A FÁBRICA

Março 09 2006

Vinte anos depois de ter assumido o cargo de primeiro-ministro e após dez anos de afastamento da ‘ribalta‘ política, Cavaco Silva chega hoje a Belém para cumprir o mandato de cinco anos como Presidente da República. Longe da política activa desde 1996, Cavaco Silva regressou em Outubro de 2005 para tentar conquistar a Presidência da República, que lhe tinha escapado para Jorge Sampaio dez anos antes. Um regresso meticulosamente preparado, onde não houve margem para imprevistos. Tal como tinha feito durante os dez anos em que esteve afastado da vida política, desde que apresentou a sua candidatura presidencial, a 20 de Outubro, e até ao início da campanha eleitoral, as suas intervenções foram poucas e sempre estudadas ao pormenor. Durante a volta que fez ao país nas três semanas que antecederam as eleições de 22 de Janeiro, onde conseguiu alcançar a vitória à primeira volta com 50,5 por cento dos votos, Cavaco Silva visitou os 18 distritos do continente e fez uma curta passagem pela Região Autónoma da Madeira. Nos discursos, Cavaco Silva repetiu habitualmente as mesmas ideias, prometendo cooperar com o Governo, mas mantendo sempre um “olhar” vigilante às acções e políticas do executivo de José Sócrates. O novo Presidente da República assumiu ainda a sua intenção de manter um papel decisivo na melhoria da situação económica e na recuperação do atraso do país em relação à média da União Europeia, garantindo que irá “ajudar o país a sair da crise”.As polémicas estiveram praticamente ausentes da campanha, com Cavaco a recusar entrar em “diálogo” com os seus adversários e a evitar falar de questões “quentes” da actualidade política. O homem que acha que “quase nada acontece por acaso”, foi primeiro-ministro durante dez anos (1985-1995), nos primeiros anos de Portugal na Comunidade Europeia, da política de betão, das auto- estradas e das reformas, obtendo para o PSD duas maiorias absolutas afastou-se, em 1996, da ribalta.
Aníbal Cavaco Silva nasceu em Boliqueime (Algarve) em 15 de Julho de 1939. Na escola, foi um aluno médio e aos 13 anos chumbou no terceiro ano da Escola Comercial. Como castigo, o avô obrigou-o a trabalhar de enxada na mão na horta. Em 1964, licenciou-se em Finanças no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), com uma média de 16 valores. Já casado com Maria Alves da Silva, de quem teve dois filhos (Patrícia e Bruno), Cavaco Silva cumpriu, em 1964, o serviço militar obrigatório em Moçambique, como oficial miliciano da Administração Militar. A carreira docente é iniciada em 1966, como assistente do ISCEF, mas dois anos depois Cavaco ingressa na Universidade de York (Reino Unido), onde, em 1973, faz o doutoramento. Regressado a Portugal, foi professor auxiliar no ISCEF (1974), professor na Universidade Católica (1975), professor extraordinário na Universidade Nova de Lisboa (1979) e Director do Gabinete de Estudos do Banco de Portugal. A política só entra na sua vida após o 25 de Abril de 1974, aderindo logo nesse ano ao então PPD, de Sá Carneiro, de quem é um admirador. Antes de chegar à liderança do partido, Cavaco Silva esteve no gabinete de estudos do PSD e foi ministro das Finanças do Governo de Francisco Sá Carneiro (1980-81). Com a morte de Sá Carneiro, em Dezembro de 1980, e a crise na Aliança Democrática, abandona o executivo e lidera com Eurico de Melo uma oposição a Pinto Balsemão. É deputado (1980) e presidente do Conselho Nacional do Plano (1981-1984). Em 1985, Cavaco Silva vai ao congresso da Figueira da Foz fazer a rodagem do seu Citroen BX e ganha surpreendentemente a liderança do partido na disputa com João Salgueiro. Depois, rompe o acordo de coligação com o PS (Bloco Central), iniciado pelo falecido Mota Pinto, e provoca eleições antecipadas. Após ganhar as legislativas de 1985, com maioria relativa, Cavaco Silva forma um governo minoritário que durou cerca de dois anos. Em 1987, o executivo cai com uma moção de censura apresentada pelo PRD no Parlamento. É então que conquista a primeira maioria absoluta do pós-25 de Abril, que repete nas legislativas de 1991. É na fase final do seu mandato - ironicamente depois de o PSD ter apoiado a reeleição de Mário Soares para Belém - que atravessa o período mais conturbado das relações com o Presidente da República. Em 1994, alimenta durante largos meses o famoso “tabu” sobre a sua hipotética recandidatura ao cargo de primeiro-ministro, que só seria quebrado muito próximo das legislativas de 1995. Quebrado o tabu, Cavaco deixa a liderança social-democrata para Fernando Nogueira e, em 1996, decide candidatar-se a Belém, mas perde para o socialista Jorge Sampaio. De 1996 até à data em que anunciou a sua candidatura a Belém, o primeiro-ministro que fez do sigilo uma regra do seu gabinete e entende que “a qualidade nunca é um acidente e que quase nada acontece por acaso” quebrou poucas vezes o silêncio para comentar a política portuguesa. Dez anos depois da primeira candidatura à Presidência da República, Cavaco Silva regressou à vida política activa vencendo as presidenciais de Janeiro de 2006, à primeira volta, com 50,5% dos votos. Pela primeira vez em 31 anos de democracia, Portugal elegeu um presidente de centro-direita, deixando pelo caminho os cinco candidatos representantes da esquerda: Manuel Alegre (20,7%), Mário Soares (14,3%), Jerónimo de Sousa (8,6%), Francisco Louçã (5,3%) e Garcia Pereira (0,4%).

