A FÁBRICA

Maio 20 2008

Chegou o momento em que já não lhes bastava o sofrimento dos outros; precisavam de assistir ao espectáculo.
Para se ser preso, não era necessária nenhuma qualificação. As rusgas produziam-se por toda a parte: levavam toda a gente, sem possibilidades de derrogação. O único critério era tratar-se de um ser humano.
Naquela manhã, Pannonique fora passear ao Jardim dês Plantes. Chegaram os organizadores e passaram o parque a pente fino. A jovem deu consigo num camião.
Foi antes da primeira emissão: as pessoas ainda não sabiam o que ia acontecer-lhes. Indignavam-se. Na estação de caminhos-de-ferro, comprimiram-nas dentro de um vagão para animais. Pannonique viu que estavam a ser filmados: iam escoltados por várias câmaras que não perdiam pitada da angústia dos prisioneiros.
A rapariga compreendeu então que não lhe serviria de nada revoltar-se, mas seria telegénico. Permaneceu, portanto, impassível durante a longa viagem. À sua volta, crianças choravam, adultos vociferavam, velhos sufocavam.
Desembarcaram-nos num campo semelhante aos de deportação nazi, afinal não muito antigos, com uma notória diferença: havia câmaras de vigilância instaladas por toda a parte.

Não era necessária nenhuma qualificação para ser organizador. Os chefes mandavam desfilar os candidatos e seleccionavam os que apresentavam “os semblantes mais significativos”. Em seguida, tinham de responder a questionários sobre comportamento.
Zdena, que nunca na vida ficara aprovada num exame, foi aceite. Daí nasceu um grande orgulho. Doravante, poderia dizer que trabalhava na televisão. Aos vinte anos, sem estudos, um primeiro emprego: os seus familiares iam finalmente deixar de escarnecer dela.
Explicaram-lhe os princípios da emissão. Os responsáveis perguntaram-lhe se a chocavam:
-Não. É intenso – respondeu ela.
Pensativo, o caça-talentos disse-lhe que era exactamente assim.
-É o que as pessoas querem - acrescentou ele. – Acabou-se o estilo amaneirado, afectado.
A rapariga submeteu-se a outros testes nos quais provou ser capaz de agredir desconhecidos, gritar insultos gratuitos, impor a autoridade, não se deixar impressionar por lamúrias.
- O que conta é o respeito do público – declarou um responsável.
- Nenhum espectador merece o nosso desprezo.
Zdena concordou.
Foi-lhe atribuído o posto de kapo.
- Chamar-lhe-ão kapo Zdena – disseram-lhe.
Agradou-lhe o termo militar.
- Tens jeito, kapo Zdena – reconheceu ela perante o seu reflexo no espelho.
Já nem se apercebia de que estava sempre a ser filmada.

Os jornais já só falavam deste assunto. Os editoriais inflamaram-se, as boas consciências indignaram-se.
O público, esse, pediu que lhe dessem mais do mesmo, logo após a primeira emissão. O programa, que se chamava sobriamente Concentração, atingiu recordes de audiência. Nunca se vira o horror de forma tão directa.
1ª Página (um pouco mais) do livro Ácido Sulfúrico, de Amélie Nothomb, Edições ASA, 1ª edição Maio de 2007.
Nota: O livro de Nothomb parte da criação de um novo reality show, Concentração, o qual reproduz as condições que se vivia nos campos de concentração nazistas, onde impera a violência gratuita, os maus-tratos, a fome, os trabalhos forçados e a desumanizaço dos concorrentes, excepto, que por todo o lado estão instaladas câmaras de televisão, que transmitem todas as cenas, para um público interessado na violência kafkiana.
Os concorrentes forçados deste reality show são encontrados nas ruas de Paris e daí conduzidos em vagões para animais para o estúdio que, reproduz as condições de campo de concentração. A ordem no campo de concentração é mantida por kapos, escolhidos entre os mais imbecis e ineptos da sociedade.
O programa alcança instantaneamente um sucesso sem precedentes na televisão e atinge o seu clímax semanalmente, quando os telespectadores usam o televoto, para decidirem, qual dos concorrentes deve ser executado sumariamente.
A escritora belga Amélie Nothomb criou neste livro uma sátira violenta às degradantes tendências televisivas actuais, especialmente ao telelixo dos reality shows e também, um ataque a uma sociedade, em que o sofrimento extremo é reconvertido num espectáculo de sucesso. A nossa sociedade.
publicado por armando ésse às 10:00

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