A FÁBRICA

Novembro 25 2006

Revejo em muitas notícias publicadas hoje na imprensa o ar de comadre alcoviteira da vizinha do lado, sempre pronta a trazer-nos em primeira mão as graças e as desgraças que assolam o mundo, entre meias palavras, piscadelas de olho e gestos exacerbados que nos acossam a alma e, quando se afasta para levar a boa nova a outras paragens, ficamos sem saber, afinal, o que nos quis dizer.
Uma dessas notícias aparece na primeira página do Correio da Manhã de segunda-feira sob o título “Portugal Campeão da Função Pública”.
No seu interior surgem números avançados pelo Eurostat, dispostos em pequenos rectângulos, onde se destaca a posição de Portugal no ranking europeu a partir da percentagem de Funcionários Públicos por população activa.
Tendo em conta o tratamento que foi dado à notícia, esta era merecedora de uma nota de rodapé, mas por estranhas razões editoriais foi de tal modo relevada que preenche completamente 2 páginas inteiras do jornal e destacada com letras garrafais, na primeira página.
Este tipo de notícias transporta-me ao passado e faz-me recordar longas tardes de verão passadas em Poiares da Régua, na casa da minha avó materna, e da casinha de madeira pintada de amarelo no meio da quinta, onde me libertava dos excessos da gulodice, dos gases e dos frutos depenicados, em total abandono do corpo e do espírito. Os Irmãos Metralha, o Professor Pardal, o Gastão, a Margarida, o Pato Donald, e muitas outras criaturas povoavam a casinha e faziam parte do meu imaginário.
Na casinha estavam folhas de jornal recortadas em pequenos rectângulos e pregados na parede, e não raras vezes, na ausência dos meus heróis, passeava os olhos por aquelas folhas antes de lhe dar o destino final e de calças no fundo das pernas, tomava contacto com o mundo fora da casinha, da quinta e da aldeia. Coisas estranhas que se passavam em lugares distantes e que eram trazidas por uma espécie de detectives, para serem recortadas e pregadas em alguma parede de uma qualquer casinha amarela.
Naquele tempo todas as noticias tinham verdadeira utilidade, mas como os hábitos e costumes já não são o que eram, convém que as noticias cumpram o seu papel que é informar, não como fazia a comadre alcoviteira mas antes com isenção, rigor, sentido cívico, para formar públicos, incentivar o espírito crítico e munir os leitores com instrumentos de análise que lhes permitam discutir com propriedade os assuntos que lhes interessam.
O Jornal poderia, por exemplo, recorrendo-se da mesma fonte (Eurostat), informar que a despesa total do Estado em 2005 foi equivalente à média europeia e foi suplantado mesmo por países como a Bélgica e a Dinamarca e, não consta que aqueles países tenham problemas de défice ou de equilíbrio das contas publicas.
Também poderia ter dito que a maioria dos países recorre a outsourcing e à privatização dos serviços públicos e deste modo a despesa com privados não aparece na rubrica “despesas com pessoal”, pelo que fazer comparações sem qualquer tipo de tratamento é falacioso.
Também poderia fazer comparações com o nível das remunerações dos outros países e poderiam ter dito que o estudo comparativo que o governo encomendou sobre a remuneração entre o privado e o público, demonstrou que este último ganha substancialmente menos e por isso não se sabe onde pára o dito estudo.
Poderia ter dito muito mais, mas o que está a dar é “bater” na Função Pública e o êxito de um jornal mede-se pelo número de jornais vendidos e nesta matéria o Correio da Manhã é o verdadeiro campeão (o diário mais vendido em Portugal).
Contudo, é sempre agradável fazermos uma viagem à nossa infância e trocar umas impressões com Donald Fauntleroy Duck, sobre a Função Pública em Portugal, enquanto a Margarida nos prepara um delicioso hambúrguer com batatas fritas.
Jorge Gaspar.

