa 94kg. Ostenta bigode, é calvo e usa mais comprida a unha do dedo mínimo da mão direita. Fuma. Cospe para chão e rega a sua existência com flatos. Em breve estará a caminho do Lindoso, onde, depois de cumprimentar o resto da família, comerá meio presunto e dois litros de vinho para empanturrar a saudade. Calada a boca da fome, falará nas vicissitudes da emigração e no quão infinitamente melhor é viver um ano na penúria para poder esbanjar tudo no verão em futilidades num país que já foi seu.
Christie Carina e Bob estarão sentados no alpendre da casa. Ele suspirando pela Playstation e por civilização, ela vertendo lágrimas de dor depois de ter descoberto que o sexo anal pode não ser o suficiente para obrigar um adolescente a continuar um namoro.
Sheila Maria, a mulher de John, olha para fotos do marido no tempo da tropa com 40 Kg a menos e questiona-se como é que um homem outrora atraente pôde degenerar numa espécie de estupidez com sotaque.

Lá fora está calor, o país desidrata-se; seca.
Bandeiras na janela. Scolari na presidência.
O défice social adormece ao som de relatos de futebóis. Um povo embalado pela falsa música de um hino ao serviço de uma federação.

Não.
Não.

Deixem-me dormir.
Deixem-me.
A minha bandeira é branca.
publicado por armando ésse às 22:03

Junho 08 2006
Sempre nos demos mal com a norma. Os portugueses não são um povo dado a insurreições mas se poderem defecar em cima da lei, fazem-no. Este é o país onde um acidente por excesso de velocidade é encarado como uma contingência da audácia rodoviária. Somos heróis à nossa maneira. Europeus, mas especiais. Uma espécie de Epá sem chiclet. De facto, Portugal vê a Europa como um gelado. O problema é que está sempre a chupar no pau.
Falemos agora dos males da época.
A espécie mais exemplificativa do charme luso é John Matias. Quem é John Matias? Passo a explicar:

Newark – 8:30 a.m.

Numa casa de um bairro de subúrbio votado ao esquecimento pela polícia, um casal com dois filhos faz as malas para partir de férias.
- Bob, onde está a tua irmã? – pergunta a mãe – Já são horas!
- Está no W.C. a vomitar. Ontem ela break-up com o boyfriend e depois apanhou uma carroça.
- Ó Bob, diz a essa motherfucker que se não sai da casa de banho enfio-lhe um estouro no ass! – grita, John Matias, o extremoso pai revoltado.
Tudo se resolve. A família sai de casa bem trajada:
Pai – T-Shirt lilás sem mangas, contrafacção da Armani, calções pretos e sapatilhas brancas Nike.
Mãe – Fato-de-treino adidas verde, também contrafacção, sapatilhas Nike brancas, óculos de sol castanhos e duas latas de laca no cabelo.
Filho – T-Shirt do Benfica, calções Benfica TBZ e sapatilhas brancas Nike.
Filha – T-Shirt branca com a cara da Madonna estampada, mini-saia de ganga e sapatos rosa de salto alto.
A ida para o aeroporto faz-se de autocarro disponibilizado pela companhia aérea. Pelo caminho, o pai Matias recorda com saudade os seus tempos de menino e o lançamento do primeiro álbum do Boy George.
A viagem de avião para Portugal é rapidamente efectuada. No aeroporto de Lisboa as irmãs de John Matias esperam-no.
- Oh, João, Oh, João – gritam com as lágrimas nos olhos.
- Ó pai, quem é esse João? – pergunta Christie Carina, a filha do casal.
- Era assim que me chamavam quando eu ainda vivia in Portugal – responde
- Voltaste! – continuam as histerias irmãs – Estás mais gordo. Já viste o ácido úrico? Olha que o Sr. Justino da junta morreu a semana passada por causa disso.
A conversa, as lágrimas, o ranho e a loucura continuam. Ao longe, os dois filhos do casal visionam toda esta cena com o espanto de quem chegou a um zoo.
John Matias, mede 1,64m. Pesa 94kg. Ostenta bigode, é calvo e usa mais comprida a unha do dedo mínimo da mão direita. Fuma. Cospe para chão e rega a sua existência com flatos. Em breve estará a caminho do Lindoso, onde, depois de cumprimentar o resto da família, comerá meio presunto e dois litros de vinho para empanturrar a saudade. Calada a boca da fome, falará nas vicissitudes da emigração e no quão infinitamente melhor é viver um ano na penúria para poder esbanjar tudo no verão em futilidades num país que já foi seu.
Christie Carina e Bob estarão sentados no alpendre da casa. Ele suspirando pela Playstation e por civilização, ela vertendo lágrimas de dor depois de ter descoberto que o sexo anal pode não ser o suficiente para obrigar um adolescente a continuar um namoro.
Sheila Maria, a mulher de John, olha para fotos do marido no tempo da tropa com 40 Kg a menos e questiona-se como é que um homem outrora atraente pôde degenerar numa espécie de estupidez com sotaque.

