A FÁBRICA

Fevereiro 13 2006

Chamaram-lhe utópico, mestre, sábio, visionário, subversivo mas gostava de dizer de si mesmo, que era “um paradoxo”. “Considerando-me paradoxal, dirigem-me o maior elogio”. Agostinho da Silva. Cumpre-se hoje 100 anos do seu nascimento. “Teve vários filhos, assim em números redondos oito”, não tinha número de contribuinte nem bilhete de identidade. Espírito livre, não pactuava com nada excepto com a liberdade de pensamento.
George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto a 13 de Fevereiro de 1906, o emprego do pai, alfandegário, leva-o do Porto Natal para Barca d’Alba, onde viveu parte da sua infância. Aprendeu a ler aos 4 anos com a sua mãe, Georgina do Carmo Baptista Rodrigues da Silva. Em 1915 a sua família regressa ao Porto, onde Agostinho da Silva faz o exame da 4ª classe .

O pai matricula-o na Escola Industrial Mouzinho da Silveira, a fim de seguir uma carreira técnicoprofissional. O insucesso escolar e a falta aproveitamento aconselham uma mudança área. Em 1917 muda-se para o Liceu Rodrigues de Freitas.
Em 1919 com o esmagamento da “monarquia do Norte”, o pai, Francisco José Agostinho da Silva, é preso e demitido da função pública. Em 1924 Agostinho da Silva conclui o curso geral dos liceus com a classificação de 20 valores e ingressa na Faculdade de Letras do Porto, onde, em 1928, conclui a licenciatura em Filologia Clássica com 20 valores, defendendo uma tese sobre o poeta latino Catulo. Insurge-se contra a extinção da Faculdade de Letras do Porto e com um decreto que impõe a separação dos sexos nas escolas em todos os locais onde existisses mais de uma escola. Começa também a colaborar com a publicação Seara Nova.
Em 1929, com apenas 23 anos, conclui a sua tese de doutoramento: o Sentido Histórico das Civilizações Clássicas. Em 1931 uma bolsa de estudo leva-o até à Sorbonne e ao Collège de France. Dois anos mais tarde, regressa a Portugal e passa a leccionar no Liceu José Estêvão, em Aveiro.
Os textos sobre o desenvolvimento cultural e educativo do país, que divulga nas revistas «Labor» e «Seara Nova», inquietavam Salazar. Apenas dois anos depois de entrar para o ensino público, o professor é exonerado, por se recusar a assinar a Lei Cabral. Um documento onde tinha que jurar não pertencer a nenhuma sociedade secreta. Para além de Agostinho da Silva, só houve mais duas pessoas a dizer não: Fernando Pessoa e Norton de Matos.
Desempregado, Agostinho da Silva começa a dar aulas no ensino privado e explicações particulares. Mário Soares, mestre Lagoa Henriques, Manuel Vinhas, os irmãos Lima de Faria foram apenas alguns dos seus pupilos. O professor inicia também uma série de palestras públicas, de Norte a Sul do país. E começa a publicação dos seus famosos cadernos de iniciação cultural, sobre áreas tão diversas como religião ou arquitectura.
No total 120 cadernos foram escritos e editados por Agostinho da Silva, entre 1937 e 1944. Foram os cadernos «O Cristianismo», editado em 1943, e «Doutrina Cristã», 1944, que abriram um fogo-cruzado entre Agostinho da Silva, Igreja e Estado Novo. Mesmo exonerado, Agostinho da Silva incomodava. Depois de muitos duelos travados na imprensa com personalidades como o padre Raul Machado, da Universidade de Lisboa, ou o cardeal patriarca de Lisboa, Agostinho da Silva acaba preso na cadeia do Aljube. A sua biblioteca é confiscada e inventariada.
Cansado de Portugal, Agostinho da Silva parte para o Brasil, onde deu continuidade à sua «missão» de divulgador cultural. No outro lado do Atlântico, participou na fundação de universidades e centros de estudo, sobretudo fora dos centros urbanos: a Universidade Federal de Paraíba, a Federal de Santa Catarina, a Universidade de Brasília, o Centro de Estudos Africanos e Orientais da Universidade Federal da Baía. Um abraço entre o povo português, africano e brasileiro, foi um sonho que despertou em Agostinho desde novo.
É a ideia de uma Comunidade luso-afro-brasileira que partilha no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-brasileiros, em 1959, na universidade da Baía. No colóquio participa Marcelo Caetano (ainda como reitor e ex-ministro).
Contrariando todas as ideias em que assentava a intervenção o homem que viria a suceder a Salazar, Agostinho lança para a mesa aquilo que considera os verdadeiros problemas das colónias africanas.
«O futuro das ideias e das tradições em geral do mundo africano, a dignidade do indivíduo e a liberdade do homem, o impacto da civilização de carácter familiar sobre uma mentalidade fortemente tribal. E outro problema! Sabermos o que pensarão de nós no futuro milhões de africanos».
Como representante do Brasil, cuja cidadania adquiriu em 1958, esteve no Japão, em Macau e em Timor Leste. Viagens, por onde fundou por exemplo, o Instituto de Língua e Cultura Portuguesa, em Tóquio, o Centro de estudos Ruy Cinatti e o Centro de Estudos Brasileiros, ambos Dili. A chegada da ditadura ao Brasil, traz Agostinho de regresso a Portugal, em 1969. Por cá, passa pela direcção do Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade Técnica de Lisboa, e foi consultor do Instituto Cultura e Língua Portuguesa (ICALP). Inicia também um grande contacto com a Galiza e com a Catalunha.
Marcando uma posição de certa forma marginal em relação aos grupos da intelectualidade portuguesa, as suas intervenções, por vezes desconcertantes ou provocadoras, e a sua visão utópica e voluntarista tornaram-no uma figura amada do grande público. Da variada temática a que se dedicou, salienta-se o tema do sentido histórico de Portugal e do povo português e seu futuro.
Nos últimos anos de sua vida, Agostinho da Silva tornou-se extremamente popular, quando, no início dos anos noventa, começou a participar no programa “Conversas Vadias” da RTP2. A partir daí, o avozinho de Portugal conquistou milhões de portugueses, eu incluído, que se colavam ao ecrã para ouvir os seus pensamentos.
Morreu em Lisboa no Hospital de S. Francisco de Xavier num domingo de Páscoa, a 3 de Abril de 1994.
A nível literário publicou a obra de poesia Uns Poemas de Agostinho (1989) e os ensaios Sentido Histórico das Civilizações Clássicas (1929), A Religão Grega (1930), Glosas (1934), Conversações com Diotima (1944), Reflexão (1957), Um Fernando Pessoa (1959), As Aproximações (1960), Fantasia Portuguesa para Orquestra de História e de Futuro (1981) e Educação de Portugal (1989).
publicado por armando ésse às 19:46
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