publicado por armando ésse às 08:35

Novembro 25 2006

Revejo em muitas notícias publicadas hoje na imprensa o ar de comadre alcoviteira da vizinha do lado, sempre pronta a trazer-nos em primeira mão as graças e as desgraças que assolam o mundo, entre meias palavras, piscadelas de olho e gestos exacerbados que nos acossam a alma e, quando se afasta para levar a boa nova a outras paragens, ficamos sem saber, afinal, o que nos quis dizer.
Uma dessas notícias aparece na primeira página do Correio da Manhã de segunda-feira sob o título “Portugal Campeão da Função Pública”.
No seu interior surgem números avançados pelo Eurostat, dispostos em pequenos rectângulos, onde se destaca a posição de Portugal no ranking europeu a partir da percentagem de Funcionários Públicos por população activa.
Tendo em conta o tratamento que foi dado à notícia, esta era merecedora de uma nota de rodapé, mas por estranhas razões editoriais foi de tal modo relevada que preenche completamente 2 páginas inteiras do jornal e destacada com letras garrafais, na primeira página.
Este tipo de notícias transporta-me ao passado e faz-me recordar longas tardes de verão passadas em Poiares da Régua, na casa da minha avó materna, e da casinha de madeira pintada de amarelo no meio da quinta, onde me libertava dos excessos da gulodice, dos gases e dos frutos depenicados, em total abandono do corpo e do espírito. Os Irmãos Metralha, o Professor Pardal, o Gastão, a Margarida, o Pato Donald, e muitas outras criaturas povoavam a casinha e faziam parte do meu imaginário.
Na casinha estavam folhas de jornal recortadas em pequenos rectângulos e pregados na parede, e não raras vezes, na ausência dos meus heróis, passeava os olhos por aquelas folhas antes de lhe dar o destino final e de calças no fundo das pernas, tomava contacto com o mundo fora da casinha, da quinta e da aldeia. Coisas estranhas que se passavam em lugares distantes e que eram trazidas por uma espécie de detectives, para serem recortadas e pregadas em alguma parede de uma qualquer casinha amarela.
Naquele tempo todas as noticias tinham verdadeira utilidade, mas como os hábitos e costumes já não são o que eram, convém que as noticias cumpram o seu papel que é informar, não como fazia a comadre alcoviteira mas antes com isenção, rigor, sentido cívico, para formar públicos, incentivar o espírito crítico e munir os leitores com instrumentos de análise que lhes permitam discutir com propriedade os assuntos que lhes interessam.
O Jornal poderia, por exemplo, recorrendo-se da mesma fonte (Eurostat), informar que a despesa total do Estado em 2005 foi equivalente à média europeia e foi suplantado mesmo por países como a Bélgica e a Dinamarca e, não consta que aqueles países tenham problemas de défice ou de equilíbrio das contas publicas.
Também poderia ter dito que a maioria dos países recorre a outsourcing e à privatização dos serviços públicos e deste modo a despesa com privados não aparece na rubrica “despesas com pessoal”, pelo que fazer comparações sem qualquer tipo de tratamento é falacioso.
Também poderia fazer comparações com o nível das remunerações dos outros países e poderiam ter dito que o estudo comparativo que o governo encomendou sobre a remuneração entre o privado e o público, demonstrou que este último ganha substancialmente menos e por isso não se sabe onde pára o dito estudo.
Poderia ter dito muito mais, mas o que está a dar é “bater” na Função Pública e o êxito de um jornal mede-se pelo número de jornais vendidos e nesta matéria o Correio da Manhã é o verdadeiro campeão (o diário mais vendido em Portugal).
Contudo, é sempre agradável fazermos uma viagem à nossa infância e trocar umas impressões com Donald Fauntleroy Duck, sobre a Função Pública em Portugal, enquanto a Margarida nos prepara um delicioso hambúrguer com batatas fritas.
Jorge Gaspar.

publicado por armando ésse às 08:35

Novembro 24 2006

"Que el diccionario detenga las balas"
Joaquín Sabina.

Sou intrinsecamente contra o "lápis azul" da censura, no entanto, não terei pejo em censurar comentários que visem, apenas e particularmente, os autores dos textos.
Respeito e muito a liberdade de expressão, mas há limites para a liberdade de expressão, especialmente quando o exercício dessa liberdade, é feito no sentido de denegrir publicamente, um dos autores dos textos deste blogue.
Fundamentalmente é necessário não confundir liberdade com libertinagem, um detalhe, deveras importante, que faz toda a diferença e que ao não ser respeitado, mete uma parte dos comentadores a tentar atravessar a linha divisória do Rubicão.
Minhas senhoras e meus senhores, este blogue, não é um lavadouro público e muito menos, porque eu não permito, o local para lavar roupa suja.
Se, os visitantes deste blogue, continuarem a abordar os textos com comentários desviados do assunto em questão, porei termo à possibilidade de comentar.
Cumprimentos.
Armando S. Sousa.


publicado por armando ésse às 03:08

Novembro 24 2006

"Que el diccionario detenga las balas"
Joaquín Sabina.

