A FÁBRICA

Abril 18 2006

A História de Portugal está repleta de factos gloriosos que nos enobrecem enquanto Nação, porém, também têm alguns acontecimentos hediondos, em que o fanatismo e a intolerância, tomaram conta da multidão, levando-os a assassinar cruel e estupidamente milhares de inocentes.
Nos próximos dias, 19, 20 e 21 de Abril, cumprir-se-ão quinhentos anos, de uma das mais negras e vergonhosas páginas da História de Portugal, o massacre de, entre três mil e quatro mil, cristãos - novos na cidade de Lisboa.
Na segunda metade do século XV, a Península Ibérica tinha mais judeus do que qualquer outra região do mundo. Ocupada durante séculos pelos muçulmanos, que concediam aos judeus liberdade de culto, a Península Ibérica tornou-se um refúgio ideal e palco de uma intensa troca civilizacional entre elementos das culturas cristã, muçulmana e judaica.
Com a chegada ao poder dos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que se auto-intitulavam protectores da Igreja e defensores da fé e, instigados pelo triste e dramaticamente célebre Torquemada, confessor da rainha Isabel e figura principal da Inquisição espanhola, a vida calma dos judeus sefarditas estava a chegar ao fim, com o crescimento da política anti-semita, baseada no desejo de uma unificação e purificação religiosa. Torquemada explorava a desconfiança popular em relação aos judeus e difundia a suposta necessidade de que o país contasse apenas com sangue puramente cristão.
Com um clima de crescente intolerância, em 30 de Março de 1492 Fernando e Isabel publicaram o seu édito de expulsão, que determinava que os judeus que não se convertessem teriam de deixar o país até ao dia 3 de Agosto de 1492 (por curiosidade histórica, este foi o dia em que Cristóvão Colombo, deixou o porto de Palos, na sua viagem de descoberta da América), a partir daí, os que fossem encontrados seriam mortos.
Muitos dos judeus procuraram refúgio em Portugal, (os cálculos sobre os números dos que então se fixaram em Portugal oscilam, segundo as fontes, entre 30 000 e 90 000), sendo protegidos pelo rei Dom João II.
No entanto esta protecção seria sol de pouca dura, pois com a morte do rei D. João II, subiu ao trono de Portugal, D. Manuel I, que começou alimentar o sonho de ser rei de toda a Península Ibérica. O fundamental passo para a sua ambição, era o casamento de D. Manuel com a filha dos Reis Católicos, de modo a facilitar uma união dinástica, no entanto havia uma condição sine qua non para o casamento, a expulsão dos judeus de Portugal. O Rei no seu sonho e ambição, acabou por aceitar a exigência espanhola de expulsar todos os judeus residentes em Portugal que não se convertessem ao catolicismo, assim no dia 5 de Dezembro de 1496, promulgou o édito de expulsão dos judeus. Por este édito os judeus e os mouros deveriam abandonar o reino até Outubro de 1497.
Na realidade D. Manuel não tinha qualquer interesse em expulsar esta comunidade, que então constituía um destacado elemento de progresso nos sectores da economia e das profissões liberais. A sua esperança era que, retendo os judeus no país, os seus descendentes pudessem eventualmente, como cristãos, atingir um maior grau de aculturação. Para obter os seus fins lançou mão de um subterfúgio, em vez de expulsar os judeus, decidiu convertê-los à força, tendo ordenado que os filhos menores de catorze anos fossem tirados aos pais a fim de serem convertidos.

"Na manhã de 19 de Março de 1497, padres e frades alinharam-se no adro de todas as igrejas de Portugal. Mas foram muito poucos os filhos dos judeus conduzidos espontaneamente à pia baptismal. Então, os funcionários do Rei foram de casa em casa e, arrancando os filhos do colo dos pais, levaram-nos à força. Muitos pais sufocaram os filhos ao apertá-los num derradeiro abraço. Muitas mães atiraram os bebés aos poços e depois suicidaram-se". Depois, quando chegou a data do embarque dos que se recusavam a aceitar o catolicismo, alegou que não havia navios suficientes para os levar e determinou um baptismo em massa dos que se tinham concentrado em Lisboa à espera de transporte para outros países. Muitos foram arrastados até à pia baptismal pelas barbas ou pelos cabelos. Ao que parece, cenas semelhantes registaram-se noutras cidades do país. Não existe contudo documentação oficial que confirme estes factos.
No fim do mês de Setembro de 1497, ficava saldado o preço que D. Manuel tivera de pagar para casar com a Princesa Isabel, de Espanha. O Rei respondeu à namorada afirmando que já não havia nenhum judeu em Portugal.
Para além dos que anteriormente tinham aceitado o baptismo sob pressão das circunstâncias, Portugal passava então a contar com uma enorme quantidade de cristãos -novos extremamente relutantes em aceitar o estatuto que lhes fora imposto. A situação dos convertidos era agora trágica. Antes, como judeus, tinham liberdade absoluta de praticar a sua religião. Agora, como cristãos por lei, não poderiam seguir o culto tradicional senão secretamente, sob pena de graves consequências. Céptico quando à ortodoxia dos convertidos, sobretudo dos forçados, D. Manuel promulgou a 30 de Maio de 1498 uma medida no sentido de que durante vinte anos não devessem ser molestados pelas suas convicções ou práticas religiosas.