Aníbal Cavaco Silva, toma posse hoje como Presidente da República, será o 18º Chefe do Estado português desde a implantação da República, em 5 Outubro de 1910, e o quarto eleito em democracia.

Lista dos Presidentes da República:

- Jorge Fernando Branco de Sampaio:
Nasceu em Lisboa, a 18 de Setembro de 1939.
Profissão - Advogado.
Eleito a 14 de Janeiro de 1996.
Reeleito a 14 de Janeiro de 2001.
Presidente da República de 9 de Março de 1996 a 9 de Março de 2006.






- Mário Alberto Nobre Lopes Soares:
Nasceu em Lisboa, a 7 de Dezembro de 1924.
Profissão - Advogado.
Eleito a 16 de Fevereiro de 1986 (segunda volta).
Reeleito a 13 de Janeiro de 1991. Presidente da República de 9 de Março de 1986 a 9 de Março de 1996.




- António dos Santos Ramalho Eanes:
Nasceu em Alcains (Castelo Branco), em 25 de Janeiro de 1935.
Profissão - Militar.
Eleito a 27 de Junho de 1976.
Reeleito a 7 de Dezembro de 1980.
Presidente da República de 14 de Julho de 1976 a 9 de Março de 1986.






- Francisco da Costa Gomes:
Nasceu em Chaves, a 30 de Junho de 1914.
Morreu a 31 de Julho de 2001.
Profissão - Militar.
Assumiu a Presidência da República a 30 de Setembro de 1974 por indicação da Junta de Salvação Nacional, devido à demissão do general Spínola.
Presidente da República até 14 de Julho de 1976.




- António Sebastião Ribeiro de Spínola:
Nasceu em Estremoz (Évora), a 11 de Abril de 1910.
Morreu em Lisboa, a 13 de Agosto de 1996.
Profissão - Militar.
Nomeado Presidente da República pela Junta de Salvação Nacional, a que preside, a 15 de Maio de 1974.
Presidente da República até 30 de Setembro de 1974, dia em que se demite do cargo.




- Américo de Deus Rodrigues Thomaz:
Nasceu em Lisboa, a 19 de Novembro de 1894.
Morreu em Cascais, a 18 de Setembro de 1987.
Profissão - Militar.
Eleito a 8 de Junho de 1958.
Reeleito em 1965 e 1972, por colégio eleitoral. Presidente da República de 9 de Agosto de 1958 a 25 de Abril de 1974 (derrubado pelo Movimento das Forças Armadas, que levou à queda do regime do Estado Novo).




- Francisco Higino Craveiro Lopes:
Nasceu em Lisboa, a 12 de Abril de 1894.
Morreu em Lisboa, a 2 de Setembro de 1964.
Profissão - Militar.
Eleito a 21 de Julho de 1951.
Presidente da República de 9 de Agosto de 1951 até Julho de 1958.






- António Óscar de Fragoso Carmona:
Nasceu em Lisboa, a 24 de Novembro de 1869.
Morreu em Lisboa, a 18 de A bril de 1951.
Profissão - Militar.
A Presidência da República assinala que Óscar Carmona, então presidente do Ministério, era implicitamente o Chefe do Estado desde 9 de Julho de 1926, já que não existia presidente. Foi nomeado, interinamente, por decreto, para o cargo a 16 de Novembro de 1926. Foi eleito, por sufrágio directo, Presidente da República. Foi sucessivamente reeleito sem opositor a 17 de Fevereiro de 1935, a 8 de Fevereiro de 1942. A oposição apresentou, para as eleições de 13 de Fevereiro de 1949, a candidatura do general Norton de Matos, que se retirou antes da votação.
Presidente da República de 16 de Novembro de 1926 até à sua morte, a 18 de Abril de 1951.

- Manuel de Oliveira Gomes da Costa:
Nasceu em Lisboa, a 14 de Janeiro de 1863.
Morreu em Lisboa, a 17 de Dezembro de 1929.
Profissão - Militar.
Chegou à chefia do Estado na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, que liderou, que pôs termo à I República e viria a instaurar a ditadura.
Afastando Mendes Cabeçadas, ocupou a chefia do Estado e do Governo entre 17 de Junho de 1926 e 9 de Julho do mesmo ano, altura em que foi deposto. Foi afastado por Óscar Carmona e Sinel de Cordes, devido à incapacidade para gerir os equilíbrios da nova situação.

