A FÁBRICA

Maio 16 2006

Em semana de estreia do filme “O Código Da Vinci”, e depois de toda a polémica que surgiu com a publicação do livro, o estranho fenómeno mantém-se. Se atentarmos às reacções de alguns líderes religiosos, aparentemente desesperados com os possíveis efeitos do movimento de questionação promovido por ambas as obras, agem de forma irreflectida sem perceberem que, por absurdo que pareça, são eles próprios que o publicitam e instigam com a sua atitude.
Antes de mais refira-se que eu li o livro e se tudo correr bem vou ver o filme. Todavia, considero muito relativa a sua importância. Para sustentar esta posição, que procurarei fundamentar, avaliando o impacto do livro em duas vertentes, o seu valor enquanto obra literária e a sua importância sociológica, nomeadamente no que diz respeito ás questões que levanta do ponto de vista religioso.
Apesar de serem indissociáveis, pode fazer-se uma análise individual de cada uma. Em relação à questão religiosa, é importante referir que qualquer discussão tem que partir da dicotomia inerente à crença ou ausência dela. Assim, não há lugar para ambivalências, uma vez que tudo se resume a sentimentos, e a lógica não tem aqui qualquer lugar. Ou se acredita ou não. A principal novidade apresentada e que originou toda esta polémica, a questão do casamento de Jesus, já estava no mercado há muito tempo. Só que, na falta de prova histórica, esta interpretação da história pretendente a teoria tem tanto valor como qualquer outra do género, ou seja, nenhum.
É sabido que todos, os crentes e os não crentes, por vezes, se envolvem em discussões acerca da legitimidade de cada uma das posições, tentando convencer a outra facção que a sua é a melhor. Nunca ninguém vence porque, e esta uma verdade irrefutável, estes caminhos em busca da verdade, são caminhos de solidão. Se a dúvida existe, apenas olhando profundamente para o interior de cada um ela se desvanece. Partindo deste pressuposto e imaginado uma discussão deste género, onde um dos envolvidos atira - É tudo mentira, Cristo até foi casado. Se não acreditam, leiam “ O código Da Vinci”. Para além de uma valente gargalhada, uma discussão sobre esta temática onde è esgrimido um argumento destes e se, de alguma forma, este representa uma vantagem argumentativa, é suficientemente revelador da importância da discussão. Parece-me, por isso, que com base neste livro, quem tinha fé vai continuar a tê-la e quem não tinha não viu as suas razões reforçadas.
Suponhamos então, num exercício meramente académico, que Cristo casou. Se ele realmente for filho de Deus, será que isto o diminui em alguma coisa? Se atentarmos á oração do Credo, que em determinada altura diz “E se fez Homem”, não será esta uma forma de o fazer completamente? Se assim foi, parece-me esta apenas uma atitude que visa melhor compreender o que é ser Humano, uma espécie de vestir a pele para absorver a condição humana na plenitude. A tentação exercida quer por homens quer por mulheres uns sobre os outros, a forma como se vive o amor e a ausência dele e tudo o que deriva deste sentimento, experimentar primeira pessoa esta realidade é a melhor forma de conhecer os nossos impulsos, donde derivam a maioria daquilo a que muitos chamam pecados.
O outro lado da questão, o valor literário da obra. Perdurará como obra de referência da Humanidade? Claramente não. Limita-se a ser um bom policial. Sem grande esforço, consegue-se elaborar uma lista de livros que levantam questões muito mais profundas sobre esta temática e que as exploram e dissecam muito para além deste. Só que não venderam tanto e este é que é o verdadeiro problema. Este livro limita-se a partir de uma possibilidade, não fundamentada do ponto de vista histórico, e conta de forma notável um enredo, do tipo teoria da conspiração, em volta do esforço da igreja católica para esconder esta alegada verdade.
A estratégia seguida para desacreditar o livro é que é francamente errada. A atribuição de importância é revelada, por exemplo, quando instiga os católicos a processarem o seu autor (e o mesmo em relação ao filme, que surgiu tão rapidamente devido ao êxito do livro e a indústria cinematográfica, inteligentemente, não perdeu a oportunidade de ganhar algum, ou muito, com isto). Que melhor publicidade poderiam esperar? Será que as questões levantadas do ponto de vista religioso têm algum fundamento para provocarem esta espécie de pânico? Ou então é apenas o medo da debandada que já começou há muito tempo, e não por este motivo mas simplesmente devido ao facto de as pessoas já não se identificarem com uma instituição que não os representa? Se alguém alterou a sua posição relativamente à religião após este livro, apenas o fez porque as suas dúvidas já eram profundas o suficiente e isto foi apenas um pretexto. A sua credibilidade enquanto obra relatora de factos históricos é incipiente.
Não se pode, todavia, ter uma visão demasiado redutora do livro. Eu li, não só este como todos os deste autor. E gostei. Não mudaram a minha vida ou criaram um sentimento avassalador como já o fizeram muitos outros, facto que os tornou as minhas obras de referência, mas são os melhores que li do género.
Ler, é por tudo isto, um processo que estimula o auto conhecimento. Já há muitos anos, no auge de uma adolescência muito pouco votada a hábitos da leitura, com a arrogância natural desta fase da vida, comecei a sentir-me vazio. Dentro dos meus limitados horizontes, que de repente se viram alargados exponencialmente sem eu estar preparado, perdi-me na noite. Alguém muito mais experiente do que eu, emprestou-me um livro. Jamais me esquecerei. Contacto de Carl Sagan. Há medida que o lia, senti-me ainda pior. O espelho revelou-se demasiado eficaz. Vi exactamente aquilo que era. Ignorante, principalmente. Mas, ao mesmo tempo, a sua leitura empurrou-me para um mundo sem igual. Tornei-me ávido de conhecimento, apercebi-me do valor dos livros e agora leio compulsivamente.
Se este autor já vendeu um milhão de livros em Portugal, dos quais nem todos seriam leitores assíduos, alguém pode ter sentido o mesmo tipo de revelação. Se 1% começar a ler assiduamente, são 10.000 pessoas que encontraram a origem do seu descontentamento, que iniciaram um caminho através do mundo da leitura, que é sem retorno, queremos sempre mais e mais, e que, certamente, mesmo estando latente, se não fosse esta primeira experiência, não afloraria.


Filipe Pinto.
publicado por armando ésse às 17:46

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