A FÁBRICA

Maio 26 2008

Quando acordava nos bosques, na escuridão e no frio, estendia a mão para tocar na criança que dormia a seu lado. Noites de trevas mais densas do que as próprias trevas e cada dia mais cinzento do que anterior. Como os primórdios de um glaucoma frio a obscurecer o mundo. A mão subia e descia suavemente a cada fôlego precioso. Afastou o oleado de tela plástica e soergueu-se sob as vestes e cobertores malcheirosos e olhou para leste em busca de qualquer luz, mas nada viu. No sonho de que despertara tinha penetrado numa gruta onde a criança o conduzira pela mão. A luz que traziam brincava sobre as paredes húmidas de calcário ali depositado pelo escorrer da água. Como peregrinos numa fábula, engolidos por um monstro granítico em cujas entranhas se haviam perdido. Fundos canais de pedra onde a água gotejava melodiosamente, como sinos a dobrar no silencia para assinalar os minutos da terra e as horas e os dias da terra e os anos incessantes. Até que chegaram a uma grande sala de pedra onde havia um lado negro e antiquíssimo e, na margem oposta, uma criatura que ergueu a boca gotejante do rebordo calcário e fitou a luz com olhos brancos e sem vida e cegos como ovos de aranha. O animal baixou a cabeça sobre a água e agitou-a, como que a farejar o que não conseguia ver. Ali agachado, pálido e nu e translúcido, com os ossos de alabastro projectados em sombras nas rochas atrás de si. As vísceras, o coração a bater. O cérebro que pulsava numa campânula de vidro baço. Agitou a cabeça para um lado e para o outro e depois soltou um gemido surdo e deu meia volta e afastou-se em passo trôpego até se eclipsar nas trevas sem ruído.
Com a primeira luz cinzenta ele levantou-se e deixou o rapaz a dormir e caminhou até à estrada e acocorou-se e perscrutou a paisagem que se estendia para sul. Estéril, silenciosa, maléfica. Parecia-lhe que estavam no mês de Outubro, mas não tinha a certeza. Há anos que deixaram de contar os dias por um calendário. Iam para sul. Nunca conseguiriam sobreviver a outro Inverno naquele lugar.
1ª Página do livro, A Estrada, de Cormac McCarthy, Relógio D’Água Editores, Março 2007, sem número de edição.

Nota:Num mundo pós-nuclear, Cormac McCarthy, narra-nos a história de sobrevivência de um pai e de um filho através da América, numa linguagem crua e despojada de qualquer romantismo para com a humanidade.
Segundo o Jornal inglês, The Observer, deveremos ler o livro como “uma meditação sobre a morte”: a morte individual e num sentido mais lato, a meditação sobre o fim apocalíptico da humanidade. Com este romance, Cormac McCarthy arrecadou o Prémio Pulitzer de 2007.
Cormac McCarthy nasceu em Rhode Island, a 20 de Julho de 1933. Na juventude, serviu à Força Aérea dos Estados Unidos durante quatro anos, e estudou Artes na Universidade do Tennessee. Em 40 anos de carreira literária, editou nove romances, entre eles, O Filho de Deus, Meridiano de Sangue, Este País Não é Para Velhos e este, A Estrada.
O escritor é considerado nos últimos anos como um dos grandes nomes do romance contemporâneo norte-americano, ao lado de nomes, como Don DeLillo, Philip Roth e Thomas Pynchon.
publicado por armando ésse às 10:39

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