A FÁBRICA

Julho 24 2006
Há momentos na vida em que nos pomos a pensar sobre o futuro. Imensas coisas fazem divagar o nosso pensamento para este assunto, mas nada mais forte do que quando nos nasce um filho. Ela nasceu há dias, juntou-se à irmã e, em conjunto, tornaram-se a minha proximidade com o divino. Não é uma afirmação com um carácter especial, apenas acho que se existir alguma divindade, aquilo que lhe garante esse atributo é, em primeiro lugar, a capacidade de criar vida. E, de certa forma, foi o que eu fiz. A diferença, que é obviamente tremenda, é que eu criei uma vida e não vida.
Nestes momentos que deveriam ser quase só felicidade, sou assolado por sentimentos ambivalentes. É desconcertante avaliar a actual conjuntura planetária e não ficar, no mínimo apreensivo, relativamente ao futuro das vidas que criamos. Desde as guerras que estão a decorrer, ao fanatismo terrorista e antiterrorista, ao mundo da economia, à aviltante pobreza dos países do terceiro mundo, à degradação ambiental do planeta, tudo é motivo para um pessimismo realista. Tentar explicar à inocência as suas incongruências é uma tarefa impossível de cumprir sem que durante a explicação, a própria inconsistência com que a construímos não nos invada a alma.
As guerras. A primeira vez que tomei a noção da iniquidade da guerra foi há muitos anos num programa do Jô Soares, num Sketch que nunca mais me saiu da cabeça. A estória centrava-se na conversa entre dois militares inimigos. Um perguntava ao outro qual era o prato favorito do seu povo, qual era o desporto favorito, etc. um sem número de coisas em que a resposta de ambos era invariavelmente igual. No fim da conversa pergunta um deles. Se temos as mesmas preferências, porque motivos nos guerreamos? A resposta veio no silêncio dos olhares quando os dirigem para as armas que constituíam a única diferença. Afastam-se muito rapidamente como se a comunidade em que se viram imbuídos, de repente caísse morta pelas balas das suas armas.