Lá fora está calor, o país desidrata-se; seca.
Bandeiras na janela. Scolari na presidência.
O défice social adormece ao som de relatos de futebóis. Um povo embalado pela falsa música de um hino ao serviço de uma federação.

Não.
Não.

Deixem-me dormir.
Deixem-me.
A minha bandeira é branca.
publicado por armando ésse às 22:03

Junho 07 2006

De 9 de Junho a 9 de Julho o planeta inteiro vai ser submergido por uma vaga muito particular: a do futebol, cuja fase final do Campeonato do Mundo se desenrolará na Alemanha. Trata-se do mais universal acontecimento desportivo e televisivo. Vários milhares de milhões de telespectadores, em audiência acumulada, vão seguir as sessenta e quatro partidas da prova, que opõe trinta e duas equipas nacionais representando seis continentes.
A confrontação atingirá a sua máxima intensidade no domingo 9 de Julho quando, em Berlim, no estádio olímpico (construído por Hitler para os jogos olímpicos de 1936), as duas equipas finalistas disputarão o final. Nesse momento, mais dois mil milhões de pessoas – um terço da humanidade – em duzentos e treze países (quando a Organização das Nações Unidas só conta com 191 Estados) se encontrarão frente aos seus écrans. E nada mais contará para elas.
A competição funcionará então como um colossal pára-vento e esconderá qualquer outro acontecimento. Para grande tranquilidade de alguns. Por exemplo, em França: Chirac e Dominique de Villepin esperam sem dúvida esta hipnótica distracção para fazer esquecer o “caso Clearstream”. E respirar um pouco.
«Peste emocional» [1] para uns, «paixão exaltante» [2] para outros, o futebol é o desporto internacional número um. Mas é indiscutivelmente mais do que um desporto. Senão não suscitaria um tal tropel de sentimentos contrastantes. «Um facto social total», disse dele o grande ensaísta Norbert Elias. Poder-se-ia afirmar também que ele constitui uma metáfora da condição humana. Porque ele dá a ver, segundo o antropólogo Christian Bromberger, a incerteza dos estatutos individuais e colectivos, assim como todas as dimensões da fortuna e do destino [3]. Ele convida a uma reflexão sobre o papel do indivíduo e do trabalho em equipa, e origina debates apaixonados sobre a simulação, o arbitrário e a injustiça.
Como na vida, os perdedores no futebol são mais numerosos que os ganhadores. Por isso mesmo é que este desporto sempre foi de multidões que vêem nele, consciente ou inconscientemente, uma representação do seu próprio destino. Elas sabem também que amar o seu clube é aceitar o sofrimento. O importante, em caso de derrota, é permanecer unidos, manter a união. Graças a esta paixão partilhada fica-se com a garantia de não mais se estar isolado. «You’ll never walk alone» [«Tu nunca mais caminharás sozinho»], cantam os fãs do Liverpoll FC, o clube proletário inglês.
