A FÁBRICA

Março 17 2006

Vede, senhor Niceta – disse Baudolino-, quando eu não era presa das tentações deste mundo, dedicava noites a imaginar outros mundos. Um tanto com ajuda do vinho e outro tanto com a do mel verde. Não há nada melhor que imaginar outros mundos – disse – para esquecer como é doloroso este em que vivemos. Pelo menos era o que eu pensava na altura. Ainda não tinha percebido que a imaginar outros mundos se acaba por mudar até este.
Umberto Eco, Baudolino.


Certamente Umberto Eco não estaria a pensar na Engenharia e nos Engenheiros quando escreveu esta frase. No entanto, a sua universalidade bem patente é transversal a todas as áreas de actividade da Humanidade enquanto espécie integrante deste fantástico acontecimento cósmico que é a vida.
A alusão ao facto de que a imaginação é o motor metafísico do mundo revela uma das mais fundamentais características do ser humano. A sua capacidade para imaginar é inigualável em importância, qualquer que seja a comparação que se estabeleça com outras capacidades que todos possuímos. A esperança num futuro melhor reside nesta potencialidade, inerente à existência, e muitas vezes desvalorizada.
É precisamente esta interpretação, refira-se pessoal, que me levou a reflectir sobre o papel da Engenharia, enquanto arte de criar e, consequentemente, dos engenheiros, enquanto criadores, independentemente da sua área de especialização.
Quem ainda não passou horas a tentar conceber (imaginar) uma solução para um problema, independentemente da sua dimensão e importância? É neste ponto, na minha óptica, que se estabelece a relação. Cada solução encontrada mais não é do que uma forma de “imaginar outros mundos … para esquecer como é doloroso este em que vivemos”.
Durante a minha formação académica, e subjacente à mesma, esteve sempre uma vontade de mudar o mundo. Assim, a profundidade deste pensamento fez-me recordar e dar substância a algumas das motivações que me levaram a enveredar por esta carreira. Na verdade, considero que a Engenharia para além da componente eminentemente pura das ciências exactas tem, também, uma ligação estreita com as ciências sociais. Bem vistas as coisas, a própria democracia, na sua implantação e consolidação como melhor modelo coexistência social tem, na sua génese, um contributo incontornável da engenharia e dos engenheiros.
Carl Sagan diz no seu livro Um Mundo Infestado de Demónios que “os valores da ciência e os da democracia são coincidentes e, em muitos casos, impossíveis de distinguir” ao que eu acrescento que esta aproximação se deve, em grande parte, a uma ramo da ciência, uma espécie de braço executor dos princípios científicos, responsável pela implantação dos valores da democracia através da evolução tecnológica.
Em todos os ramos da ciência e em todos as vertentes da sociedade que vão desde a concepção dos sistemas de saneamento básico, sistemas de protecção do meio ambiente, automóveis, computadores, hardware e software, sistemas de diagnósticos médico, armas, aviação até ao desenvolvimento dos mais elaborados e complexos sistemas das viagens espaciais, as equipas multidisciplinares que as executam e põe ao serviço da humanidade, integram necessariamente engenheiros na sua concepção.
Não é necessário uma dissertação demasiado elaborada para se compreender este raciocínio. Atentemos pois aos valores traduzidos pelo lema da revolução francesa e ás relações que existem entre todos. Égalité, fraternité et liberté.
A engenharia tornou possível a disseminação de meios para melhorar a qualidade de vida das pessoas, como resultado da criação de infra-estruturas que garantissem as suas necessidades básicas, por sucessiva melhoria das técnicas de execução e dos respectivos materiais. O acesso a bens, à cultura, à educação, à saúde foram sucessivamente melhorando e sendo massificados, ao ponto de em algumas partes do globo (não podemos também ser ingénuos) qualquer um ter acesso a estes serviços fundamentais independentemente da sua condição social.
A fraternidade significa harmonia entre os homens, que só é possível se estes coabitarem numa sociedade igualitária que mais não é do que o resultado das conquistas cientificas referidas anteriormente. Esta evidente evolução é uma consequência da incessante procura da Humanidade de apurar a percepção da realidade com os obstáculos que lhe são inerentes e, através do intelecto, criar sistemas cada vez mais sofisticados e engenhosos para os ultrapassar. Só garantidas todas estas condições se pode falar definitivamente em liberdade de facto.
A expansão da cultura, a aproximação do conhecimento entre os povos e o acesso a este foram os factores fundamentais de desenvolvimento da humanidade. Na sua origem estiveram em primeiro lugar a invenção da escrita, que por si só não era suficiente, e em segundo lugar a criação do processo de impressão com caracteres móveis - "a tipografia" por Gutenberg. Se atentarmos à definição apresentada, a engenharia está intimamente relacionada com o boom cultural que se seguiu a esta invenção, que mais não é do que uma “utilidade”. E que utilidade.
A dimensão humana surgida deste acontecimento ganhou contornos extraordinários com o acesso à cultura de um cada vez maior número de pessoas, o que motiva e promove a evolução da inteligência colectiva e, principalmente, de uma consciência social e humanitária. Foi nesta fase que se lançaram as sementes de uma sociedade verdadeiramente universal que, embora nos dias de hoje ainda não o seja inteiramente, vai ganhando consistência e, um dia será uma realidade no planeta Terra e não só.
Tudo isto permitiu ao ser humano desenvolver-se a um ritmo alucinante, sem paralelo na sua história e num curto período de tempo, chegando-se então ao momento ao extremo em que é virtualmente impossível acompanhar a evolução das técnicas que surgem quase diariamente. O engenho humano em movimento. É aqui, como já referi anteriormente, que reside a esperança da espécie humana, na sua enorme curiosidade pelo conhecimento, na sua infinita capacidade de imaginar e sonhar que, conjugadas com a perseverança, nos levam a imaginar outros mundos [e] se acaba por mudar até este.
No cerne de tudo, a Engenharia, a criar condições físicas para que o sonho se mantenha vivo, para que o desenvolvimento seja efectivamente sustentável, para que a espécie humana ultrapasse esta fase a que já chamaram de adolescência tecnológica sem se autodestruir, de maneira a que algum dia, na realidade, a bordo da nave espacial Enterprise, como Jean Luc Picard ou James T. Kirk, alguém possa dizer: Space: the final frontier!
Filipe Pinto.
*O título foi dado por mim.
publicado por armando ésse às 14:04

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