As motivações para a guerra são difusas e a razão nunca é propriedade absoluta. Serão elas de origem religiosa? Não me parece. A religião é apenas uma desculpa para escamotear o ódio por quem é diferente. Por outro lado, Deus não existe, pelo menos o Deus das religiões dos Homens. Nós, seres humanos, somos a prova disto mesmo. O que se venera do ponto de vista religioso é a perfeição divina. Ora um ser perfeito, não pode, por definição, criar nada imperfeito, sob pena de deixar de o ser. E não é mais que óbvio que nós somos imperfeitos? Não é isto um paradoxo?
Às vezes a sensação que tenho é que algumas situações de guerra são despoletadas porque têm efeitos directos sobre o preço do petróleo. Como se tudo fosse um jogo, e as marionetas são manipuladas porque todos sabem que ao mais pequeno desacato no médio oriente o preço dispara. Os custos de produção não variam na mesma medida e, por isso mesmo, quem mete mais dinheiro ao bolso são os produtores.
A economia, essa ciência transcendental, que define para que lado o planeta se deve virar não é acessível ao comum dos mortais. A sensação que dá é que é necessário um talento singular para apreender o significado de todas as suas variáveis, correlacioná-las de forma a obter uma qualquer receita para o sucesso, seja ele individual ou colectivo. O estranho é que o consenso geralmente não aparece.
A economia deixou de ser uma ciência social na era no reinado das multinacionais onde, aparentemente, aos olhos das suas cúpulas dirigentes, os restantes não passam de simples peças de um mecanismo sem alma, números que nada significam do ponto de vista humano. Os sentimentos de quem dirige possuem uma barreira que os impede de vislumbrar os dramas humanos, que normalmente sucedem aos despedimentos, como algo que deveria entrar nas suas equações no momento de tomar decisões. Há uma história notável que elucida na perfeição este aparente autismo. Na escola perguntam a uma menina rica para descrever uma família pobre. Ela reponde - é aquela em que o jardineiro é pobre, o motorista é pobre, as criadas são pobres, enfim são todos pobres.
Esta situação criou uma espécie de fenómeno Darwiniano, uma selecção natural capitalista de que resultam os marginais, os indigentes, os inadaptados e os sem-abrigo. O expoente máximo do liberalismo económico, os EUA, só na sua capital tem aproximadamente 15000 sem abrigo. Ao que parece, isto não incomoda ninguém como algo de profundamente perverso. Para que um viva bem é necessário que muitos vivam mal. Muito mal. Provavelmente, nesta era de indiferença deliberada, o mecanismo de defesa que o cérebro desenvolveu para suportar o choque emocional provocado por estas situações foi uma espécie de memória selectiva em que se atribui a culpa dos problemas a quem os tem, desresponsabilizando desta forma quem os cria e quem não os resolve.
A maioria dos economistas tem delírios quase sexuais quando sucede algo no mundo do dinheiro, desde OPAS a reestruturações nas empresas que, invariavelmente, se traduzem em despedimentos, aos quais se referem com uma frieza incomodativa, como se o deus lucro fosse a questão fundamental. Por um lado, normalmente as modificações são apenas para trocar lucros, por mais lucros. Por outro lado, ao anunciar as reestruturações, é importante dizer aos accionistas que se vão reduzir custos e aumentar os lucros. Posto isto, selecciona-se o pessoal a mandar embora, normalmente aos milhares, e toca a andar para a frente. O estranho é que nunca vi nenhum anúncio a mencionar uma empresa que, ao ser reestruturada, tivesse implicado contratação de mão-de-obra. Das duas uma, ou não é digno de ser notícia ou então nunca sucedeu. Também acontece que vão de reestruturação em reestruturação até à falência.
Ninguém consegue ter uma vida digna se não tiver dinheiro para o fazer e o emprego é para a maioria é única forma de o garantir. O sujeito que disse que o dinheiro não traz felicidade era obviamente rico, caso contrário não o poderia fazer. O pobre, por definição, não pode fazer um comentário destes. O problema é que a situação vai agravar-se e gerir a insatisfação de milhões, quando as frustrações e o ódio prevalecerem. As manifestações recentes de França são um prelúdio do que poderá suceder quando as pessoas deixarem de acreditar.
Em relação à pobreza no terceiro mundo, já muito foi dito mas como explicar ás crianças quando confrontados com o choro de alguém com fome, o choro de desespero, as mães com os seios enrugados, flácidos, precocemente envelhecidos, vazios, que pendem dos peitos como lágrimas gigantes, onde os bebés em vão procuram saciar-se, ao mesmo tempo que perscrutam em seu redor aos berros como que a implorarem por uma oportunidade para viver. Como é que se explica que coexista o desperdício de uns com a total ausência de meios de subsistência de outros? Refugiamo-nos no cliché – é a vida. Será que não se pode fazer mesmo nada? Será que se vai manter a inércia perante esta desumanidade?
As questões ambientais também já foram sobejamente debatidas. No entanto num recente relatório da OCDE dizia que até ao ano 2030 o consumo de energia no mundo inteiro vai aumentar 60%. A dependência do petróleo implica que a emissões dos gases de estufa também aumentem 60%. Se neste momento as alterações climáticas já têm um impacto significativo sobre o planeta fruto das emissões, que já se deveriam ter começado a reduzir, esse aumento provavelmente levar-no-à a um ponto sem retorno. Só que não é a nós mas sim ás gerações vindouras, se as houver, que isto interessa pois o ponto sem retorno significa certamente a extinção.
Estamos a destruir o planeta e a fazer filhos para que vivam nele, e estes que se preparem para resolver os problemas que nós criamos. A nossa geração vive uma vida patética, absorvida numa luta diária para a acumulação de riquezas e o futuro são os próximos cinco minutos. Já agora podemos ir preparando o discurso a pedir perdão aos nossos descendentes pelo mal que fizemos, é que caminhamos para um ponto além da possibilidade de redenção. A História, caso seja possível continuar a escreve-la, não se irá referir a esta era como uma particularmente feliz da humanidade, onde existem os meios para fazer quase tudo o que é necessário para melhor a vida no planeta e nada é feito. Ora como quem vai resolver os problemas é quem vai escrever a História, só posso imaginar os termos com que seremos descritos. Se a época medieval foi a idade das trevas, nós seremos algo muito pior.

