A FÁBRICA

Fevereiro 24 2006

A determinada altura pensei em escrever algo sobre as caricaturas do profeta Maomé. Reflecti sobre o assunto e o que escrevi pareceu-me insuficiente para tentar enquadrar os acontecimentos à luz da minha avaliação da condição humana nos países muçulmanos. Já nem sei onde coloquei o texto. No entanto, os recentes acontecimentos no Iraque e a iminência de uma guerra civil revelam que os problemas são mais complexos e de difícil, se não mesmo impossível, resolução.
É que, sejamos sérios, os protestos não são apenas contra as caricaturas em si, ou seja apenas de cariz religioso, mas principalmente um reflexo do permanente ressentimento que deriva da incomparável qualidade de vida no ocidente.
O incitamento ao ódio religioso e a existência de uma enorme insatisfação perante as limitações de qualidade de vida destas sociedades são duas faces da mesma moeda. Os conflitos entre xiitas e sunitas são apenas e só uma consequência da conjugação destes elementos, sendo uma forma de extravasar a raiva e o ódio que resulta de um sentimento de impotência permanente perante os poderes vigentes. É uma espécie de libertação de energias acumuladas sob os incontroláveis comportamentos das multidões que potenciam os comportamentos individuais.
Os incompreensíveis discursos de exaltação religiosos a incendiar as massas são artifícios utilizados por alguns utilizando, precisamente, estes poderosos sentimentos latentes. Há coisas que a história ensina aos poderosos, não é necessário nenhum Maquiavel para demonstrar a um príncipe como actuar para manter e reforçar o poder (o poder corrompe – não é verdade?). As elites dirigentes desta zona, de forma a manterem o seus próprio status social, agem de forma a manipularem as pessoas, demonizando o ocidente, numa espécie de criação de um inimigo comum, que definem permanentemente como sendo um retrocesso moral, aproveitando alguma ignorância generalizada e o medo.
Nem de propósito, ontem aprendi uma palavra nova, plutocracia (influência dos ricos e poderosos nos governos), cujo significado, em conjugação com a oligarquia, se aplica e explica o fenómeno das manifestações muçulmanas. A problemática das caricaturas poderá, por tudo isto, revelar-se substancialmente mais grave que o que neste momento podemos pensar. Ao aprofundar o fosso civilizacional numa matriz já de si complicada de gerir, atendendo ao conflito Israel/Palestina, a emergência dos partidos radicais e as diferenças entre classes sociais que, em lugar de se esbaterem estão-se a agravar, poderá este ser o início de um conflito de grandes proporções.
A alteração deste estado de coisas tem que passar por aqui. Senão vejamos.
As diferenças sociais, que nestes países são mais que evidentes, subsistindo uma espécie de sociedade medieval feudal, radical com acesso à tecnologia do século XXI e a toda a sua capacidade destrutiva. Conjugada com a velocidade com que as suas acções são divulgadas em exaltação heróica, gerando o medo nos agredidos e o fervor religioso nos agressores, condiciona de sobremaneira seja quem for que nasça neste ambiente e não lhes seja apresentada a diferença.
Sem falar por desconhecimento, eu estive na Dinamarca e, apesar de ser Europeu e o nosso país apresentar um razoável nível de vida se comparamos com a maioria (salvo erro estamos no lugar 23 dos índices de desenvolvimento), apercebi-me claramente de que aquilo é outro patamar de desenvolvimento social. Mais importante, é um patamar que todos deveriam almejar atingir e não podemos permitir que se faça uma demonização deste modelo social.
Não existe nenhum país muçulmano que, na globalidade, se possa sequer comparar aos índices de desenvolvimento da Dinamarca. Este é um país que apenas se limita a trabalhar continuamente em prol da melhoria do nível de vida dos seus cidadãos e não em castrar o pensamento livre através da imposição de uma conduta pela interpretação que alguns fazem das palavras dos profetas.
É preciso não esquecer que a Cristandade já sofreu dos mesmos problemas. Em determinada fase da história era impossível distinguir religião de Estado, tais eram as estreitas relações entre um e outro. Só que nessa altura as pessoas forçaram a separação entre estas duas componentes da vida e os países evoluíram.
No entanto, a dependência do Ocidente dos recursos petrolíferos da região e o conluio resultante dos interesses instalados, da sede de lucro que rege os destinos da humanidade nesta fase do desenvolvimento da Espécie, não augura o aparecimento de grandes progressos para esta situação.
Finalmente as declarações do nosso ministro dos negócios estrangeiros.Absolutamente descabidas e a resposta do embaixador iraniano são, no mínimo, de uma gritante ausência de noção do valor da vida humana.
A suas palavras, duvidando dos seis milhões de mortos, utilizando a palavra incinerar perpetrada sobre seres humanos, como que em certa medida desculpabilizando aqueles inqualificáveis actos dos Nazis, resumindo a ignomínia e a discussão do holocausto ao número de mortos, diz tudo acerca de indivíduos que estão na iminência de possuir poder nuclear. Não me parece que hesitem em situações de crise em utilizar as suas armas. Estas pessoas não inspiram nenhuma confiança.

Filipe Pinto.

Nota:Dou as boas-vindas ao meu amigo Filipe Pinto, que escreverá semanalmente, à sexta-feira, na Fábrica.Estamos a ultimar uns pormenores para ser ele a postar directamente.

publicado por armando ésse às 01:54

De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



mais sobre mim
Fevereiro 2006
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

16
17
18

19
22
23

26
28


pesquisar
 
subscrever feeds
blogs SAPO