Sou intrinsecamente contra o "lápis azul" da censura, no entanto, não terei pejo em censurar comentários que visem, apenas e particularmente, os autores dos textos.
Respeito e muito a liberdade de expressão, mas há limites para a liberdade de expressão, especialmente quando o exercício dessa liberdade, é feito no sentido de denegrir publicamente, um dos autores dos textos deste blogue.
Fundamentalmente é necessário não confundir liberdade com libertinagem, um detalhe, deveras importante, que faz toda a diferença e que ao não ser respeitado, mete uma parte dos comentadores a tentar atravessar a linha divisória do Rubicão.
Minhas senhoras e meus senhores, este blogue, não é um lavadouro público e muito menos, porque eu não permito, o local para lavar roupa suja.
Se, os visitantes deste blogue, continuarem a abordar os textos com comentários desviados do assunto em questão, porei termo à possibilidade de comentar.
Cumprimentos.
Armando S. Sousa.


publicado por armando ésse às 03:08

Novembro 23 2006

Os portugueses sabem “que o sonho comanda a vida". A esmagadora maioria dos portugueses conhecem esse hino à liberdade, que é a canção “Pedra Filosofal”, cantada pela primeira vez por Manuel Freire, em 1969. O que a maioria dos portugueses não sabem é que este fenomenal poema…

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso em
serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

…é um poema, escrito por António Gedeão, alter ego de Rómulo de Carvalho, publicado em 1956. Rómulo de Carvalho professor de física, divulgador científico, pedagogo e autor de manuais escolares, historiador da ciência e da educação e poeta, faria amanhã cem anos se fosse vivo.
Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu em Lisboa a 24 de Novembro de 1906. Aí cresceu, numa casa modesta, no seio de um ambiente familiar tranquilo, profundamente marcado pela figura materna, cuja influência foi decisiva para a sua vida.
Na verdade, a sua mãe, apesar de contar somente com a instrução primária, tinha como grande paixão a literatura, sentimento que transmitiu ao filho Rómulo, assim baptizado em honra do protagonista de um drama lido num folhetim de jornal. Responsável por uma certa atmosfera literária que se vivia em sua casa,
é ela que, através dos livros comprados em fascículos, vendidos semanalmente pelas casas, ou, mais tarde, requisitados nas livrarias Portugália ou Morais, inicia o filho na arte das palavras. Desta forma Rómulo toma contacto com os mestres - Camões, Eça, Camilo e Cesário Verde, o preferido - e conhece As Mil e Uma Noites, obra que viria a considerar uma da suas bíblias.
Criança precoce, aos 5 anos escreve os primeiros poemas e aos 10 decide completar "Os Lusíadas" de Camões. No entanto, a par desta inclinação flagrante para as letras, quando, ao entrar para o liceu Gil Vicente, toma pela primeira vez contacto com as ciências, desperta nele um novo interesse, que se vai
intensificando com o passar dos anos e se torna predominante no seu último ano de liceu.
Este factor será decisivo para a escolha do caminho a tomar no ano seguinte, aquando da entrada na Universidade, pois, embora a literatura o tenha acompanhado durante toda a sua vida, não se mostrava a melhor escolha para quem, além de procurar estabilidade, era extremamente pragmático e se sentia atraído
pelas ciências justamente pelo seu lado experimental. Desta forma, a escolha da área das ciências, apesar de não ter sido fácil, dá-se. Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, forma-se em ciências pedagógicas na faculdade de letras do Porto, prenunciando assim qual será a sua actividade principal daí para a frente e durante 40 anos - professor e pedagogo. Começando por estagiar no liceu Pedro Nunes e ensinar durante 14 anos no liceu Camões, Rómulo de Carvalho é, depois, convidado a ir leccionar para o liceu D. João III, em Coimbra, permanecendo aí até, passados oito anos, regressar a Lisboa, convidado para professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas do liceu Pedro Nunes.
Exigente, comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão. Tal como afirmava sem hesitar, ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação. E assim, além da colaboração como co-director da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentra, durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusivé, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através
da colecção Ciência Para Gente Nova e muitos outros títulos, entre os quais Física para o Povo, cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. A divulgação científica surge como puro prazer - agrada-lhe comunicar, por escrito e com um carácter mais amplo, aquilo que, enquanto professor, comunicava pela palavra.
A dedicação à ciência e à sua divulgação e história não fica por aqui, sendo uma constante durante toda a sua a vida. De facto, Rómulo de Carvalho não parou de trabalhar até ao fim dos seus dias, deixando, inclusive trabalhos concluídos, mas por publicar, que por certo vêm engrandecer, ainda mais, a sua extensa obra científica.
Apesar da intensa actividade científica, Rómulo de Carvalho não esquece a arte das palavras e continua, sempre, a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca será útil a ninguém, nunca tenta publicá-la, preferindo destrui-la.
Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publica, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento Perpétuo. No entanto, o livro surge como tendo sido escrito por outro, António Gedeão, e o professor de física e química, Rómulo de Carvalho, permanece no anonimato a que se votou. O livro é bem recebido pela crítica e António Gedeão continua a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro e, depois, no ensaio e na ficção.
Nos seus poemas dá-se uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram dois interesses totalmente distintos, mas que, para Rómulo de Carvalho e para o seu "amigo" Gedeão, provinham da mesma fonte e completavam-se mutuamente.
A poesia de Gedeão é, realmente, comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade.
O professor Rómulo de Carvalho, entretanto, após 40 anos de ensino, em 1974, motivado em parte pela desorganização e falta de autoridade que depois do 25 de Abril tomou conta do ensino em Portugal decide reformar-se. Exigente e rigoroso, não se conforma com a situação. Nessa altura é convidado para leccionar na Universidade mas declina o convite.
Incapaz de ficar parado, nos anos seguintes dedica-se por inteiro à investigação publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continua a sonhar, mas o fim aproxima-se e o desejo da morrer determina, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos.
Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assume a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenhará até ao fim dos seus dias.
Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado, a 17 de Dezembro de 1996, com a Grã Cruz da Ordem de Mérito de Santiago da Espada. A 18 de Dezembro de 1996, foi-lhe atribuída, pelo Ministro da Cultura, a Medalha de Mérito Cultural, na Fundação Calouste Gulbenkian. Durante esta homenagem nacional, o dia 24 de Novembro foi instituido pelo ministro da Ciência, Mariano Gago para Dia Nacional da Cultura Cientifica, por ser o dia do nascimento desta personagem singular do século 20 português. A 19 de Fevereiro de 1997 a morte chega para Rómulo de Carvalho.
Várias Fontes.
publicado por armando ésse às 15:00
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Novembro 23 2006