Filipe Pinto.
publicado por armando ésse às 10:09

Julho 24 2006
Há momentos na vida em que nos pomos a pensar sobre o futuro. Imensas coisas fazem divagar o nosso pensamento para este assunto, mas nada mais forte do que quando nos nasce um filho. Ela nasceu há dias, juntou-se à irmã e, em conjunto, tornaram-se a minha proximidade com o divino. Não é uma afirmação com um carácter especial, apenas acho que se existir alguma divindade, aquilo que lhe garante esse atributo é, em primeiro lugar, a capacidade de criar vida. E, de certa forma, foi o que eu fiz. A diferença, que é obviamente tremenda, é que eu criei uma vida e não vida.
Nestes momentos que deveriam ser quase só felicidade, sou assolado por sentimentos ambivalentes. É desconcertante avaliar a actual conjuntura planetária e não ficar, no mínimo apreensivo, relativamente ao futuro das vidas que criamos. Desde as guerras que estão a decorrer, ao fanatismo terrorista e antiterrorista, ao mundo da economia, à aviltante pobreza dos países do terceiro mundo, à degradação ambiental do planeta, tudo é motivo para um pessimismo realista. Tentar explicar à inocência as suas incongruências é uma tarefa impossível de cumprir sem que durante a explicação, a própria inconsistência com que a construímos não nos invada a alma.
As guerras. A primeira vez que tomei a noção da iniquidade da guerra foi há muitos anos num programa do Jô Soares, num Sketch que nunca mais me saiu da cabeça. A estória centrava-se na conversa entre dois militares inimigos. Um perguntava ao outro qual era o prato favorito do seu povo, qual era o desporto favorito, etc. um sem número de coisas em que a resposta de ambos era invariavelmente igual. No fim da conversa pergunta um deles. Se temos as mesmas preferências, porque motivos nos guerreamos? A resposta veio no silêncio dos olhares quando os dirigem para as armas que constituíam a única diferença. Afastam-se muito rapidamente como se a comunidade em que se viram imbuídos, de repente caísse morta pelas balas das suas armas.

