A FÁBRICA

Novembro 21 2007

O “pai” das independências da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Amílcar Cabral, foi “um fazedor de utopias”, que enfrentou muitas contradições pessoais e no movimento de libertação que liderou, acabando por morrer precisamente por causa delas.
A convicção é do antropólogo e antigo jornalista angolano António Tomás, ao comentar à Agência Lusa a figura de Amílcar Cabral, dias antes de lançar, em Lisboa, a biografia que escreveu sobre o nacionalista cabo-verdiano nascido na Guiné-Bissau, intitulada “O Fazedor de Utopias”. Recusando o “politicamente correcto” – “por uma questão de rigor e de factualidade” –, o autor do livro, a lançar hoje na Casa Fernando Pessoa, apontou, “entre muitas”, quatro contradições na vida e obra de Amílcar Cabral, geralmente caracterizado como um dos idealistas mais importantes da história recente do continente africano.
“Não se pode falar em erros, mas em contradições. Há muitas mas a mais importante talvez seja a relacionada com a sua própria identidade, pois formou-se profissional e culturalmente em Portugal e pensava como português”, sublinhou.
No entender de António Tomás, a ideia de Cabral, assassinado em Janeiro de 1973 (um crime que nunca foi totalmente esclarecido), oito meses antes da declaração unilateral da independência da Guiné-Bissau, a ideia da “reafricanização dos espíritos” esbarrou na “verdadeira cultura africana”. “Da teoria à prática foi muito duro, pois sempre pensou que a mística africana fora apagada pela colonização, o que não se verificou”, sustentou o antropólogo, dando como exemplos os casos, ainda hoje actuais, da “excisão feminina” e da “dominação masculina”.
A lógica da “guerra anti-colonial”, por si só, é, segundo os valores defendidos por Cabral, outra das contradições importantes entre a teoria e a prática de um homem que “tentou um meio termo entre o ideal comunista de Mao Tsé Tung - o poder da classe camponesa - e de Ernesto Che Guevara - o poder da revolução de quadros”.
“Errou, aí sim, ao tentar expandir a guerra para Cabo Verde, embora não o tenha conseguido, apesar do sonho irrealista de defender a unidade entre guineenses e cabo-verdianos”, sustentou António Tomás, natural de Luanda, onde nasceu a 11 de Abril de 1973.
Outra “contradição” é de “cariz mais pessoal”, apontou, dando como exemplo, “um humanista que acabou por defender a guerra (1963/74) como meio para alcançar a independência”, em que foi “obrigado a tomar medidas drásticas e contrárias” aos seus próprios ideais.
“Amílcar Cabral tinha um lado ingénuo muito grande. Entregou-se generosamente à causa da independência, na qual depositava uma grande esperança. Acreditou até ao fim, mesmo quando começaram algumas traições dentro do próprio PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde)”, defende o autor do livro que, apesar de tudo, o considera como “um grande pensador e nacionalista”.
Os elogios a Amílcar Cabral feitos por António Tomás, actual doutorando em Antropologia pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, onde reside desde 2004, sobem de tom quando fala sobre o seu lado prático. “Era um homem muito prático, embora agarrado à teoria. Tentou resolver as contradições mas não conseguiu. A guerra não se faz com um homem só. Tentou tudo, mas era o único que pensava e esqueceu-se do resto: que há outros que também pensam”, sublinhou o autor, licenciado em Comunicação Social, pela Universidade Católica de Lisboa e colaborador do Jornal de Angola e Angolense.
“Tentou sobretudo conciliar as revoluções campesinas (de Mao Tsé Tung) com as de quadros (de Che Guevara). Foi o primeiro a colocar grande parte do esforço de guerra ao serviço da organização das zonas libertadas e, paralelamente, a travar o conflito com Portugal nas frentes interna e diplomática”, advogou o autor. No primeiro caso, promoveu a educação, saúde e os armazéns do povo nas zonas libertadas e, no segundo, privilegiou os contactos internacionais, sustentou António Tomás, deixando no ar a questão sobre se havia mesmo a necessidade de se partir para o conflito com o regime colonial de Lisboa.
Quanto à morte de Amílcar Cabral, abatido em Conacri a 20 de Janeiro de 1973, afirmou que as dúvidas sobre os mandantes e executantes “são muitas”, mas defendeu que o assassinio foi “consequência” de não ter conseguido resolver as contradições do movimento de libertação que liderou durante mais de década e meia.
“A história do homem que liderou a independência das colónias portuguesas em África”, tal como o autor definiu no livro, é considerada pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa uma obra importante.
“Tenta devolver ao grande público essa figura maior de África. Fá-lo numa linguagem jornalística, apoiada numa investigação rigorosa. O facto de o seu autor ser angolano não me parece irrelevante. Trata-se de dar a ver um pensador e combatente africano numa perspectiva africana. Algo que teria certamente agradado a Amílcar Cabral”, sustenta Agualusa num pequeno texto publicado no livro. Lusa.
publicado por armando ésse às 13:22
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