A FÁBRICA

Março 01 2006

Vergílio Ferreira escritor, professor ensaísta, morreu, faz hoje precisamente, dez anos.
Nasceu “ a 28 de Janeiro de 1916, às três horas da tarde de uma sexta-feira, dizia a minha mãe. É a hora de Cristo, dizia a minha mulher”.
Natural de uma pequena aldeia de Gouveia, a aldeia de Melo, com a Serra por companheira. De criança lhe ficou por aquela paisagem a certeza de que seria como ela:”duro, solitário, obstinadamente hostil”.
Passou a maior parte da sua infância com as tias maternas, devido à emigração dos pais para os Estados Unidos em 1920, que esperavam mandá-lo chamar, mas assim não quis o destino.
Aos dez anos de idade ingressou no seminário do Fundão, que abandonou em 1932, tempo cuja má recordação, segundo o próprio, só se desfez após a escrita de Manhã Submersa (1954).
Em casa tinham ficado o livro de poemas e o violino que tanto gostava de tocar. Fora o padre da terra que o ensinara, mas nas paredes nuas do dormitório já não o conseguia ouvir.
Depois de deixar o seminário, acabou o curso liceal no Liceu da Guarda e entrou, em 1936, para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se formou em Filologia Clássica, em 1940, tinha 24 anos.
Aí nasceu o seu interesse pela Literatura, “praticava-a desde há muito tempo em versos infantis”, mas foi nesses tempos de juventude que decidiu recomeçar a escrever. Dedicou-se inicialmente à poesia, que, embora nunca tenha publicado, nunca o abandonou, como o prova o lirismo da sua prosa.
Quando termina o curso decide optar por uma carreira no ensino, para mostrar como pode ser bela a nossa língua e o modo de a expressar. Depois de ter concluído o estágio no Liceu D. João III, em Coimbra, leccionou, até 1981, em diversos liceus do país: Faro (1942); Bragança (1944); Évora (1945-59), que deixou profundas marcas em vários romances, nomeadamente em Aparição (1959); Lisboa, no liceu Luís de Camões (a partir de 1959).
Em 1939 escreveu o seu primeiro romance, O Caminho Fica Longe, que publicou quatro anos mais tarde.Inicialmente ligado ao neo-realismo, acabou por se desligar deste movimento literário, evoluindo a sua obra no sentido de uma temática existencialista e de um humanismo trágico. A sua obra é atravessada por uma constante reflexão sobre a condição humana, um constante registo das grandes interrogações do homem, da procura de sentido para as razões essenciais da vida e da morte.
Esta orientação foi seguida a partir do romance Mudança (1950), ficando definitivamente associada às obras seguintes do escritor.A par desta interrogação filosófica sobre o destino do homem, os textos de Vergílio Ferreira, nomeadamente os ensaios, traduzem também uma reflexão sobre os problemas da arte e da civilização europeias.
Durante esta fase da sua vida, identificou-se ideologicamente com uma forma de estar muito próxima do comunismo. A clandestinidade do Partido e a afronta a um Poder repressivo de que não gostava, quase o fez tornar-se militante. Por muito pouco o não foi. Considerado um dos grandes escritores portugueses do século XX, Vergílio Ferreira manteve-se à margem de polémicas estritamente políticas e de grupos literários, o que lhe valeu algumas críticas por parte de outros nomes do mundo cultural português.
Durante os 40 anos foi professor dividiu os seus dias entre a carreira docente e a escrita, sem a qual não podia viver:”escrever é tão importante como respirar. Entrarei no paraíso a escrever”.
Vergílio Ferreira publicou as obras de ficção, O Caminho Fica Longe (1943), Onde Tudo Foi Morrendo (1944), Vagão J (1946), Mudança (1950), A Face Sangrenta (1953), Manhã Submersa (1954, obra adaptada ao cinema por Lauro António), Aparição (1959, Prémio Camilo Castelo Branco), Cântico Final (1960), Estrela Polar (1962), Apelo da Noite (1963), Alegria Breve (1965, Prémio da Casa da Imprensa), Nítido Nulo (1971), Apenas Homens (1972), Rápida A Sombra (1975), Contos (1979), Para Sempre (1983), Uma Esplanada Sobre o Mar (1986), Até ao Fim (1987, Grande Prémio de Novela e Romance da Associação Portuguesa de Escritores), Em Nome da Terra (1990), Na Tua Face (1993, Grande Prémio de Novela e Romance da APE) e, já após a sua morte, Cartas a Sandra (1996). É também autor dos ensaios Terá Camões Lido Platão? (1942), Sobre o Humorismo de Eça de Queirós (1943), Do Mundo Original (1957), Carta ao Futuro (1958), Da Fenomenologia a Sartre (1962), André Malraux: Interrogação ao Destino (1963), Espaço do Invisível 1 (1965), Invocação ao Meu Corpo (1969), Espaço do Invisível 2 (1976), Espaço do Invisível 3 (1977), Um Escritor Apresenta-se (1981), Espaço do Invisível 4 (1987), Arte Tempo (1988, ”Em Nome da Terra” (1990), ”Na Tua Face” (1993), e “Cartas a Sandra” (1996).
Foram-lhe atribuídos, entre outros, o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1985, pelo conjunto da sua obra), o Prémio Femina (1990), o Prémio Europália (1991) e o Prémio Camões (1992).
Várias obras suas foram adaptadas ao cinema: além de Manhã Submersa, já mencionada, Cântico Final, e os contos O Encontro, A Estrela e Mãe Genoveva. Algumas das suas obras encontram-se traduzidas em várias línguas.
Romancista de fina-flor da Literatura portuguesa, Vergílio Ferreira escreveu também um diário intitulado “Conta-Corrente”, Conta-Corrente I (1980), Conta-Corrente II ( 1981), Conta-Corrente III (1983), Conta-Corrente IV (1986), Conta-Corrente V (1987), Pensar (1992), Conta-Corrente Nova Série 1 (1993), Conta-Corrente Nova Série 2 (1993), Conta-Corrente Nova Série 3 (1994), Conta-Corrente Nova Série 4 (1994), onde se define, mas não na totalidade pois “a biografia de um autor é a sua bibliografia” e por isso nada melhor que ler os seus livros para descobrir a sua verdadeira dimensão.
publicado por armando ésse às 14:46
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