As motivações para a guerra são difusas e a razão nunca é propriedade absoluta. Serão elas de origem religiosa? Não me parece. A religião é apenas uma desculpa para escamotear o ódio por quem é diferente. Por outro lado, Deus não existe, pelo menos o Deus das religiões dos Homens. Nós, seres humanos, somos a prova disto mesmo. O que se venera do ponto de vista religioso é a perfeição divina. Ora um ser perfeito, não pode, por definição, criar nada imperfeito, sob pena de deixar de o ser. E não é mais que óbvio que nós somos imperfeitos? Não é isto um paradoxo?
Às vezes a sensação que tenho é que algumas situações de guerra são despoletadas porque têm efeitos directos sobre o preço do petróleo. Como se tudo fosse um jogo, e as marionetas são manipuladas porque todos sabem que ao mais pequeno desacato no médio oriente o preço dispara. Os custos de produção não variam na mesma medida e, por isso mesmo, quem mete mais dinheiro ao bolso são os produtores.
A economia, essa ciência transcendental, que define para que lado o planeta se deve virar não é acessível ao comum dos mortais. A sensação que dá é que é necessário um talento singular para apreender o significado de todas as suas variáveis, correlacioná-las de forma a obter uma qualquer receita para o sucesso, seja ele individual ou colectivo. O estranho é que o consenso geralmente não aparece.
A economia deixou de ser uma ciência social na era no reinado das multinacionais onde, aparentemente, aos olhos das suas cúpulas dirigentes, os restantes não passam de simples peças de um mecanismo sem alma, números que nada significam do ponto de vista humano. Os sentimentos de quem dirige possuem uma barreira que os impede de vislumbrar os dramas humanos, que normalmente sucedem aos despedimentos, como algo que deveria entrar nas suas equações no momento de tomar decisões. Há uma história notável que elucida na perfeição este aparente autismo. Na escola perguntam a uma menina rica para descrever uma família pobre. Ela reponde - é aquela em que o jardineiro é pobre, o motorista é pobre, as criadas são pobres, enfim são todos pobres.
Esta situação criou uma espécie de fenómeno Darwiniano, uma selecção natural capitalista de que resultam os marginais, os indigentes, os inadaptados e os sem-abrigo. O expoente máximo do liberalismo económico, os EUA, só na sua capital tem aproximadamente 15000 sem abrigo. Ao que parece, isto não incomoda ninguém como algo de profundamente perverso. Para que um viva bem é necessário que muitos vivam mal. Muito mal. Provavelmente, nesta era de indiferença deliberada, o mecanismo de defesa que o cérebro desenvolveu para suportar o choque emocional provocado por estas situações foi uma espécie de memória selectiva em que se atribui a culpa dos problemas a quem os tem, desresponsabilizando desta forma quem os cria e quem não os resolve.
A maioria dos economistas tem delírios quase sexuais quando sucede algo no mundo do dinheiro, desde OPAS a reestruturações nas empresas que, invariavelmente, se traduzem em despedimentos, aos quais se referem com uma frieza incomodativa, como se o deus lucro fosse a questão fundamental. Por um lado, normalmente as modificações são apenas para trocar lucros, por mais lucros. Por outro lado, ao anunciar as reestruturações, é importante dizer aos accionistas que se vão reduzir custos e aumentar os lucros. Posto isto, selecciona-se o pessoal a mandar embora, normalmente aos milhares, e toca a andar para a frente. O estranho é que nunca vi nenhum anúncio a mencionar uma empresa que, ao ser reestruturada, tivesse implicado contratação de mão-de-obra. Das duas uma, ou não é digno de ser notícia ou então nunca sucedeu. Também acontece que vão de reestruturação em reestruturação até à falência.
Ninguém consegue ter uma vida digna se não tiver dinheiro para o fazer e o emprego é para a maioria é única forma de o garantir. O sujeito que disse que o dinheiro não traz felicidade era obviamente rico, caso contrário não o poderia fazer. O pobre, por definição, não pode fazer um comentário destes. O problema é que a situação vai agravar-se e gerir a insatisfação de milhões, quando as frustrações e o ódio prevalecerem. As manifestações recentes de França são um prelúdio do que poderá suceder quando as pessoas deixarem de acreditar.
Em relação à pobreza no terceiro mundo, já muito foi dito mas como explicar ás crianças quando confrontados com o choro de alguém com fome, o choro de desespero, as mães com os seios enrugados, flácidos, precocemente envelhecidos, vazios, que pendem dos peitos como lágrimas gigantes, onde os bebés em vão procuram saciar-se, ao mesmo tempo que perscrutam em seu redor aos berros como que a implorarem por uma oportunidade para viver. Como é que se explica que coexista o desperdício de uns com a total ausência de meios de subsistência de outros? Refugiamo-nos no cliché – é a vida. Será que não se pode fazer mesmo nada? Será que se vai manter a inércia perante esta desumanidade?
As questões ambientais também já foram sobejamente debatidas. No entanto num recente relatório da OCDE dizia que até ao ano 2030 o consumo de energia no mundo inteiro vai aumentar 60%. A dependência do petróleo implica que a emissões dos gases de estufa também aumentem 60%. Se neste momento as alterações climáticas já têm um impacto significativo sobre o planeta fruto das emissões, que já se deveriam ter começado a reduzir, esse aumento provavelmente levar-no-à a um ponto sem retorno. Só que não é a nós mas sim ás gerações vindouras, se as houver, que isto interessa pois o ponto sem retorno significa certamente a extinção.
Estamos a destruir o planeta e a fazer filhos para que vivam nele, e estes que se preparem para resolver os problemas que nós criamos. A nossa geração vive uma vida patética, absorvida numa luta diária para a acumulação de riquezas e o futuro são os próximos cinco minutos. Já agora podemos ir preparando o discurso a pedir perdão aos nossos descendentes pelo mal que fizemos, é que caminhamos para um ponto além da possibilidade de redenção. A História, caso seja possível continuar a escreve-la, não se irá referir a esta era como uma particularmente feliz da humanidade, onde existem os meios para fazer quase tudo o que é necessário para melhor a vida no planeta e nada é feito. Ora como quem vai resolver os problemas é quem vai escrever a História, só posso imaginar os termos com que seremos descritos. Se a época medieval foi a idade das trevas, nós seremos algo muito pior.

Filipe Pinto.
publicado por armando ésse às 10:09

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