Os portugueses sabem “que o sonho comanda a vida". A esmagadora maioria dos portugueses conhecem esse hino à liberdade, que é a canção “Pedra Filosofal”, cantada pela primeira vez por Manuel Freire, em 1969. O que a maioria dos portugueses não sabem é que este fenomenal poema…

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso em
serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

…é um poema, escrito por António Gedeão, alter ego de Rómulo de Carvalho, publicado em 1956. Rómulo de Carvalho professor de física, divulgador científico, pedagogo e autor de manuais escolares, historiador da ciência e da educação e poeta, faria amanhã cem anos se fosse vivo.
Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu em Lisboa a 24 de Novembro de 1906. Aí cresceu, numa casa modesta, no seio de um ambiente familiar tranquilo, profundamente marcado pela figura materna, cuja influência foi decisiva para a sua vida.
Na verdade, a sua mãe, apesar de contar somente com a instrução primária, tinha como grande paixão a literatura, sentimento que transmitiu ao filho Rómulo, assim baptizado em honra do protagonista de um drama lido num folhetim de jornal. Responsável por uma certa atmosfera literária que se vivia em sua casa,
é ela que, através dos livros comprados em fascículos, vendidos semanalmente pelas casas, ou, mais tarde, requisitados nas livrarias Portugália ou Morais, inicia o filho na arte das palavras. Desta forma Rómulo toma contacto com os mestres - Camões, Eça, Camilo e Cesário Verde, o preferido - e conhece As Mil e Uma Noites, obra que viria a considerar uma da suas bíblias.
Criança precoce, aos 5 anos escreve os primeiros poemas e aos 10 decide completar "Os Lusíadas" de Camões. No entanto, a par desta inclinação flagrante para as letras, quando, ao entrar para o liceu Gil Vicente, toma pela primeira vez contacto com as ciências, desperta nele um novo interesse, que se vai
intensificando com o passar dos anos e se torna predominante no seu último ano de liceu.
Este factor será decisivo para a escolha do caminho a tomar no ano seguinte, aquando da entrada na Universidade, pois, embora a literatura o tenha acompanhado durante toda a sua vida, não se mostrava a melhor escolha para quem, além de procurar estabilidade, era extremamente pragmático e se sentia atraído
pelas ciências justamente pelo seu lado experimental. Desta forma, a escolha da área das ciências, apesar de não ter sido fácil, dá-se. Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, forma-se em ciências pedagógicas na faculdade de letras do Porto, prenunciando assim qual será a sua actividade principal daí para a frente e durante 40 anos - professor e pedagogo. Começando por estagiar no liceu Pedro Nunes e ensinar durante 14 anos no liceu Camões, Rómulo de Carvalho é, depois, convidado a ir leccionar para o liceu D. João III, em Coimbra, permanecendo aí até, passados oito anos, regressar a Lisboa, convidado para professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas do liceu Pedro Nunes.
Exigente, comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão. Tal como afirmava sem hesitar, ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação. E assim, além da colaboração como co-director da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentra, durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusivé, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através
da colecção Ciência Para Gente Nova e muitos outros títulos, entre os quais Física para o Povo, cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. A divulgação científica surge como puro prazer - agrada-lhe comunicar, por escrito e com um carácter mais amplo, aquilo que, enquanto professor, comunicava pela palavra.
A dedicação à ciência e à sua divulgação e história não fica por aqui, sendo uma constante durante toda a sua a vida. De facto, Rómulo de Carvalho não parou de trabalhar até ao fim dos seus dias, deixando, inclusive trabalhos concluídos, mas por publicar, que por certo vêm engrandecer, ainda mais, a sua extensa obra científica.
Apesar da intensa actividade científica, Rómulo de Carvalho não esquece a arte das palavras e continua, sempre, a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca será útil a ninguém, nunca tenta publicá-la, preferindo destrui-la.
Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publica, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento Perpétuo. No entanto, o livro surge como tendo sido escrito por outro, António Gedeão, e o professor de física e química, Rómulo de Carvalho, permanece no anonimato a que se votou. O livro é bem recebido pela crítica e António Gedeão continua a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro e, depois, no ensaio e na ficção.
Nos seus poemas dá-se uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram dois interesses totalmente distintos, mas que, para Rómulo de Carvalho e para o seu "amigo" Gedeão, provinham da mesma fonte e completavam-se mutuamente.
A poesia de Gedeão é, realmente, comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade.
O professor Rómulo de Carvalho, entretanto, após 40 anos de ensino, em 1974, motivado em parte pela desorganização e falta de autoridade que depois do 25 de Abril tomou conta do ensino em Portugal decide reformar-se. Exigente e rigoroso, não se conforma com a situação. Nessa altura é convidado para leccionar na Universidade mas declina o convite.
Incapaz de ficar parado, nos anos seguintes dedica-se por inteiro à investigação publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continua a sonhar, mas o fim aproxima-se e o desejo da morrer determina, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos.
Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assume a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenhará até ao fim dos seus dias.
Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado, a 17 de Dezembro de 1996, com a Grã Cruz da Ordem de Mérito de Santiago da Espada. A 18 de Dezembro de 1996, foi-lhe atribuída, pelo Ministro da Cultura, a Medalha de Mérito Cultural, na Fundação Calouste Gulbenkian. Durante esta homenagem nacional, o dia 24 de Novembro foi instituido pelo ministro da Ciência, Mariano Gago para Dia Nacional da Cultura Cientifica, por ser o dia do nascimento desta personagem singular do século 20 português. A 19 de Fevereiro de 1997 a morte chega para Rómulo de Carvalho.
Várias Fontes.
publicado por armando ésse às 15:00
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Novembro 22 2006

