A FÁBRICA

Março 25 2006
Estive doente. Não vou escrever sobre nenhum assunto em particular, mas a minha convalescença provocou uma ligeira crise existencial que me levou a reflectir sobre a minha vida. Vou aproveitar para, neste espaço, partilhar alguns dos pensamentos que me assolaram o espírito. Estes devaneios incidiram sobre a nossa coexistência neste magnífico Planeta e sobre as nossas obrigações enquanto seres humanos.
A abordagem a estas questões não poderia deixar de começar pelo enquadramento do fenómeno Vida no contexto cósmico e, necessariamente, pelas condições ocorridas que permitiram o aparecimento de um ser com capacidade intelectual para raciocinar e, com isso, consciencializar-se da sua existência.
Num dos capítulos do livro “Breve História de Quase Tudo”, Bill Bryson, retrata a ténue linha que proporcionou o surgimento de Vida. Utilizarei as palavras do autor, mantendo a sua a inigualável eloquência, que faz uma descrição bastante elucidativa desta temática. Seguem-se então algumas transcrições, que merecem ser repetidas até à exaustão, para que os mais distraídos interiorizem estas noções, funcionando estas como catalizadores e impulsionem movimentos que tragam as mudanças necessárias:
“… a Terra não é o lugar mais fácil para se ser um organismo, mesmo sendo o único possível. Uma pequena porção da superfície do planeta é suficientemente seca para podermos lá viver, há uma quantidade espantosamente grande que é, ou quente, ou fria, ou seca ou íngreme ou alta de mais para nos servir. Em parte, há que admitir a culpa é nossa. Em termos de adaptabilidade, os seres humanos não são grande coisa.”
Diz ainda:
“… Vários observadores conseguiram identificar cerca de duas dúzias de períodos particularmente propícios à vida na Terra, …, vamos resumi-los aos principais. São Eles:
Localização excelente. Nós estamos, a um ponto quase assustador, à distância certa do tipo certo de estrela, ou seja, suficientemente grande para irradiar grandes quantidades de energia, mas não tão grande que se esgote rapidamente. ... Se o nosso Sol fosse dez vezes maior, ter-se-ia esgotado ao fim de dez milhões de anos em vez que de Biliões e não estaríamos aqui agora. Também tivemos sorte com a órbita em que estamos. Se estivéssemos demasiado perto, tudo na terra se teria evaporado. Se estivéssemos mais longe, ficaria tudo gelado”.
O Planeta do tipo certo. … O facto de viver num Planeta com um interior em fusão, mas é praticamente certo que se não fosse este magma movediço por baixo de nós, não estávamos agora aqui. Para além de tudo mais, o nosso dinâmico interior criou as fugas de gases que ajudaram a construir a atmosfera e nos fornece o campo magnético que nos protege das radiações cósmicas. Também nos proporciona placas tectónicas que renovam e enrugam constantemente a superfície. Se a Terra fosse completamente lisa, estaria uniformemente coberta de água com uma altura de quatro quilómetros.
Somos um Planeta gémeo. Poucos de nós pensam na Lua como um Planeta, mas é isso mesmo que ela é. … Sem a influência estabilizadora da Lua, a Terra cambalearia como uma pião quase sem parar, sabe Deus que consequências para o clima e para o estado atmosférico do tempo. A sólida influência gravitacional da Lua faz com que a Terra rode sobre si própria à velocidade e no ângulo certos para fornecer o tipo de estabilidade necessária a um desenvolvimento duradouro e eficaz de vida.
Cronologia. O universo é um lugar extremamente inconstante e cheio de actividade, e a nossa existência no meio de tudo isto é um milagre. … Não temos bem a certeza, porque não temos mais nada com que possamos comparar a nossa existência, mas parece evidente que, se nos quisermos considerar como resultado de uma sociedade pensante e moderadamente avançada, teremos fatalmente de estar na extremidade de uma longa cadeia de acontecimentos que incluam períodos razoáveis de estabilidade entremeadas de quantidades certas de desafios e pressões … marcada pela ausência quase total de cataclismos.” Ao tomar conhecimento da realidade transmitida por estas palavras, parece-me óbvio que seria necessário um condicionamento genético na abordagem a alguns problemas fundamentais. A mensagem “erro fatal”, como em qualquer programa de computador, deveria invalidar as opções erradas logo na base. Por ser evidente que somos o resultado da conjugação de uma série de factores e que se as coisas tivessem sido ligeiramente diferentes, as consequências ter condicionariam o surgimento da vida inteligente, tudo deveria ser visto na devida perspectiva. Este facto merece uma reflexão, sobretudo na abordagem que temos tendência a fazer aos nossos problemas, ou melhor, na incapacidade por vezes demonstrada de os relativizar. Com efeito, cada ser humano atribui aos seus problemas a dimensão personalizada, o que o condiciona automaticamente. Este comportamento é recorrente, principalmente naqueles que têm uma visão simplista do mundo e que revelam em permanência uma indiferença absoluta perante os problemas que ultrapassam a esfera da sua existência. Os grandes problemas da Humanidade, onde temos de incluir a sua sobrevivência a longo prazo, são os verdadeiros dilemas que têm que ser enfrentados.
Assim, como resultado desta interiorização de quão ténue é a linha em que a Vida se sustenta, do precário equilíbrio de que depende e das coincidências que a tornou possível (coincidências que para alguns, por não as considerarem como tal, constituem prova da existência de Deus), deveria imbuir a Humanidade, num espírito comunitário na defesa dessa preciosidade cósmica (até prova em contrário).
Além disso, a consciencialização, à luz da descrição de Bryson, de que há muita coisa que tem que ser alterada se queremos continuar a ser a espécie dominante do Planeta, atribui-nos especiais e acrescidas responsabilidades. A luta pela melhoria das condições de vida das pessoas deve ser levada a sério numa base, se possível, diária. Devemos tentar não deixar assuntos que podem ser agora resolvidos pendentes para as gerações futuras, principalmente quando estes não o são por manifesta falta de vontade política para o fazer. Se o problema for transgeracional, mais tarde ou mais cedo, terá que ser enfrentado. Não adianta fechar os olhos ou fingir que não existe.