Até 1506, os cristãos - novos puderam levar uma vida relativamente calma e prosperar. Mas o clero insistia:” O comportamento ambíguo dos marranos,( termo pejorativo, que designava os judeus obrigados a baptizarem-se à força, mas que continuavam a professar secretamente a sua fé), põe em causa muitas das certezas dos cristãos. E as consequências estão à vista: os costumes vão-se degradando, treme até o equilíbrio social. São necessários castigos exemplares, regras rígidas e dissuasoras. Nos casos mais graves, a própria morte.”
Devido a uma violenta seca que assolava Portugal, no princípio do ano de 1506 Portugal estava reduzidol à fome, agravada com uma peste que assolava a cidade de Lisboa, sendo que a sua intensidade em Abril era tanta que chegavam a “morrer um cento de indivíduos por dia”. “A culpa é dos marranos, que provocaram a ira de Deus com os seus pecados contínuos”, era a opinião comum. "Na manhã da Páscoa, 19 de Abril de 1506, uma enorme multidão enche a Igreja de São Domingos, para implorar o fim da epidemia. Por entre densas espirais de incenso e cânticos lúgubres, celebra-se a missa na Capela de Jesus. No momento da consagração, do braço de um crucifixo de madeira erguido ao lado do ostensório do altar-mor, solta-se inesperadamente uma luz. Alguém grita, Milagre! De imediato todos começaram a gritar e devido ao espanto e ao medo caíam por terra, desmaiavam, contorciam-se em convulsões, batiam no peito gritando a minha culpa. Entre a multidão enlouquecida, um marrano, murmurou, que era apenas um feixe de luz. De repente já ninguém se interessava pela cruz milagrosa. Logo se acendeu contra ele a indignação dos crentes, incitada talvez pelos autores do suposto milagre. O blasfemo foi empurrado para fora da Igreja e desfizeram-na antes de poder pôr o pé no adro. O seu corpo foi arrastado pelas ruas e depois queimado."
Entretanto, os marinheiros alemães, holandeses, franceses que estavam atracados no porto de Lisboa, juntaram-se à multidão em fúria. Seguiu-se um massacre. "Nesse Domingo, seiscentos marranos foram apanhados de surpresa nas suas cozinhas, nos pátios, nas hortas, na rua e até nas igrejas cristãs onde tinham procurado refúgio. Os homens foram degolados, as crianças esquartejadas, as mulheres violadas, foram saqueadas e incendiadas as casas, os animais, as hortas e os jardins".
No dia seguinte, dois dominicanos ,o frei português João Mocho e o frei aragonês Bernardo, alimentaram a fúria do povo marchando pelas ruas com o crucifixo milagroso na mão, e gritavam, “heresia, heresia!” incitando o povo a dar caça aos hereges. Rapidamente se alastrou o fanatismo e o desgoverno pela cidade. "
Os cristãos novos que desprevenidamente circulavam pelas ruas eram espancados e mortos, arrastados, às vezes ainda vivos, atirados às fogueiras prontamente construídas na Ribeira e no Rossio. A barbárie tomou as formas mais perversas, dando lugar à vingança, à calúnia, à luxúria e ao roubo. Alguns dos cristãos velhos foram perseguidos e, para se salvar, tiveram que mostrar que não eram circuncidados. Invadiram e saquearam as casas dos cristãos novos, maltratando homens, mulheres, velhos e crianças. Tomavam crianças dos peitos das mães e, segurando-as pelos pés, atiravam-nas contra paredes, esmagando seus crânios. Donzelas e mulheres casadas eram violadas e atiradas às fogueiras espalhadas pelas ruas inundadas por sangue. Com a chegada da noite veio também o cansaço dos carniceiros e a barafunda cessou, dando oportunidade para que os cristãos novos fugissem ou se escondessem, auxiliados por cristãos velhos verdadeiramente tementes a Deus". Nesse dia morreram cerca de dois mil cristãos novos. Na terça, 21 de Abril, como as vitimas escasseavam a multidão foi-se acalmando, deixando atrás de si, entre três e quatro mil lisboetas mortos.
Entretanto um mensageiro tinha ido ao encontro do Rei D. Manuel I, que devido à peste se encontrava, no seu palácio em Abrantes, para lhe dar conhecimento do massacre que estava em curso na cidade de Lisboa.
"O Rei Dom Manuel foi arrebatado por uma raiva incontrolável. Ficou horrorizado com a terrível matança, mas acima de tudo não admitia que os padres se arrogassem o direito de provocar massacres, e ordenando o castigo de quem provocara o “santo delírio”, enviou para Lisboa um pequeno exército chefiado pelo regedor Ayres da Silva e pelo governador Álvaro de Castro.

Os dois frades foram destituídos, estrangulados e queimados na fogueira. Foram executados mais 30 homens vistos a apunhalar, estuprar, desmembrar e queimar marranos. Os cidadãos em geral foram multados num quinto das suas propriedades e privados do direito de eleger os conselheiros comunais. Lisboa foi castigada com a proibição de exibir, durante seis meses, o altíssimo título de “cidade sempre leal”.

publicado por armando ésse às 03:18

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