Cerca de metade dos países em todo o mundo têm regimes que podem ser classificados de democráticos, mas em apenas 28 existe uma democracia plena, numa lista em que Portugal ocupa a 19ª posição, revela hoje a publicação «O Mundo em 2007», do The Economist.
Os autores do relatório, do «Economist Intelligence Unit», afirmam que 54 regimes constituem «democracias imperfeitas», o que – consideram - é melhor que a ausência total de democracia. Entre os 85 restantes Estados, 30 são considerados «regimes híbridos», enquanto 55 são «autoritários».
O grupo das «democracias plenas» está dominado pelos países desenvolvidos, com a «notável excepção» de Itália, mas inclui duas nações latino-americanas (Costa Rica e Uruguai) e uma africana: ilhas Maurícias.
A lista é liderada pelos países escandinavos ou do norte da Europa: Suécia (com 9,88 pontos), Islândia, Holanda, Noruega, Dinamarca e Finlândia, seguidos pelo Luxemburgo, Austrália, Canadá, Suíça e Irlanda, todos eles com pontuações superiores a 9, numa escala de 0 a 10.
Malta vem em 15º lugar, seguido por Espanha e Estados Unidos, enquanto Portugal está na 19ª posição. O Japão e a Bélgica partilham o 20º lugar, enquanto a França vem em 24º, seguida pela Costa Rica, ilhas Maurícias, Eslovénia e Uruguai, empatados no 27º lugar.
Os autores do estudo classificam de surpreendente a «modesta posição» ocupada pelos dois países considerados tradicionalmente bastiões da democracia: os Estados Unidos (8,22 pontos) e Reino Unidos, que está em 23º com 8,08 pontos.
Explicam que nos Estados Unidos houve uma «grande erosão das liberdades civis» no contexto da guerra contra o terrorismo, tendo ocorrido algo semelhante no Reino Unido, onde se regista «uma forte redução da participação política». Quanto a este último aspecto, o Reino Unido ocupa o pior lugar entre os países ocidentais, como se reflecte na sua baixa participação eleitoral, na fraca militância em partidos políticos, na pouca disposição em participar na política e na atitude geral para com a «coisa pública».
No grupo seguinte, o de «democracias imperfeitas», estão a África do Sul (29º), Chile (30º), Itália (34º), Índia (35º) e Botsuana (36º). Outros países latino-americanos e das Caraíbas neste grupo são o Brasil (42º), Panamá (44º), Jamaica (45º), Trinidad e Tobago (48º), México (53º), Argentina (54º), Colômbia (67º), Honduras (69º), El Salvador (70º), Paraguai (71º), Guiana (73º), República Dominicana (74º), Peru (75º), Guatemala (77º) e Bolívia (81º).
Novos membros da União Europeia e países dispostos a fazer parte do bloco também se encontram neste grupo, como a Eslováquia (41º), Polónia (46º), Bulgária (49º), Roménia (50º). Os regimes de Israel (47º), Filipinas (63º), Indonésia (65º) e Benin (71º) também são considerados «democracias imperfeitas».
Entre os países de regimes híbridos encontram-se a Turquia (88º), Nicarágua (89º), Equador (92º), Venezuela (93º), Rússia (102º), Haiti (109º), Iraque (112º) e vários países africanos:
Senegal, Gana, Moçambique, Zâmbia, Libéria, Uganda e Quénia, entre outros.
No grupo de regimes autoritários há apenas um país latino-americano, Cuba (124º), mas muitos islâmicos encaixam-se nesta definição, como o Paquistão (113º), Jordânia (113º), Marrocos e Egipto (115º), Argélia (132º), Irão (139º) e Arábia Saudita (159º). Outros como a China (138º), Guiné Equatorial (156º), Guiné e Guiné-Bissau também se enquadram nos regimes autoritários, segundo The Economist. DD.
publicado por armando ésse às 09:17