- José Mendes Cabeçadas Júnior:
Nasceu em Loulé, a 19 de Agosto de 1883.
Morreu em Lisboa, a 11 de Junho de 1965.
Profissão - Militar.
Chegou à chefia do Estado a 31 de Maio de 1926, dia em que simultaneamente obteve do então Presidente Bernardino Machado a chefia do Governo, enquanto chefe do Ministério. Foi afastado do cargo por Gomes da Costa, em 17 de Junho de 1926.

- Manuel Teixeira Gomes:
Nasceu em Vila Nova de Portimão, a 27 de Maio de 1862.
Morreu em Bougie , Argélia, a 18 de Outubro de 1941.
Profissão - Depois de desistir do curso de Medicina de Coimbra e de ter passado pelos círculos intelectuais de Lisboa, dedica-se com o pai à exportação de figos. Diplomata e escritor. Republicano e democrata, foi eleito Presidente da República na sessão do Congresso de 6 de Agosto de 1923, após um acto eleitoral renhido, tomando posse a 5 de Outubro. Resigna a 11 de Dezembro de 1925.



- António José de Almeida:
Nasceu em Vale de Vinha, concelho de Penacova, a 27 de Julho de 1866.
Morreu em Lisboa, a 31 de Outubro de 1929.
Profissão - Médico.
Eleito Presidente da República na sessão do Congresso de 6 de Agosto de 1919. Foi substituído no cargo a 5 de Outubro de 1923.






- João do Canto e Castro Silva Antunes:
Nasceu em Lisboa, a 19 de Maio de 1862.
Morreu em Lisboa, a 14 de Março de 1934.
Profissão - Militar.
Eleito Presidente da República na sessão do Congresso de 16 de Dezembro de 1918. É substituído no cargo em 5 de Outubro de 1919 por António José de Almeida.






- Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais:
Nasceu em Coimbra, a 1 de Maio de 1872.
Morreu em Lisboa, a 14 de Dezembro de 1918, vítima de um atentado na estação do Rossio.
Profissão - Militar, professor universitário e diplomata.
Depois do golpe de Estado de 5 de Dezembro de 1917, que encabeça, ocupa diversos cargos até chegar a Presidente da República a 27 de Dezembro de 1917.
Sem consultar o Congresso, modifica a lei eleitoral e é eleito por sufrágio directo dos cidadãos eleitores a 28 de Abril de 1918. Foi proclamado em 9 de Maio do mesmo ano, exercendo o cargo até à morte, a 14 de Dezembro.

- Bernardino Luís Machado Guimarães:
Nasceu no Rio de Janeiro, em 28 de Março de 1851.
Morreu no Brasil, a 2 8 de Abril de 1944.
Em 1872, já a viver em Portugal, opta, aquando da sua maioridade, pela nacionalidade portuguesa.
Profissão - Professor universitário.
A partir da implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, é chamado a ocupar os mais altos cargos na hierarquia política do país. Foi eleito por duas vezes Presidente da República, exercendo a magistratura de 1915 a 1919, e de 1925 a 1929.Não cumpriu nenhum dos mandatos até ao fim, abortados que foram, o primeiro pelo movimento de Sidónio Pais, e o segundo pelo golpe militar do 28 de Maio de 1926. Eleito na sessão especial do Congresso de 6 de Agosto de 1915, dois meses antes do termo presidencial anterior, como previa a Constituição. Tomou posse do cargo a 5 de Outubro de 1915.Após a renúncia de Manuel Teixeira Gomes, Bernardino Machado foi novamente eleito Presidente da República, em 11 de Dezembro de 1925.É substituído no cargo pelo almirante Mendes Cabeçadas em 31 de Maio de 1926.

- Joaquim Teófilo Fernandes Braga:
Nasceu em Ponta Delgada, Açores, a 24 de Fevereiro de 1843.
Morreu em Lisboa, a 28 de Janeiro de 1924.
Profissão - Escritor e professor.
Eleito Presidente da República na sessão do Congresso de 29 de Maio de 1915, em substituição de Manuel de Arriaga, que se demitiu. Cumpre o mandato até 5 de Outubro do mesmo ano, sendo substituído por Bernardino Machado.




- Manuel José de Arriaga Brum da Silveira:
Nasceu na cidade da Horta, Açores, a 8 de Julho de 1840.
Morreu em Lisboa, a 5 de Março de 1917.
Profissão - Advogado e escritor. Foi reitor da Universidade de Coimbra.
Eleito Presidente da República a 24 de Agosto de 1911.
Na sequência da instabilidade governativa, foi obrigado a resignar em 2 6 de Maio de 1915, depois de a 13 de Maio do mesmo ano, sectores da Armada chefiados por Leote Rego e José de Freitas demitirem o Governo. Saiu do Palácio de Belém escoltado por forças da Guarda Republicana.
Fontes:Lusa/«A República e os seus Presidentes», editado pelo Museu da República e da Resistência.
publicado por armando ésse às 09:06
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