A FÁBRICA

Maio 19 2008

ELE OUVIU TOCAR OS SINOS DA MITROPOLIE e então lembrou-se de que era noite de Páscoa. E subitamente a chuva, aquela chuva sob a qual ele andava desde que saíra da estação de comboios e que ameaçava tornar-se torrencial, pareceu-lhe normal. Ele avançava num passo rápido, abrigado debaixo do seu guarda-chuva, com as costas curvadas e os olhos baixos, tentando não se molhar demasiado. Depois, mesmo sem se dar conta, começou a correr, com o guarda-chuva diante do peito, como um escudo. Teve, porém, de parar vinte metros mais à frente, no sinal vermelho. Enquanto esperava, saltitava nervoso, punha-se na ponta dos pés, mudava de lugar, observava consternado as poças que, a alguns passos dele, cobriam uma boa parte da avenida. O sinal vermelho apagou-se e, um segundo mais tarde, a explosão de luz branca, incandescente, agitava-o brutalmente, cegava-o. Como se um ciclone abrasador explodisse, de uma forma incompreensível, no cimo da sua cabeça e a aspirasse. “O relâmpago não caiu muito longe”, disse para si próprio piscando penosamente os olhos a fim de descolar as pálpebras. Ele não compreendia por que razão segurava com tanta força o cabo do guarda-chuva. A chuva redobrava de violência, assaltava-o por todos os lados e, no entanto, ele não sentia nada. Ouviu de novo os sinos da Mitropolie, e depois os de todas as outras igrejas, e, muito próximo, um carrilhão solitário e desolado. “Tive medo!”, pensou. Ele tremia. “É por causa da água”, disse para consigo alguns instantes mais tarde ao aperceber-se de que estava caído no chão, na valeta. “Estou a apanhar frio…”
Então ouviu aquela voz ofegante, uma voz de homem aterrorizado:
- Eu estava lá quando o relâmpago o atingiu. Não sei se ainda está vivo. Eu olhava precisamente para onde ele estava, na borda do passeio, e vi-o pegar fogo da cabeça aos pés, e começou tudo a arder ao mesmo tempo: o guarda-chuva, o chapéu, as roupas. Se não fosse a chuva, ele teria ardido como uma tocha… Não sei se ainda estará vivo – repetiu.
1ª Página do livro, uma segunda juventude, de Mircea Eliade, Bico de Pena, 1ª edição Março de 2008.
Nota: Uma Segunda Juventude, conta-nos a história de Dominic Matei, um respeitado académico, professor de linguística, filósofo e historiador com 70 anos. Apesar do seu sucesso académico, é um homem infeliz e amargurado com a vida, por ter perdido o seu grande amor, Laura, devido á investigação académica. Este desespero leva-o a encetar uma viagem a Bucareste com o intuito de se suicidar.
Contudo, uma dramática e incrível fatalidade, ocorre quando ele é, fulminado por um relâmpago e sobrevive miraculosamente
No hospital, enquanto recupera, os médicos assistem com incredibilidade ao rejuvenescimento físico do professor, acompanhado por um desenvolvimento intelectual inexplicável que chama a atenção de cientistas nazis, obrigando o professor a exilar-se. Em fuga, Matei reencontra Laura, o seu amor perdido, reencarnada como Veronica e luta para terminar a sua tese sobre as origens da linguagem humana. Mas quando a sua pesquisa ameaça a existência de Veronica, Matei é forçado a escolher entre o trabalho de uma vida ou o seu grande amor.
publicado por armando ésse às 15:12

De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



mais sobre mim
Maio 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

15
16

22



pesquisar
 
subscrever feeds
blogs SAPO