O futebol é o desporto político por excelência. Ele está na encruzilhada de questões cruciais como a pertença, a identidade, a condição social e até, por causa do seu aspecto sacrificial e a sua mística, da religião. É por isso que os estádios se prestam tão bem a cerimónias nacionalistas, aos localismos e aos extravasamentos identitários ou tribais que desencadeiam por vezes violências entre apoiantes fanáticos.
Por todas estas razões – e, sem dúvida, por outras, bem mais positivas e festivas – este desporto fascina as massas. Estas, por sua vez, interessam não só aos demagogos mas sobretudo aos publicitários. Pois, mais do que uma prática desportiva, o futebol é hoje um espectáculo televisionado para um vasto público com as suas vedetas pagas a preço de ouro.
A compra e venda de jogadores reflecte bem o estado do mercado nesta época da globalização liberal: as riquezas localizam-se no Sul mas são consumidas no Norte, uma vez que só este último tem os meios de as comprar. E este mercado (de enganos, frequentemente) produz modernas formas de tráfico de seres humanos [4].
Os meios financeiros que são mobilizados são demenciais. Se a França se qualificar para a final, o preço de um anúncio publicitário de 30 segundos na TV atingirá o montante de 250.000 euros (ou seja, quinze anos de salário mínimo francês!). E a Federação Internacional de Futebol (FIFA) vai receber nunca menos de 1.172 mil milhões de euros pelos direitos de transmissão televisivos e patrocínios do campeonato do mundo na Alemanha. Estima-se, por outro lado, que o total de investimentos publicitários ligados a esta competição seja de 3 mil milhões de euros.
Tais montantes de dinheiro enlouquecem. Toda uma fauna de negócios gira à volta da bola redonda. Ela controla o mercado de transferências de jogadores, ou o das apostas desportivas. Certas equipas, a fim de garantir a vitória, não hesitam em fazer batota. Casos desses são uma legião. Como confirma o escândalo que actualmente abala a Itália. E que poderia levar a Juventus de Turim, acusada de ter comprado os árbitros, a descer de divisão.
Assim vai pois este desporto fascinante. No meio de esplendores sem igual e das suas infâmias, cujo efeito é semelhante ao da lama colocada num ventilador. Cada qual fica enlameado.
Ignacio Ramonet.
Le Monde diplomatique.
[1] Jean-Marie Brohm, La Tyrannie sportive. Théorie critique d’un opium du peuple, Beauchesne, Paris, 2005.
[2] Pascal Boniface, Football et mondialisation, Armand Colin, Paris, 2006.
[3] Christian Bromberger, Football, la bagatelle la plus sérieuse du monde, Bayard, Paris, 1998.
[4] Johann Harscoët, "Tu seras Pelé, Maradona, Zidane" ou... rien, Le Monde diplomatique, Junho de 2006.
publicado por armando ésse às 12:14

