A FÁBRICA

Maio 07 2009

Caro amigo, nas horas poeirentas e intemporais da cidade, agora que as ruas jazem negras e exalam nuvens de vapor na esteira dos camiões-cisterna e agora que os bêbedos e os sem-abrigo desaguaram nas vielas e nos terrenos baldios, abrigados junto aos muros, e os gatos vagueiam nas soturnas cercanias, esguios e de espáduas altaneiras, agora nestas galerias empedradas ou de tijolos enegrecidos de fuligem onde as sombras dos fios eléctricos formam uma harpa espectral nas portas das caves, ninguém caminhará senão tu.
Velhos muros de pedra que resistiram, indemnes, às intempéries, com ossos fossilizados ocultos nas suas estrias, escaravelhos calcários alojados nas pregas desta planura, outrora leito de um mar interior. Árvores magras e escuras que se avistam através da estacaria metálica, mais, além, onde os mortos habitam uma pequena metrópole só sua. Uma curiosa arquitectura de mármore, estelas e obeliscos e cruzes e pequenas lápides gastas pela chuva em cuja face os nomes se esbatem com o passar dos anos. A terra repleta de amostras da arte do fabricante de ataúdes, ossos reduzidos a pó e seda apodrecida, as vestes dos mortos manchados de carne putrefacta. Lá adiante, à luz azul dos candeeiros, os carris do eléctrico perdem-se nas trevas, curvos como esporões de galo ao lusco-fusco de ouropel. O aço exala o calor do dia, podes senti-lo através das solas dos sapatos. Deixa para trás as paredes de chapa ondulada destes armazéns e percorre as ruelas arenosas onde carros esventrados repousam, sorumbáticos, sobre pedestais de tijolos de cimento. Atravessa maciços labirínticos de sumagre e erva-tintureira e madressilva ressequida que dão para os taludes barrentos do caminho-de-ferro, cobertos de sulcos e entalhes. Trepadeiras cinzentas enroscadas para a esquerda neste hemisfério setentrional, torcidas pela mesma força que molda a concha do burrié. Ervas daninhas que brotaram da cinza, entre tijolos. Uma escavadora a vapor de pá erguida, recortada sobre o céu nocturno num abandono solitário. Atravessa aqui. Sobre carris bifurcados e eclises onde as automotoras roncam como leões na escuridão do parque ferroviário. Penetra numa cidade mais sombria, deixa para trás candeeiros de lâmpadas partidas à pedrada, choupanas fumegantes de paredes oblíquas e cães de porcelana e pneus pintados onde crescem flores sujas. Percorre pavimentos lacerados pela devastação, o lento cataclismo do abandono, os fios eléctricos que pendem, barrigudos e envoltos em cordéis de papagaios-de-papel, de poste em poste, por entre as constelações, adornados com toscas gravatas feitas de garrafas atadas aos pares pelos gargalos ou brinquedos de petizes. O acampamento dos danados. Terrenos, quiçá, onde leprosos de lábios gotejantes deambulam sem sineta.
Primeira página do livro “Suttree” de Cormac McCarthy, traduzido por Paulo Faria e editado pela Relógio D’Água Editores, Fevereiro de 2009.
Quarto romance publicado por McCarthy (originalmente em 1979), é o seu livro mais extenso e aquele que mais tempo de escrita lhe consumiu: pelo menos vinte anos (período durante o qual escreveu também e publicou outros três romances). Será igualmente o mais "autobiográfico", tomando por cenário a provinciana "metrópole" de Knoxville (onde McCarthy cresceu e passou parte da sua vida de adulto) e arredores. Não há em "Suttree" uma progressão dramática que lisonjeie a atenção do leitor, mas antes uma sucessão (não linear cronologicamente, nem evidente do ponto de vista da enunciação) de episódios, de quadros, da vida do protagonista entre 1950 e 1955. Cornelius Suttree é alguém que abandonou tudo - o privilegiado estauto social familiar, a mulher e o filho pequeno (que depois morre) -para viver solitariamente ao sabor da corrente (literal e metaforicamente). Não sabemos por que o fez, que idade terá, o que procura (se é que procura algo); sabemos que se abriga numa miserável casa flutuante no rio, que se dedica preguiçosa e altivamente à pesca à linha para arranjar os poucos tostões de que necessita para sobreviver, sabemos que esteve preso (e é quando encontra outra entranhável personagem deste livro, Harrogate, um adolescente fornicador de melancias), sabemos que vagueia melancolicamente sem destino nem premeditação, que confraterniza com pobres e marginais, humilhados e ofendidos, rameiras e travestis (mas não com banqueiros e corretores), com os quais é alheiamente generoso e bom. São anos "na companhia de larápios, desvalidos, celerados, párias, poltrões, tratantes, rústicos, sandeus, homicidas, tavolageiros, alcouceiras, marafonas, rascoeiras, salteadores, beberrões, bebedanas, borrachos e arquiborrachos, labrostes, lúbricos, vagabundos, bargantes e tantos outros debochados, vá lá saber-se qual deles mais perverso" (continuo sem saber se a por vezes estonteante riqueza lexical de McCarthy tem origem no seu gosto afiado pela descrição minuciosa e exacta, seja da fauna ou da flora, seja de ofícios ou artefactos, ou se é o inverso).( Ípsilon).
publicado por armando ésse às 15:16

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