Novembro 22 2006

Cerca de metade dos países em todo o mundo têm regimes que podem ser classificados de democráticos, mas em apenas 28 existe uma democracia plena, numa lista em que Portugal ocupa a 19ª posição, revela hoje a publicação «O Mundo em 2007», do The Economist.
Os autores do relatório, do «Economist Intelligence Unit», afirmam que 54 regimes constituem «democracias imperfeitas», o que – consideram - é melhor que a ausência total de democracia. Entre os 85 restantes Estados, 30 são considerados «regimes híbridos», enquanto 55 são «autoritários».
O grupo das «democracias plenas» está dominado pelos países desenvolvidos, com a «notável excepção» de Itália, mas inclui duas nações latino-americanas (Costa Rica e Uruguai) e uma africana: ilhas Maurícias.
A lista é liderada pelos países escandinavos ou do norte da Europa: Suécia (com 9,88 pontos), Islândia, Holanda, Noruega, Dinamarca e Finlândia, seguidos pelo Luxemburgo, Austrália, Canadá, Suíça e Irlanda, todos eles com pontuações superiores a 9, numa escala de 0 a 10.
Malta vem em 15º lugar, seguido por Espanha e Estados Unidos, enquanto Portugal está na 19ª posição. O Japão e a Bélgica partilham o 20º lugar, enquanto a França vem em 24º, seguida pela Costa Rica, ilhas Maurícias, Eslovénia e Uruguai, empatados no 27º lugar.
Os autores do estudo classificam de surpreendente a «modesta posição» ocupada pelos dois países considerados tradicionalmente bastiões da democracia: os Estados Unidos (8,22 pontos) e Reino Unidos, que está em 23º com 8,08 pontos.
Explicam que nos Estados Unidos houve uma «grande erosão das liberdades civis» no contexto da guerra contra o terrorismo, tendo ocorrido algo semelhante no Reino Unido, onde se regista «uma forte redução da participação política». Quanto a este último aspecto, o Reino Unido ocupa o pior lugar entre os países ocidentais, como se reflecte na sua baixa participação eleitoral, na fraca militância em partidos políticos, na pouca disposição em participar na política e na atitude geral para com a «coisa pública».
No grupo seguinte, o de «democracias imperfeitas», estão a África do Sul (29º), Chile (30º), Itália (34º), Índia (35º) e Botsuana (36º). Outros países latino-americanos e das Caraíbas neste grupo são o Brasil (42º), Panamá (44º), Jamaica (45º), Trinidad e Tobago (48º), México (53º), Argentina (54º), Colômbia (67º), Honduras (69º), El Salvador (70º), Paraguai (71º), Guiana (73º), República Dominicana (74º), Peru (75º), Guatemala (77º) e Bolívia (81º).
Novos membros da União Europeia e países dispostos a fazer parte do bloco também se encontram neste grupo, como a Eslováquia (41º), Polónia (46º), Bulgária (49º), Roménia (50º). Os regimes de Israel (47º), Filipinas (63º), Indonésia (65º) e Benin (71º) também são considerados «democracias imperfeitas».
Entre os países de regimes híbridos encontram-se a Turquia (88º), Nicarágua (89º), Equador (92º), Venezuela (93º), Rússia (102º), Haiti (109º), Iraque (112º) e vários países africanos:
Senegal, Gana, Moçambique, Zâmbia, Libéria, Uganda e Quénia, entre outros.
No grupo de regimes autoritários há apenas um país latino-americano, Cuba (124º), mas muitos islâmicos encaixam-se nesta definição, como o Paquistão (113º), Jordânia (113º), Marrocos e Egipto (115º), Argélia (132º), Irão (139º) e Arábia Saudita (159º). Outros como a China (138º), Guiné Equatorial (156º), Guiné e Guiné-Bissau também se enquadram nos regimes autoritários, segundo The Economist. DD.
publicado por armando ésse às 09:17