Junho 07 2006

De 9 de Junho a 9 de Julho o planeta inteiro vai ser submergido por uma vaga muito particular: a do futebol, cuja fase final do Campeonato do Mundo se desenrolará na Alemanha. Trata-se do mais universal acontecimento desportivo e televisivo. Vários milhares de milhões de telespectadores, em audiência acumulada, vão seguir as sessenta e quatro partidas da prova, que opõe trinta e duas equipas nacionais representando seis continentes.
A confrontação atingirá a sua máxima intensidade no domingo 9 de Julho quando, em Berlim, no estádio olímpico (construído por Hitler para os jogos olímpicos de 1936), as duas equipas finalistas disputarão o final. Nesse momento, mais dois mil milhões de pessoas – um terço da humanidade – em duzentos e treze países (quando a Organização das Nações Unidas só conta com 191 Estados) se encontrarão frente aos seus écrans. E nada mais contará para elas.
A competição funcionará então como um colossal pára-vento e esconderá qualquer outro acontecimento. Para grande tranquilidade de alguns. Por exemplo, em França: Chirac e Dominique de Villepin esperam sem dúvida esta hipnótica distracção para fazer esquecer o “caso Clearstream”. E respirar um pouco.
«Peste emocional» [1] para uns, «paixão exaltante» [2] para outros, o futebol é o desporto internacional número um. Mas é indiscutivelmente mais do que um desporto. Senão não suscitaria um tal tropel de sentimentos contrastantes. «Um facto social total», disse dele o grande ensaísta Norbert Elias. Poder-se-ia afirmar também que ele constitui uma metáfora da condição humana. Porque ele dá a ver, segundo o antropólogo Christian Bromberger, a incerteza dos estatutos individuais e colectivos, assim como todas as dimensões da fortuna e do destino [3]. Ele convida a uma reflexão sobre o papel do indivíduo e do trabalho em equipa, e origina debates apaixonados sobre a simulação, o arbitrário e a injustiça.
Como na vida, os perdedores no futebol são mais numerosos que os ganhadores. Por isso mesmo é que este desporto sempre foi de multidões que vêem nele, consciente ou inconscientemente, uma representação do seu próprio destino. Elas sabem também que amar o seu clube é aceitar o sofrimento. O importante, em caso de derrota, é permanecer unidos, manter a união. Graças a esta paixão partilhada fica-se com a garantia de não mais se estar isolado. «You’ll never walk alone» [«Tu nunca mais caminharás sozinho»], cantam os fãs do Liverpoll FC, o clube proletário inglês.
O futebol é o desporto político por excelência. Ele está na encruzilhada de questões cruciais como a pertença, a identidade, a condição social e até, por causa do seu aspecto sacrificial e a sua mística, da religião. É por isso que os estádios se prestam tão bem a cerimónias nacionalistas, aos localismos e aos extravasamentos identitários ou tribais que desencadeiam por vezes violências entre apoiantes fanáticos.
Por todas estas razões – e, sem dúvida, por outras, bem mais positivas e festivas – este desporto fascina as massas. Estas, por sua vez, interessam não só aos demagogos mas sobretudo aos publicitários. Pois, mais do que uma prática desportiva, o futebol é hoje um espectáculo televisionado para um vasto público com as suas vedetas pagas a preço de ouro.
A compra e venda de jogadores reflecte bem o estado do mercado nesta época da globalização liberal: as riquezas localizam-se no Sul mas são consumidas no Norte, uma vez que só este último tem os meios de as comprar. E este mercado (de enganos, frequentemente) produz modernas formas de tráfico de seres humanos [4].
Os meios financeiros que são mobilizados são demenciais. Se a França se qualificar para a final, o preço de um anúncio publicitário de 30 segundos na TV atingirá o montante de 250.000 euros (ou seja, quinze anos de salário mínimo francês!). E a Federação Internacional de Futebol (FIFA) vai receber nunca menos de 1.172 mil milhões de euros pelos direitos de transmissão televisivos e patrocínios do campeonato do mundo na Alemanha. Estima-se, por outro lado, que o total de investimentos publicitários ligados a esta competição seja de 3 mil milhões de euros.
Tais montantes de dinheiro enlouquecem. Toda uma fauna de negócios gira à volta da bola redonda. Ela controla o mercado de transferências de jogadores, ou o das apostas desportivas. Certas equipas, a fim de garantir a vitória, não hesitam em fazer batota. Casos desses são uma legião. Como confirma o escândalo que actualmente abala a Itália. E que poderia levar a Juventus de Turim, acusada de ter comprado os árbitros, a descer de divisão.
Assim vai pois este desporto fascinante. No meio de esplendores sem igual e das suas infâmias, cujo efeito é semelhante ao da lama colocada num ventilador. Cada qual fica enlameado.
Ignacio Ramonet.
Le Monde diplomatique.
[1] Jean-Marie Brohm, La Tyrannie sportive. Théorie critique d’un opium du peuple, Beauchesne, Paris, 2005.
[2] Pascal Boniface, Football et mondialisation, Armand Colin, Paris, 2006.
[3] Christian Bromberger, Football, la bagatelle la plus sérieuse du monde, Bayard, Paris, 1998.
[4] Johann Harscoët, "Tu seras Pelé, Maradona, Zidane" ou... rien, Le Monde diplomatique, Junho de 2006.
publicado por armando ésse às 12:14