Todos sabemos que nada disto sucede. O mundo e a sociedade apresentam-nos diariamente situações de tal modo chocantes, cujas injustiças inerente ás mesmas são tal forma monumentais, que se por um lado vamos criando anticorpos que vão reduzindo progressivamente o impacto emocional, por outro lado nos vão confrontando com a nossa própria inércia existencial. Falando, falando mas nada fazendo. Pelo menos até há pouco tempo atrás e ainda não na medida correcta.
Certo dia introduziram-me no mundo dos blogs. Um mundo onde circulam muitos espíritos livres e que exercem aí o seu direito à indignação. A disponibilidade demonstrada é digna de ser realçada. Porque não têm voz para o manifestar publicamente, porque era necessário exorcizarem os seus demónios, porque não conseguem ficar calados, porque são inteligentes e porque sentem a responsabilidade de preparar um mundo melhor que o que receberam para as gerações futuras, dedicam-se, numa espécie de irmandade nascida do espírito da Democracia, a lutar contra aquilo que aos seus olhos configuram injustiças, Não esperam, pelos governos para promover a mudança, insurgem-se e fazem-no.
Parece-me, por tudo isto, que o vazio existencial e a estagnação do ser, inevitavelmente, colar-se-ia à alma de cada um dos que se enquadram neste perfil, não fosse esta possibilidade que emana dos blogs, onde ultimamente li alguns dos textos mais bem escritos e fundamentados no exercício da contestação ao status quo. Estas pessoas dão-me esperança no futuro. São a prova cabal de que a pena é mais forte de que a espada, estão presentes na primeira linha de um processo irreversível para fomentar a inversão de mentalidades que o país precisa, fenómeno que espera se propague com uma enorme vitalidade para forma deste universo ainda pequeno.
Recentemente li uma frase de Oscar Wilde – “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” Desde que me indicaram este caminho sinto-me mais vivo, graças a quem me apontou esta direcção, aos que já andam nisto há muito, aos que criticam o que escrevo, em concordância ou não, aos que apenas lêem, mas andam por cá em busca de ordem nos seus pensamentos e de não sentirem a solidão que muitas vezes se apodera de quem não é compreendido pelos que se renderam ao sistema.
publicado por armando ésse às 15:38

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