Novembro 20 2006

Um beco sem saída.
Daqueles em que ninguém se quer encontrar. Perante as vicissitudes que a vida nos coloca, por vezes somos confrontados com situações que parecem irreais e distantes, que nem sabemos como devemos ou mesmo se podemos reagir, porque parece não existir nada que possa abrir o caminho bloqueado por uma força desumana e intransponível.
Por inépcia ou incúria, um segundo é quanto basta para tudo se alterar. Nada é definitivo. Quantas vezes num filme, num livro, numa história que alguém conta ou a que se assiste com um distanciamento seguro, se conclui que seria impossível encontrar-se nesta ou naquela posição? Como quase sempre acontece, todos achamos que é inverosímil que um lapso de tempo insignificante possa condicionar toda uma existência e, por isso mesmo, vive-se deliberadamente na inconsciência consciente, porque não obriga à reflexão sobre os nossos actos, numa condição de permanente ilusão, que permite esquecer a responsabilidade, e atribuindo-se ás possíveis consequências, que podem revelar-se esmagadoras e irresolúveis, a mesma importância que ao obituário de um jornal.
Consideramos invariavelmente estar a salvo da ignomínia e do infortúnio. Quando o inesperado acontece, quase sempre reagimos a despropósito. Normalmente, esperamos que tudo se resolva e desapareça após uma noite de sono. Todo o nosso pensamento se centra no desejo de regresso à nossa normalidade, numa regressão no enredo com que a vida nos presenteou. A pergunta que incessantemente se insinua é: Porquê eu?
Um dia acordamos e logo a seguir dirigimo-nos para o emprego, uma vida patética sem grandes oscilações emocionais. À noite em busca de uma qualquer descarga de adrenalina que nos faça sentir vivos, nem que seja por cinco minutos, decidimos agarrar o único instrumento à nossa disposição naquele instante, que por acaso é um carro. Um desafio com um amigo. Perdidos na noite, embriagados por uma sensação tão poderosa, ignoramos qualquer aviso de que uma tragédia pode estar iminente. No meio de uma gargalhada eufórica, desviamos o olhar por um segundo em busca de partilhar uma emoção. Sem pensar, tudo são reflexos e comportamentos irracionais. Nada mais existe. Nesse preciso instante, uma família pára o seu carro. Sem lugar para estacionar, fica em segundo fila. Finalmente a casa nova que todos ambicionavam, os sonhos são tão grandiosos que ninguém pensa no perigo potencial. Mesmo assim, mandam as duas filhas para a relva brincar.
Um estranho sortilégio ganha forma. Começam a tirar as malas do carro. Um segundo, nem dá para se aperceberem do fim. Apenas sentem o esmagamento, a dor não tem tempo de chegar ao cérebro. Os olhos, como que por reflexo, viram-se na direcção das filhas.
As meninas brincavam distraidamente. Inicialmente, o ruído do carro a alta velocidade. A aproximação fê-las desviar o olhar em simultâneo, mesmo antes do embate. O que se seguiu foi apenas um segundo, mas aos olhos delas a cena prolongou-se. Cada ínfimo momento, cada pormenor do acontecimento foi visto individualmente, como se desenrolado em câmara lenta, com a cena a repetir-se vezes sem conta no seu cérebro. Cada ferida, cada pedaço de sangue, cada movimento desamparado, o último sopro.
No futuro e durante muitos anos, estas imagens inundarão os seus pesadelos. Estão irremediavelmente impregnadas nas suas células. As suas vidas serão terrivelmente condicionadas por um sofrimento impossível de se esquecer porque assistir a algo semelhante é como que se de repente toda a maldade da alma humana lhes fosse dada a conhecer em simultâneo.
Filipe Pinto.
publicado por armando ésse às 11:05