Junho 05 2006

Milhares de pessoas reuniram-se, ontem, num parque de Hong Kong para render uma emotiva homenagem às vítimas da batalha de Tiananmen.Este foi o único acto público verificado em toda a China para celebrar o ocorrido.
Os manifestantes acenderam velas, criando um mar de luzes no parque Victoria de Hong Kong. Mantiveram-se em silêncio durante alguns instantes e cantaram um hino à democracia, enquanto os organizadores colocaram coroas de flores num sepulcro improvisado dedicado aos "mártires da democracia".
É certo que a maior parte da população não participou em qualquer acto, mas também é verdade que o Governo de Pequim proibiu qualquer manifestação. Na Praça de Tiananmen, a Polícia montou vigilância apertada e, pelo menos, duas pessoas foram detidas.A matança de Tiananmen continua a ser um tema tabu no grande país asiático, à excepção de algumas regiões semi-autónomas, como Hong Kong e Macau.(JN).
A 3 de Junho de 1989 atinge-se o auge de uma série de manifestações pro-democráticas, lideradas por estudantes chineses. A 15 de Abril, a seguir à morte do secretário-geral do partido comunista e do reformista democrático Hu Yaobang os estudantes desencadearam manifestações pacíficas em Xangai, Pequim e noutras cidades. Hu tornou-se um herói entre os chineses liberais quando recusou fazer parar os distúrbios em Janeiro de 1987. As manifestações pro-democráticas continuaram com as pessoas a pedirem a mudança do líder supremo da China, Deng Xiaoping e também a cúpula de todos os funcionários do Partido. A 4 de Maio cerca de 100 000 estudantes e trabalhadores marcharam em Pequim pedindo reformas democráticas. No fim desse mês as manifestações continuaram mesmo durante a visita de Mikhail Gorbachev.
Durante as sete semanas que duraram as históricas manifestações dos estudantes universitários de Pequim, irradiou da praça da Paz Celestial para o mundo um sopro de entusiasmo e esperança. Eles pediam democracia e fim da corrupção, a justeza das suas reivindicações fez em poucos dias multiplicarem-se os manifestantes, que passaram de 20 mil para quase 2 milhões, envolvendo praticamente todos os sectores da sociedade.
Mas o fim seria trágico.
Depois da tentativa frustrada do Exército controlar Pequim pacificamente, porque os soldados recuaram frente aos apelos dos manifestantes. A cúpula do Partido Comunistas e do Exército de libertação, obrigaram os soldados a intervir activamente e a tropa abre fogo sobre os estudantes e o povo da cidade de Pequim. Os mortos são estimados entre duzentos e quatro mil, ferindo dez mil pessoas e prendendo milhares de estudantes e trabalhadores. A repressão continuou em todo o país, até hoje, com prisões e execuções sumárias, controle da imprensa e não respeito pelos Direitos humanos.
publicado por armando ésse às 09:33

Junho 05 2006

Milhares de pessoas reuniram-se, ontem, num parque de Hong Kong para render uma emotiva homenagem às vítimas da batalha de Tiananmen.Este foi o único acto público verificado em toda a China para celebrar o ocorrido.
Os manifestantes acenderam velas, criando um mar de luzes no parque Victoria de Hong Kong. Mantiveram-se em silêncio durante alguns instantes e cantaram um hino à democracia, enquanto os organizadores colocaram coroas de flores num sepulcro improvisado dedicado aos "mártires da democracia".
É certo que a maior parte da população não participou em qualquer acto, mas também é verdade que o Governo de Pequim proibiu qualquer manifestação. Na Praça de Tiananmen, a Polícia montou vigilância apertada e, pelo menos, duas pessoas foram detidas.A matança de Tiananmen continua a ser um tema tabu no grande país asiático, à excepção de algumas regiões semi-autónomas, como Hong Kong e Macau.(JN).
A 3 de Junho de 1989 atinge-se o auge de uma série de manifestações pro-democráticas, lideradas por estudantes chineses. A 15 de Abril, a seguir à morte do secretário-geral do partido comunista e do reformista democrático Hu Yaobang os estudantes desencadearam manifestações pacíficas em Xangai, Pequim e noutras cidades. Hu tornou-se um herói entre os chineses liberais quando recusou fazer parar os distúrbios em Janeiro de 1987. As manifestações pro-democráticas continuaram com as pessoas a pedirem a mudança do líder supremo da China, Deng Xiaoping e também a cúpula de todos os funcionários do Partido. A 4 de Maio cerca de 100 000 estudantes e trabalhadores marcharam em Pequim pedindo reformas democráticas. No fim desse mês as manifestações continuaram mesmo durante a visita de Mikhail Gorbachev.
Durante as sete semanas que duraram as históricas manifestações dos estudantes universitários de Pequim, irradiou da praça da Paz Celestial para o mundo um sopro de entusiasmo e esperança. Eles pediam democracia e fim da corrupção, a justeza das suas reivindicações fez em poucos dias multiplicarem-se os manifestantes, que passaram de 20 mil para quase 2 milhões, envolvendo praticamente todos os sectores da sociedade.
Mas o fim seria trágico.
Depois da tentativa frustrada do Exército controlar Pequim pacificamente, porque os soldados recuaram frente aos apelos dos manifestantes. A cúpula do Partido Comunistas e do Exército de libertação, obrigaram os soldados a intervir activamente e a tropa abre fogo sobre os estudantes e o povo da cidade de Pequim. Os mortos são estimados entre duzentos e quatro mil, ferindo dez mil pessoas e prendendo milhares de estudantes e trabalhadores. A repressão continuou em todo o país, até hoje, com prisões e execuções sumárias, controle da imprensa e não respeito pelos Direitos humanos.
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