A FÁBRICA

Novembro 25 2005

Ao longo de todo o Verão e começo do Outono de 1975, confrontaram-se duas concepções de modelo de sociedade para Portugal. Uma, de matriz europeia, sustentada numa democracia representativa; e uma segunda, importada da União Soviética, para a “sovietização” do país.
Os militares, no poder desde o 25 de Abril de 1974, dividiram-se entre os dois apelos e tornaram-se nos principais protagonistas de uma disputa que terminou com a vitória das forças moderadas, precisamente no dia 25 de Novembro de 1975, quando uma revolta iniciada por tropas pára-quedistas, que contariam, numa segunda fase, com o apoio de unidades do Exército e da Armada, foi sustida e derrotada.

O detonador involuntário do 25 de Novembro foi Vasco Lourenço. No dia 20 de Novembro tinha sido nomeado pelo Conselho da Revolução para comandante da Região Militar de Lisboa. A sua nomeação foi prontamente contestada pelos sectores político-militares influenciados quer pelo PCP quer pela extrema-esquerda. Posto em causa, o então capitão, exigiu ser reconfirmado, o que sucedeu na reunião de 24 de Novembro do Conselho da Revolução. Sem demora e sem formalidades, Vasco Lourenço tomou posse do cargo na manhã de 25 e instalou-se no Palácio de Belém.
Nesta altura, durante a madrugada, já os pára-quedistas da Base Escola de Tancos, tinham ocupado o Comando da Região Aérea de Monsanto e seis bases aéreas, na sequência de uma decisão do General Morais da Silva, CEMFA, que dias antes tinha mandado passar à disponibilidade cerca de 1000 pára-quedistas de Tancos. Detêm o general Pinho Freire e exigem a demissão de Morais da Silva.
O golpe estava na rua, logo de seguida o contra-golpe estaria em marcha.
Este acto é considerado pelos militares ligados ao Grupo dos Nove, (grupo militar liderado por Ramalho Eanes e composto por Garcia dos Santos, Gabriel Teixeira, Rocha Vieira, Loureiro dos Santos, Aurélio Trindade, Tomé Pinto, José Pimentel e José Manuel Barroco), como o indício de um golpe de estado vindo de sectores mais radicais, da esquerda.

Esses militares apoiados pelos partidos políticos moderados PS e PPD, depois do Presidente da República, General Francisco da Costa Gomes ter obtido por parte do PCP a confirmação de que não convocaria os seus militantes e apoiantes para qualquer acção de rua, decidem então intervir militarmente para controlar inequivocamente o destino político do país, recorrendo às poucas forças verdadeiramente operacionais de que o país dispunha, ou seja, o Regimento de Comandos da Amadora, comandado pelo então coronel Jaime Neves; a Força Aérea, que deslocou para a Base de Cortegaça os principais meios, a Região Militar do Norte, comandada pelo então brigadeiro Pires Veloso, que enviou para Lisboa três companhias.
Os focos de resistência foram sendo neutralizados ao longo do dia sem grande oposição dos revoltosos, verificando-se um confronto armado apenas na calçada de acesso ao Regimento de Polícia Militar, em Lisboa, em que morreram dois militares do Regimento de Comandos - o tenente José Coimbra e o aspirante José Ascenso. Testemunhos da época garantem que foram baleados pelas costas por civis armados. Na troca de tiros, foi também atingido mortalmente o furriel Joaquim Pires.
Numa mensagem ao país, feita pelo telefone e transmitida através dos estúdios do Porto da Emissora Nacional, cerca das 22 horas, o presidente da República decretou estado de sítio parcial na região de Lisboa, uma medida que restringia o direito de liberdade de reunião. Os bancos encerraram e os jornais de Lisboa não se publicaram.

No resto do país, a situação foi sempre menos tensa.A emissão da RTP passou igualmente a ser assegurada do Porto, depois de uma tentativa de um dos revoltosos em falar ao país, a pedir apoio para os revoltosos.
O clima de radicalização inerente ao PREC , chegou ao fim com o 25 de Novembro de 1975, o dia em que o país esteve a um pequeno passo da guerra civil. A consolidação da democracia chegaria a seguir, culminada com a assinatura em 1985, do tratado de adesão à CEE, onde a opção europeísta, finalmente se impôs.
publicado por armando ésse às 11:02

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