Novembro 20 2006

Um beco sem saída.
Daqueles em que ninguém se quer encontrar. Perante as vicissitudes que a vida nos coloca, por vezes somos confrontados com situações que parecem irreais e distantes, que nem sabemos como devemos ou mesmo se podemos reagir, porque parece não existir nada que possa abrir o caminho bloqueado por uma força desumana e intransponível.
Por inépcia ou incúria, um segundo é quanto basta para tudo se alterar. Nada é definitivo. Quantas vezes num filme, num livro, numa história que alguém conta ou a que se assiste com um distanciamento seguro, se conclui que seria impossível encontrar-se nesta ou naquela posição? Como quase sempre acontece, todos achamos que é inverosímil que um lapso de tempo insignificante possa condicionar toda uma existência e, por isso mesmo, vive-se deliberadamente na inconsciência consciente, porque não obriga à reflexão sobre os nossos actos, numa condição de permanente ilusão, que permite esquecer a responsabilidade, e atribuindo-se ás possíveis consequências, que podem revelar-se esmagadoras e irresolúveis, a mesma importância que ao obituário de um jornal.
Consideramos invariavelmente estar a salvo da ignomínia e do infortúnio. Quando o inesperado acontece, quase sempre reagimos a despropósito. Normalmente, esperamos que tudo se resolva e desapareça após uma noite de sono. Todo o nosso pensamento se centra no desejo de regresso à nossa normalidade, numa regressão no enredo com que a vida nos presenteou. A pergunta que incessantemente se insinua é: Porquê eu?
Um dia acordamos e logo a seguir dirigimo-nos para o emprego, uma vida patética sem grandes oscilações emocionais. À noite em busca de uma qualquer descarga de adrenalina que nos faça sentir vivos, nem que seja por cinco minutos, decidimos agarrar o único instrumento à nossa disposição naquele instante, que por acaso é um carro. Um desafio com um amigo. Perdidos na noite, embriagados por uma sensação tão poderosa, ignoramos qualquer aviso de que uma tragédia pode estar iminente. No meio de uma gargalhada eufórica, desviamos o olhar por um segundo em busca de partilhar uma emoção. Sem pensar, tudo são reflexos e comportamentos irracionais. Nada mais existe. Nesse preciso instante, uma família pára o seu carro. Sem lugar para estacionar, fica em segundo fila. Finalmente a casa nova que todos ambicionavam, os sonhos são tão grandiosos que ninguém pensa no perigo potencial. Mesmo assim, mandam as duas filhas para a relva brincar.
Um estranho sortilégio ganha forma. Começam a tirar as malas do carro. Um segundo, nem dá para se aperceberem do fim. Apenas sentem o esmagamento, a dor não tem tempo de chegar ao cérebro. Os olhos, como que por reflexo, viram-se na direcção das filhas.
As meninas brincavam distraidamente. Inicialmente, o ruído do carro a alta velocidade. A aproximação fê-las desviar o olhar em simultâneo, mesmo antes do embate. O que se seguiu foi apenas um segundo, mas aos olhos delas a cena prolongou-se. Cada ínfimo momento, cada pormenor do acontecimento foi visto individualmente, como se desenrolado em câmara lenta, com a cena a repetir-se vezes sem conta no seu cérebro. Cada ferida, cada pedaço de sangue, cada movimento desamparado, o último sopro.
No futuro e durante muitos anos, estas imagens inundarão os seus pesadelos. Estão irremediavelmente impregnadas nas suas células. As suas vidas serão terrivelmente condicionadas por um sofrimento impossível de se esquecer porque assistir a algo semelhante é como que se de repente toda a maldade da alma humana lhes fosse dada a conhecer em simultâneo.
Filipe Pinto.
publicado por armando ésse às 11:05

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